DEMOCRACIA

Editorial: É preciso lutar pela história

Uma eleição por si só não é capaz de assegurar a estabilidade política e democrática de um país. A vitória de Jair Bolsonaro em outubro de 2018 – cercada de suspeitas de financiamento privado ilegal, uso de caixa 2 e divulgação em massa das chamadas fake news – tem mostrado a um Brasil cada vez mais atônito e polarizado que um líder não se fabrica a partir de notícias falsas.

O descompromisso de Bolsonaro com a democracia é real num país em que, a bem da verdade, os períodos democráticos foram exceção, não a regra. Das urnas, emergiu um presidente da República inapto para comandar a nação, subserviente ao mercado, que terceiriza as principais decisões de ordem econômica e que vem entregando as riquezas brasileiras aos estrangeiros.

Em três meses de governo, Bolsonaro já mostrou ser o presidente mais antipatriota da história da República.

Mas talvez o maior prejuízo em curso para o futuro do país seja a tentativa de um determinado setor conservador da sociedade de reescrever a história.

Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar em que generais se revezavam no poder sem eleições diretas. A ditadura começou com um golpe de Estado em 1º de abril de 1964 que depôs um presidente da República legitimamente eleito pelo povo. João Goulart foi arrancado da presidência e, no lugar dele, assumiu o general Humberto de Allencar Castelo Branco, o primeiro dos cinco ditadores a subir a rampa do Planalto sem que o povo pudesse referendar a escolha do seu principal representante.

Em duas décadas, o país submergiu aos porões de delegacias e centros de tortura. Violência patrocinada por grandes empresas privadas e por uma parcela da imprensa tradicional. Sem os olhos da mídia, a corrupção era varrida para debaixo do tapete da República.

Entre mortos e desaparecidos, a Comissão da Verdade contabilizou 434 vítimas. Uma quantidade maior escapou da morte, mas não das sevícias da tortura, entre elas a ex-presidenta da República Dilma Rousseff, deposta num golpe artificialmente legalizado em 2016 por um grande acordo nacional envolvendo legislativo, imprensa, empresas privadas, o Ministério Público e o Judiciário.

Não há como apagar a história nem reescrever um capítulo tão trágico e sombrio para o país. Quando Jair Bolsonaro autoriza que o Ministério da Defesa comemore um golpe de Estado como o que aconteceu em 1964, o presidente da República está celebrando a tortura, a censura e reconhecendo o direito do Estado assassinar os opositores ao Governo.

Na mesma semana, como uma jogada ensaiada, veio à tona uma entrevista recente do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo ligando à esquerda o nazismo e o fascismo, ideologias sabidamente relacionadas à extrema-direita. A declaração estarreceu a imprensa alemã, para quem os mais de 6 milhões de judeus mortos em câmaras de gás e paredões seguem vivos na memória do país.

O delírio da ameaça comunista propalada por Bolsonaro, seus filhos e auxiliares é a repetição de um discurso falso usado, pelos militares em 1964, para justificar um período de exceção, uma ditadura.

São esses os fatos, é essa a verdade sobre o golpe e a ditadura.

Não basta mais conhecer e entender a história, é preciso também lutar por ela.

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