Abismo entre os entes federados: Desafios para 2023
Natal, RN 18 de jun 2024

Abismo entre os entes federados: Desafios para 2023

1 de agosto de 2022
3min
Abismo entre os entes federados: Desafios para 2023

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Quando autoridades sanitárias negam a ciência é que compreendemos o tamanho do abismo que criamos. Com bastante nitidez a pandemia da Covid-19 mostrou o distanciamento entre os entes federados na gestão do Sistema - Único - de Saúde. Mas esse não é um debate novo, nem é legado do coronavírus.

Em regra municípios, estados, e distrito federal executariam de forma, digamos, harmônica, as políticas de saúde que os competem. A regionalização, um dos princípios organizativos do sistema, deu forma ao movimento síncrono a ser feito pelos entes federados na ampliação da capacidade regional e na oferta de ações e serviços de saúde de acordo com as necessidades de cada território. E parte deste desafio está no campo relacional entre os entes.

A relação entre gestores das três esferas de governo é construída com diálogo nas instâncias colegiadas de pactuação, no entanto, são os núcleos de poderes da gestão municipal do SUS, capilarizados em todos os territórios brasileiros, que operam em entregar aquilo que é mais estratégico em seu contexto geopolítico. Fato é que o estratégico nem sempre se alinha com as prioridades sanitárias, tampouco com o fortalecimento regional. Muros são a todo tempo levantados.

Neste aspecto observamos a regionalização ser desenhada a partir de interesses que nem sempre são públicos, enviesando, assim, o seu processo de fortalecimento. Uma região de saúde com serviços públicos potentes não interessa a muita gente. O SUS precisa resistir frente às corporações.

Esse mês estive em Campo Grande (MS) participando de um congresso de abrangência nacional na área da saúde, que tem como público-alvo gestores e técnicos municipais. Revisitei sensações sobre os desafios municipais, fiquei reflexiva com o descompasso dos fazeres dos entes federados, mesmo diante de tanta pactuação e diálogo entre os pares.

Essa desarmonia reflete, também, em crateras abertas pelos discursos polarizados (esquerda x direita). O desprezo à ciência e a cegueira do facismo conformam um novo problema para dentro do sistema. Logo, penso no tamanho do desafio que teremos em juntar as tantas galeras que fazem o SUS. Os fragmentos de resistência que unem os gestores devem se preocupar com isso.

Podemos e esperamos ter em breve um novo ciclo para a saúde pública no Brasil. A derrota do atual presidente é essencial para isso. Voltaremos a ser um campo fértil na formulação das políticas de saúde, como ocorreu na primeira década dos anos 2000. Mas não sejamos ingênuos, continuaremos lidando com grandes abismos relacionais no campo da gestão e teremos que aprender a aprender - parafraseando Paulo Freire -, a dialogar com todos os atores, sejam de direita, esquerda, centro, extrema-direita, extrema-esquerda e etc..

Então, de cara precisamos pensar: Como nos comunicaremos sem ódio? Conseguiremos nos relacionar com os pares trazendo-os para a luta em defesa do Sistema Único de Saúde, e não os afastando ainda mais? Como quebraremos esses muros?

Estou bem preocupada com isso, minha cabeça já está em 2023.

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