CULTURA

Comenda Câmara Cascudo celebra povo brasileiro no Senado

O cordelista potiguar Antônio Francisco e o rabequeiro alagoano Nelson da Rabeca foram os primeiros artistas do país a receber, no plenário do Senado Federal, a Comenda de Incentivo à Cultura Luís da Câmara Cascudo. A lista de agraciados foi maior, mas Antônio e Nelson representam a raiz do prêmio idealizado pela senadora Fátima Bezerra (PT) e concedido pelo Senado nesta segunda-feira (10).

A partir de agora, a comenda será entregue anualmente a personalidades da cultura brasileira. Os premiados de cada ano serão definidos por uma comissão de senadores.

Em 2018, primeiro ano da premiação, também receberam a comenda o ex-presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine) Nilson Rodrigues da Fonseca, o ator Pedro Baião, além de duas instituições: Câmara Brasileira do Livro e o Museu da Gente Sergipana. Também foram homenageados, in memorian, o baiano Romualdo Rosário da Costa (Mô do Katendê), o gaúcho João Carlos D’ Ávila Paixão Côrtes e o folclorista potiguar Deífilo Gurgel, cujo filho Carlos Gurgel agradeceu lembrando a trajetória do pai.

A entrega da comenda foi marcada por manifestações de protesto contra a já anunciada extinção do Ministério da Cultura. Uma do senador Paulo Paim (PT/RS), que citou o historiador Luiz Antônio Simas e destacou que o MinC é do povo brasileiro, e outra do ex-presidente da Ancine Nilson Rodrigues da Fonseca, que comparou a situação do MinC no futuro governo Bolsonaro com a extinção da Embrafilme, no governo Collor :

– Cascudo foi um dos primeiros historiadores do país a descobrir a diversidade da nossa cultura. E existe uma preocupação com a extrema gravidade da extinção do MinC. Não há país desenvolvido sem política pública que compreenda a riqueza do seu país. Lembremos quando o MinC foi extinto a última vez, em 1990, e só foi retomado quando o então presidente Itamar Franco viu como foi grave destruir suas instituições que fomentam e apoiam a cultura. Isso é muito grave. Que os senhores senadores aqui lutem contra a extinção do MinC porque a cultura mede o grau de civilidade de uma nação.

O cordelista potiguar Antônio Francisco agradeceu a homenagem em versos

Luís da Câmara Cascudo foi representado pela neta Daliana Cascudo, diretora do Instituto Ludovicus, entidade que concentra o maior acervo de Câmara Cascudo no Brasil. Ela contou histórias sobre a tentativa do avô de entrar para a política e ressaltou o legado dele, uma das maiores referências do país na área da cultura:

– “Essa comenda simboliza com fidedignidade seu objetivo. Nas palavras de Cascudo, cultura popular é básica, de uma sabedoria infinita. É uma mistura de constatações no tempo e no espaço. Todas as outras culturas são acessórias, a cultura popular é a principal. O Brasil sempre foi sua paixão e seu maior foco de estudo. Cascudo encantou-se há 32 anos, mas sua obra permanece viva. E a iniciativa da senadora Fátima Bezerra contribui de forma inequívoca para eternizar o nome de Luís da Câmara Cascudo”, disse.

O cordelista Antônio Francisco e o rabequeiro Nelson da Rabeca agradeceram a homenagem recitando poesia e tocando no púlpito do Senado. O alagoano, inclusive, lembrou que aprendeu a tocar aos 54 anos de idade, e hoje, aos 76 anos, fabrica o próprio instrumento:

– “Hoje eu vendo a rabeca para o mundo todo. Toquei muito Luiz Gonzaga. Aos poucos fui deixando as músicas dos outros e passei a tocar minhas próprias músicas”, contou.

O ator Pedro Baião, que tem síndrome de down e foi indicado a receber o prêmio pelo senador Romário (Solidariedade/RJ), agradeceu a homenagem e reivindicou mais acesso à cultura no país:

– “Estou muito feliz de estar aqui. Se você tem um sonho, lute por ele. Sem cultura nós não vamos a lugar nenhum. É com cultura que temos que enfrentar essa batalha. Temos que ter mais cinema, mais livros, incentivar a população a ler e a pensar mais. Nossa situação é grave sim, mas temos que dar a volta por cima. Temos que lutar para viver e aprender como a vida é “, afirmou.

Povo brasileiro

Idealizadora da Comenda, a senadora Fátima Bezerra presidiu a sessão e destacou a importância de Luís da Câmara Cascudo para o país.

A matéria-prima do trabalho de Cascudo era o povo brasileiro. Ele estudava o homem a partir de sua história, das diferentes origens, dos romances, das poesias e, principalmente, do folclore. Não poderia deixar de registrar o imenso orgulho que tenho, na condição de representante do povo potiguar, de ter sido a autora do projeto de resolução que instituiu essa comenda no âmbito do Senado Federal, essa comenda que de maneira muito simbólica tem o nome de Luís da Câmara Cascudo.

Fátima Bezerra, que deixa o senado em 31 de dezembro para assumir a partir de janeiro o Governo do Estado, encerrou a premiação criticando o movimento Escola Sem Partido:

– Esse projeto Escola Sem Partido, no fundo, é a escola com mordaça. São ideias esquisitas de pessoas que querem restringir a liberdade de ensinar e de aprender, que querem interditar o debate que deve ser realizado. É um projeto que quer criminalizar o papel dos professores. Então, diante desses tempos, é muito bom falar de Cascudo. Por isso é muito bom ter aqui todas e todos vocês que merecidamente estão recebendo hoje que é a comenda Luís da Câmara Cascudo.

Cascudo

Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) nasceu em Natal (RN) e dedicou a vida aos estudos da história, da cultura e do folclore brasileiros. Como escritor, publicou mais de 200 livros, entre elas “Antologia do Folclore Brasileiro” (1943); “Geografia dos Mitos Brasileiros” (1947); “História do Rio Grande do Norte” (1955); “Jangadas: Uma Pesquisa Etnográfica” (1957); “Rede de Dormir” (1959); ”Nomes da Terra”, (1968); “A Vaquejada Nordestina e Suas Origens” (1974); e “Antologia da Alimentação no Brasil” (1977).

 Para os especialistas em Câmara Cascudo, o grande mérito da pesquisa do historiador foi o de fazer um vasto trabalho de documentação de micro realidades ao longo de décadas de ação. Um trabalho que resultou em vasta contribuição para a reflexão de muitos pensadores brasileiros.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"