As várias facetas e outras histórias de Enio Cavalcante
Quem assiste Enio Cavalcante nos filmes, novelas e streaming, nem imagina há quanto tempo ele carrega a bagagem da atuação nas costas. Apesar de ter se tornado bastante conhecido no audiovisual, o artista potiguar tem longos anos de atuação no teatro, que começou no colégio e acabou salvando os difíceis anos escolares.
Com atuação em algumas novelas da Globo, como “Mania de Você” e “Dona de Mim”, além de muitos outros trabalhos como Yabá, Mais um João, BoyCam e Sideral, Enio Cavalcante despontou com a série Cangaço Novo. Natalense do bairro de Neópolis, ele está em fase de preparação para rodar um filme em Recife e foi de lá que ele fez uma pausa para falar com a gente. Confira!
Saiba Mais – Como foi a entrada no universo das artes?
Enio Cavalcante – Comecei ainda na escola fazendo teatro em 1999 com o Grupo Facetas, Mutretas e Outras Histórias. Mas, também trabalhei em vários grupos, como o Clowns de Shakespeare, a Gaya Dança Contemporânea, a Casa da Ribeira, o Grupo Estação, além de autos e projetos. Comecei no cinema em 2007 com o filme o Quarto Mundo, de Matyeu Duvignaud e Buca Dantas, depois teve Bolou, de Rodrigo Sena, foi quando comecei a viajar para festivais e ganhei o Festival do Vale dos Dinossauros, em Souza, na Paraíba, que é bem importante. Mas, ainda fazia muito teatro, que era meu foco maior. Fiz peças, circulei pelo Brasil, fiz Palco Giratório e tive duas experiências na Globo com ‘Amores Roubados’ e ‘Onde Nascem os Fortes’. A partir daí entrei de cabeça no audiovisual, até me afastando mais do teatro e buscando trabalhar com cinema.
Trabalhei de forma mais contínua, BoyCam foi o primeiro deles, foram filmes com maior protagonismo, também teve Sideral, Impermanentes, meu primeiro longa que foi ‘O Alecrim e o Sonho’, de Valério Fonseca. A partir desse filme fui fazer ‘Fim de semana do paraíso selvagem’, em Recife. Um projeto foi alimentando o outro, mas depois de 2016 a coisa ficou mais contínua até chegar Cangaço Novo e me colocar para trabalhar realmente com o audiovisual, foi quando consegui me projetar mais nacionalmente. Depois veio ‘Guerreiros do Sol’, Sintonia. Esse ano já gravei novela, o filme ‘Irmandade Salve Geral’, Irmandade é uma série da Netflix, que eles agora fizeram um filme e, recentemente, fiz o filme da Anna Muylaert, ‘Geni e o Zepelim’.
SM – Você é de Natal?
EC – Sou de Natal, criado em Neópolis, Conjunto Pirangi, onde nasceu o grupo de teatro Facetas e onde constituímos, também, o Espaço Tecesol que abriga outros projetos, além de grupos de teatro e música e atividades voltadas para educação artística. É um espaço para oficinas e criação de peças, produzir cenários.
SM – Estudou em escola pública? Passou algum perrengue na vida?
EC- Estudei em escola particular até a 8ª série, no primeiro bimestre saí. Minha mãe teve um problema financeiro e com muito choro me colocou na escola pública, na Escola Municipal Professor Antônio Severiano, que foi onde comecei a fazer teatro. A escola pública, na verdade, foi uma grande descoberta, tive muitos problemas para me adaptar e o teatro me salvou nesse processo. O teatro já era parte da minha vida. Eu brincava de teatro, fazia peças na rua, tinha um palco no quintal, mas eu não ia ao teatro. Minha família não acessava cultura, eu não tinha livros em casa, então a primeira peça que eu vi foi a que eu fiz. Depois fui fazer o 1º ano na Escola Estadual Berilo Wanderley, reprovei e quando fui fazer o 1º ano de novo o grupo Facetas iniciou seu projeto através das atividades extracurriculares da professora Monique Oliveira. Foi ela que começou o projeto Facetas, abriu uma oficina e fiquei na escola até dois anos depois de concluir o segundo grau com o grupo Facetas. Nessa época, o grupo era um projeto social por onde passaram mais de 200 pessoas. Fizemos peças em vários lugares da cidade, montamos Dias Gomes, Ariano Suassuna, peças nossas, adaptações de livros, foi um momento efervescente para o teatro amador. Depois o grupo sai da escola, se fecha, cria um CNPJ, se inscreve como Ponto de Cultura e começa a concorrer a editais e assim começamos nossa carreira profissional na cidade”.

SM – Você também trabalhou com outros grupos?
EC – Nessa época também comecei a trabalhar com o Clowns de Shakespeare, Marcos Bulhões, João Marcelino, começo a mergulhar em tudo que posso fazer. Eu não fiz academia, então todos os cursos que pude fazer, todas as oficinas e lugares onde pude entrar, eu entrei. Minha intenção era pegar experiência com esses fazedores de cultura. Trabalhei com Fernando Yamamoto, Marco França, César Ferrario, Titina Medeiros, Quitéria Kelly, João Júnior, João Marcelino, Henrique Fontes, Rosinaldo Luna, Rogério Ferraz, o Grupo Estação, que foi importante na minha carreira, com eles fiz duas peças: ‘O Quintal de Luiz’ e ‘Guerras, Formigas e Palhaços’, quando realizei o sonho de fazer o Palco Giratório, acho que viajamos 23 estados do país, foi uma grande experiência. Até chegar a pandemia, eu tinha cerca de cinco peças em repertório, uma tinha 14 anos, outras dez, outra tinha cinco anos e outra três, mas foi através desse repertório que sobrevivia. A ocupação de espaços não convencionais foi muito importante, nos apresentamos em assentamentos, em centros comunitários, em ruas, praças, casas…. o grupo Facetas foi muito importante, sempre me vi como um artistas territorial e foi essa identidade que formou o grupo, o Tecesol e o que somos hoje, o grupo se tornou o Comitê Estadual de Cultura, tem vários outros projeto de educação, então sempre me senti que artisticamente eu tinha que pertencer a um território para só depois sair. Foi no audiovisual que me encontrei e consegui responder a essa angústia, uma ânsia que sentia , um desejo de fazer, mas sempre me identifiquei como artista da tribo e acho fundamental que a gente valorize aquele artista que trabalha dentro da sua comunidade, da escola… porque sem essas pessoas a cultura do país se perde, falta essa visão de pertencimento e valorização desses profissionais que trabalham dentro de seus territórios, fazendo cultura de fato”.

Saiba Mais – Hoje é possível ser reconhecido no próprio território. Antes era preciso ir para Rio/ São Paulo tentar carreira nacional. O mercado mudou?
Ênio Cavalcante – É uma crescente que mistura várias coisas, desde políticas culturais ao acesso a equipamentos, que foi quando comecei a fazer cinema em Natal com produtoras pequenas, sonhadores que foram conseguindo seus equipamentos, computadores. Isso nos deu experiência e há maior valorização sim dos artistas nordestinos, que tem que vir. O audiovisual nordestino leva o audiovisual brasileiro, posso citar cinco atores que estão entre os maiores do país e são nordestinos, o Jesuíta Barbosa, O Irandir Santos, o Wagner Moura, Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo, Fernando Teixeira. Quando fiz Quando Nascem os Fortes havia muitos atores nordestinos com papéis pequenos ou participações, mas hoje abre-se mais espaço para que esses papéis sejam feitos por nordestinos, há maior mesclagem, oportunidade maior. Enquanto fazia curtas em Natal, ia conhecendo vários diretores de elenco e essas pessoas sempre valorizaram meus testes, meu trabalho e por mais que elas me quisessem na produção e que às vezes o mercado ou a produção dissesse “não, não é ele”, fazer bons testes e estar em boa relação com essas pessoas me ajudou muito. Depois de Onde Nascem os Fortes eu sabia que uma hora iam produzir um trabalho aqui e eu vou estar pronto. Foi aí que apareceu Cangaço Novo, quando peguei um bom personagem e houve boas revelações. A O2 tinha interesse em pegar gente do lugar e isso foi muito legal. Depois disso aquele Enio que aparecia no teste, mas não era escolhido porque era de Natal, desconhecido, agora dizia “opa, é o cara de Cangaço Novo!’. É uma bolha difícil de furar, a produtora questiona ‘por que vou trazer o cara se temos nordestinos em São Paulo?’. Só trabalhando mesmo conseguimos quebrar, mas hoje, sem dúvida, os atores nordestinos fazem mais testes e estão sendo chamados. Posso até falar de Irmandade’ que é uma série paulista que fala de PCC, das prisões em São Paulo e lá estávamos vários atores nordestinos sem questionarem nosso sotaque. Um personagem paulista, sem precisar criar a historinha do personagem que emigrou, veio da Paraíba… Nosso sotaque está lá, nossa prosódia está lá porque nós, nordestinos, estamos em todo o país há muito tempo. Temos Jesuíta Barbosa fazendo Ney Matogrosso, que não é nordestino. Tem vários atores mostrando que, para quem está assistindo, isso não é uma questão.

SM – Cangaço Novo foi marcante na sua carreira?
EC –Foi um divisor de água para me projetar, não digo para a mídia nacional, mas pelo menos diretores, produtores do mercado me conhecem. A projeção que a série ganhou ajudou. Eu vinha construindo o arquétipo de um personagem que era violento e foi engraçado quando fiz o teste para Jeremias porque já tinha isso na cabeça. Teve gente que acreditou, tem produtores de elenco que brigam muito pela gente e foi o diviso para pegar a carteira e dizer ‘opa, vamos pra cima!’. Cangaço Novo foi emocionante em vários sentidos, era pandemia, eram as peças que já não tinha mais, estavam fazendo teatro online cheio de dúvidas já pensando em fazer outra coisa da vida pra ganhar dinheiro, é muito emocionante em vários aspectos, não só artísticos, mas emocionais também.

SM – O que está fazendo atualmente?
EC – Estou em Recife para um filme que vai ser rodado em agosto, que veio através de testes. Não posso falar sobre ele agora, estou em preparação, é m filme com dois jovens diretores que estão saindo dos curtas-metragens para fazer os primeiros longas e tem O Almeidinha, que é um filme no Rio Grande do Norte aprovado pela Lei Paulo Gustavo. É um filme no qual já trabalho há alguns anos, o Gustavo Guedes e o Júlio Castro, que são os roteiristas, desde a primeira ideia, já tinham me chamado há cinco ou seis anos e eles conseguiram aprovar a verba. O Almeidinha vai ser gravado em setembro, em Caicó e vai ser muito legal, Caicó é uma cidade muito importante para o cinema potiguar porque é onde foi gravado Boi de Prata. Esse final de semana visitei as locações, comecei a preparação e gravamos em setembro.

SM – Um personagem que deseja fazer?
EC – Isso é tão complexo…. tenho esse arquétipo do bandido, que eu adoro, quero fazer muito e acho que em 90 % dos casos vamos fazer arquétipos parecidos, sempre fui o macho, às vezes o agressor. Fazer o Almeidinha é um personagem que foge disso, é um sonho realizado pra mim … então desejo fazer personagens mais inocentes, puros e com aspecto familiar. É pesado fazer o vilão (ri). Tá começando a rolar, com Anna Muylaert fiz um prefeito, agora o Almeidinha, esse personagem [do filme em Recife] é um trabalhador, mais ingênuo, não está ligado à violência, então também começo a abrir espaço para outros arquétipos.
SM – Um filme?
EC – Tenho algumas referências, como Terra em Transe [de Glauber Rocha]. Os filmes do Kubrick pra mim também são muito especiais. Tem um curta metragem do Wagner Moura que quando eu assisti eu quis fazer cinema. Se chama As Borboletas, está no Youtube. Ele fez quando ainda estava em Salvador. Fico com a História da Eternidade, gostaria que as pessoas conhecessem, reverbera muito no cinema nacional e o que as pessoas estão encontrando hoje em dia quando vão ao cinema, principalmente, a cara do cinema do Nordeste, um filme nacional.
