Estudante da UFRN ganha maior prêmio de pesquisa em comunicação do país
Natal, RN 24 de jul 2024

Estudante da UFRN ganha maior prêmio de pesquisa em comunicação do país

17 de junho de 2024
9min
Estudante da UFRN ganha maior prêmio de pesquisa em comunicação do país
Cecília Costa conquistou o 1º lugar no prêmio Intercom de Comunicação 2024 na categoria graduação. Foto: cedida

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Entender como a mídia aborda o tema do feminicídio foi o objetivo do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Jornalismo de Cecília Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A monografia, com o tema Quem ama não mata: uma análise da cobertura sobre feminicídio no portal G1 RN ficou em 1º lugar na categoria graduação do prêmio Intercom de Comunicação 2024, a maior premiação de pesquisa em comunicação do país.

Cecília é natural de Macau, no RN, e tem 27 anos. Em entrevista à Agência Saiba Mais, ela, que é recém graduada em jornalismo, contou que a pesquisa é recente, mas os primeiros passos vêm sendo construídos há anos. Em 2017, ela conheceu o termo feminicídio e, desde então, começou a pesquisar sobre o tema. A lei que torna o feminicídio um homicídio qualificado e o classifica como crime hediondo, com penas mais altas, entrou em vigor dois anos antes, em 2015.

“A primeira vez que eu ouvi o termo feminicídio foi em 2017, ano que eu me mudei do interior para Natal. Em 2017 eu ingressei e fiz parte de um coletivo de mulheres negras periféricas e, numa roda de conversa, foi quando eu ouvi o termo pela primeira vez”, comenta.

O trabalho de conclusão de curso de Cecília, finalizado no segundo semestre do ano passado, foi escolhido pelo Departamento de Comunicação Social (Decom) da UFRN para concorrer ao prêmio, que é nacional, na categoria graduação. Depois, foi selecionado como melhor pesquisa em Comunicação, na mesma categoria, por 24 pesquisadores e pesquisadoras das cinco regiões brasileiras.

A pesquisadora vai ganhar, além de certificado e troféu, passagem, hospedagem e inscrição para receber o prêmio presencialmente no 47º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que acontece em setembro deste ano, na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

O momento, como ela define, é mágico e muito feliz. Cecília ainda ressalta que é uma grande conquista, levando principalmente em consideração que o ambiente universitário ainda é tão predominado por homens brancos, e que o reconhecimento é muito importante para a representatividade.

“É uma felicidade muito grande, ainda mais eu sendo do interior do Rio Grande do Norte e uma mulher preta. É mágico e eu sei que está só começando. É uma oportunidade que eu estou abraçando com todas as minhas forças assim. Estou muito feliz, de verdade”, comemora Cecília.

A pesquisa

Em 2018, Cecília ingressou no curso de jornalismo. Foi no segundo semestre do primeiro ano de faculdade que ela, participando da Revista Tabu, um projeto experimental para os estudantes do curso, sugeriu fazer uma reportagem sobre feminicídio no RN. Ali, foi o pontapé de suas pesquisas, conta ela.

“E comecei a perceber que é super romantizado, que tem toda uma culpabilização da vítima, uma revitimização da vítima e dos seus familiares, e que reforça muitos estereótipos de gênero negativos para as mulheres. Não tem uma contextualização, não tem aprofundamento. Muitas vezes, não cita nem o crime de feminicídio, sendo que a gente consegue perceber ali, pelos indícios, que é”, relembra a pesquisadora.

No segundo semestre de 2023, Cecília decidiu o recorte da monografia, com a orientação da professora Mônica Mourão, do Decom da UFRN. O trabalho é uma análise do discurso de três coberturas – dos anos 2014, 2015 e 2016 – que o portal G1 RN realizou com a temática do feminicídio. Cecília quis analisar, principalmente, se houve ou não alteração do discurso após a promulgação da Lei de Feminicídio, em 2015. Para isso, ela observou pontos principais das reportagens, como o título, o texto e as imagens.

“A gente fez essa análise e identificou que, mesmo que a Lei de Feminicídio tenha sido promulgada, onde o Código Penal deixa muito claro que, ainda assim, a forma como a cobertura era realizada tinha o reforço dos estereótipos de gênero, um viés machista, romantizado, onde não citava o crime, não tinha o contexto. Tinha o uso de algumas palavras reforçando esses estereótipos e reforçando, também, esse viés machista na cobertura”, ressalta Cecília.

A pesquisa foi construída abordando como a imagem da mulher vem sendo construída ao longo do tempo. Para isso, a monografia trouxe um histórico desde a Revolução Francesa.

“A partir da Declaração dos Direitos do Homem. Então, desde aquela época já tinha essa questão da imagem da mulher inferior à do homem.”

“No meu trabalho, a gente fala sobre a importância dos direitos humanos e das leis, como a Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio. A gente também fala sobre a ética jornalística: o quanto é importante que nós, jornalistas, comunicadores, possamos compreender essas leis também. E que a gente informe também que as pessoas precisam saber que existem”, conta a pesquisadora.

Alguns casos mais conhecidos também são citados na monografia, como o de Ângela Diniz, que se popularizou com o podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, e o de Eloá Pimentel – que após ser mantida por quase cinco dias em cárcere privado, foi morta pelo ex-namorado em 2008. 

A ideia de Cecília e da orientadora Mônica foi, também, abordar as questões sobre a responsabilidade do jornalista ao noticiar os casos de feminicídio. No trabalho, elas entenderam que a forma como a mídia noticiou esses casos, mais antigos, são semelhantes a como o G1 RN cobriu o feminicídio.

“[A pesquisa] Também fala do quanto a imprensa, de modo geral, tem esse poder de influenciar a opinião pública e do quanto ela tem o poder, também, de até mesmo mudar algumas decisões que o Judiciário possa fazer”, pontua Cecília.

“Levamos em consideração que o G1 RN é um veículo de comunicação do Grupo Globo, que é hegemônico. Então a gente traz também essa questão de que é importante fazer comparações com outros veículos de comunicação que são independentes – por exemplo, feministas”, complementa.

“Poderia ser eu”

Pesquisar o tema do feminicídio é muito importante, entende Cecília, mas ela define como desafiador, pois se trata de um assunto delicado.

“Principalmente por ser mulher, pois a gente se coloca naquela situação. A gente pensa ‘poderia ser eu, pode ser eu um dia’. Então, acho que de tudo, para mim, o mais desafiador é isso: você acabar se colocando naqueles casos. Infelizmente pode acontecer comigo, com alguma amiga ou alguma familiar. Então acredito que isso é o mais desafiador de tudo – você começar a ter que digerir para poder escrever. Então diversas vezes eu chorei escrevendo, pesquisando, enfim, consumindo esses conteúdos no decorrer desses últimos anos”, narra a pesquisadora.

Além disso, outro desafio que Cecília encontrou foi a falta do tema de feminicídio nas pesquisas sobre comunicação.

“Mas é importante até para abrir uma reflexão para que nós, mulheres principalmente, continue pesquisando mais sobre isso e traga mais isso para ter mais referencial para outras mulheres, para outras pessoas também, que desejam de pesquisar sobre a temática – não só sobre violência, não só sobre feminicídio em si, mas a violência contra a mulher de modo geral”, defende.

Apesar da pesquisa ser recente, Cecília pretende continuar na vida acadêmica. Agora, ela quer seguir o caminho para se tornar professora universitária, e tem o sonho de ser referência na área de sua pesquisa, o que já começa a se realizar com o prêmio nacional que vai receber. Ela pretende, ainda, racializar a pesquisa, ou seja, se aprofundar nas coberturas de casos de feminicídio em situações nas quais as vítimas são mulheres pretas, por exemplo.

“É um dos meus propósitos de vida ingressar na docência, no âmbito universitário. Ser professora, ensinar as pessoas, incentivar, orientar como a gente pode realizar as coberturas –  não só sobre violência contra a mulher, mas realizar, de modo geral, coberturas humanizadas, respeitosas, em que a gente não viole direitos humanos das vítimas e seus familiares”, declara Cecília.

A rede de apoio

Na vida universitária, em um contexto em que Cecília veio de Macau para a capital potiguar com o objetivo de estudar, ela construiu uma rede de apoio. Além da família, principalmente a mãe, amigos, mentores e professores também foram essenciais para a experiência que a estudante teve na universidade.

Ela passou por experiências na TV Universitária e na Agência de Comunicação da UFRN, além de ter participado da assessoria de comunicação do Instituto Metrópole Digital (IMD), também da UFRN. Cecília conta que, nesse caminho, teve mentores essenciais para seu desenvolvimento, como Emily Rosselli e Yuri Borges.

Além disso, os professores foram essenciais para o desenvolvimento de sua pesquisa, principalmente Mônica Mourão, que orientou a monografia.

Quem tiver interesse em acessar o TCC de Cecília Costa, pode acessar o repositório da UFRN.

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