Fracking: na contramão da história: governo brasileiro quer explorar gás de xisto
Natal, RN 17 de jul 2024

Fracking: na contramão da história: governo brasileiro quer explorar gás de xisto

16 de junho de 2024
8min

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Enquanto o mundo todo incentiva e investe em energias renováveis e em outros esforços com o objetivo de frear o aquecimento global, o Brasil, na contramão da história, quer liberar a exploração de gás por meio de fracking.

Essa polêmica técnica de extração de gás natural, proibida em alguns países da Europa, poderá ser testada pela primeira vez no Brasil. O fraturamento hidráulico (fracking, em inglês) é questionado por cientistas e entidades ambientalistas, como o Greenpeace, Amigos da Terra, pela falta de estudos mais aprofundados sobre possíveis danos ambientais.

Uma referência sobre o tema é um estudo feito pela Duke University, na Pensilvânia, em que os cientistas chamaram a atenção para o aumento da concentração de metano na água potável em locais próximos aos poços usados para o fraturamento hidráulico.

De acordo com estudos da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, publicados em artigo na revista científica “Biogeosciences”, o aumento da concentração de gás metano na atmosfera resulta, em grande parte, nos últimos anos, da exploração do gás de xisto, mediante técnica conhecida como “fraturamento hidráulico” ou fracking.

O metano é um dos principais gases causadores do efeito estufa. E o fracking é uma técnica de produção de gás natural considerada não convencional: uma espécie de sonda é inserida a mais de 3 mil metros de profundidade, “fraturando” as rochas para a retirada do gás natural presente em camadas quase inacessíveis.

Os cientistas fizeram uma análise química da composição do metano emitido na atmosfera nos últimos anos, encontrando assim rastros de suas origens. Ele vem aumentando especialmente desde 2008, e sua composição está ficando diferente. Essa espécie de “impressão digital química” do gás metano indica que uma grande proporção dele vem sendo emitida por meio do fracking.

Isso porque o metano proveniente do fracking tem características diferentes daquele emitido pelas técnicas convencionais de produção de gás natural. E também é diferente do metano liberado na queima de outros combustíveis fósseis, como o carvão.

O Ministério de Minas e Energia quer aumentar a oferta de gás natural não convencional – popularmente chamado de gás de xisto – no país. O objetivo é baratear o custo do insumo para a indústria.

Em abril, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou que o governo iria criar um comitê de monitoramento dos projetos de gás natural, com vistas a aumentar a oferta do insumo.

A ideia é que, ao acompanhar os projetos e destravar questões de regulamentação e licenciamento ambiental, o governo consiga criar as condições para o aumento da oferta e barateamento do insumo aos consumidores.

Algumas atividades industriais, como a fabricação de fertilizantes e vidros, por exemplo, demandam o uso de gás natural em grande quantidade.

Para viabilizar esse aumento da oferta, o governo estuda mudanças nas regras de licenciamento ambiental, com intuito de facilitar a aprovação.

Contudo, a exploração desses recursos está associada a riscos ambientais e sociais, como abalos sísmicos, contaminação de lençóis freáticos e uso intensivo da água.

O que é o gás de xisto?
Gás de xisto é um termo que se popularizou no Brasil para tratar de gás não convencional – extraído de rochas de folhelho.

Esses recursos são extraídos de rochas com baixa permeabilidade e baixa porosidade. Tanto o gás quanto o petróleo encontrado nesse tipo de formação rochosa são chamados de recursos “não convencionais”.

A diferença entre a exploração “não convencional” e “convencional” é a facilidade de extração desses recursos.

Nos poços convencionais, o petróleo e o gás natural fluem com facilidade depois da perfuração devido à pressão atmosférica, já que as rochas são mais porosas e permeáveis, explica o professor da Universidade de São Paulo (USP), Edmilson Moutinho dos Santos.

“Antigamente, os recursos que encontrávamos em rochas bem menos porosas e permeáveis, nós nem considerávamos como recursos economicamente viáveis. Era uma situação geológica não economicamente viável, que é um volume muito maior que o outro. A maior parte das rochas não são boas”, afirmou.

No entanto, com o desenvolvimento da técnica de fraturamento hidráulico, a exploração desse tipo de recurso se tornou viável do ponto de vista econômico e operacional. Essa técnica, considerada não-convencional, consegue acessar as rochas sedimentares de folhelho no subsolo e, consequentemente, explorar reservatórios que antes eram impossíveis de ser atingidos.

O que é fracking ou fraturamento hidráulica?
A técnica de fraturamento hidráulico é uma forma de estimular o poço para aumentar a produtividade. O método consiste em fraturar as rochas para abrir “espaços” por onde o gás e o petróleo possam fluir.

Por meio da tubulação instalada nessas perfurações profundas, é injetada uma grande quantidade de água em conjunto com solventes químicos comprimidos – alguns até mesmo com potencial cancerígeno. A grande pressão gerada por essa água provoca explosões que fragmentam a rocha.

Quais os riscos associados?
A técnica contém riscos ambientais associados, como possíveis tremores de terra, contaminação de lençóis freáticos e gasto de água em grandes quantidades.

Em parecer técnico de 2013, que subsidiou a concessão de blocos exploratórios pelo governo, o IBAMA cita algumas preocupações em relação à produção de não convencionais. São:

  • abertura de vias de acesso e instalação de canteiros, uma vez que é preciso perfurar mais poços para produzir recursos não convencionais;
  • utilização de recursos hídricos. O IBAMA cita estudo que estima a utilização de 9 mil a 29 mil metros cúbicos de água por poço perfurado – o suficiente para encher aproximadamente 4 a 12 piscinas olímpicas;
  • contaminação de lençóis freáticos;
  • descarte de rejeitos e da água utilizada na produção, cuja composição “pode apresentar metais pesados e ocorrência de elementos com índice de radioatividade natural que requerem especial manejo e disposição”;
  • indução de abalos sísmicos, com a injeção da água de descarte em poços que já não produzem mais;
  • utilização de fluidos e produtos químicos. Segundo o IBAMA, alguns compostos utilizados não têm sua formulação divulgada e seu comportamento no ambiente não foi estudado para diversos casos.
  • Alguns estudos mostram que mais de 90% de fluidos resultantes do fracking podem permanecer no subsolo. O flowback, fluído do fraturamento que retorna à superfície, normalmente armazenado em lagoas abertas ou tanques no local do poço, também causam impactos como a contaminação do solo, ar e lençóis de água subterrânea.

“Você tem alguns elementos químicos usados nesse coquetel que, se não ficarem contidos no ambiente ali da rocha, podem ser nocivos se vierem a encontrar lençóis freáticos, subir à superfície e vazar”, afirmou o professor da USP.

A diretora do Instituto Arayara, Nicole Oliveira, afirma que a contaminação também traz riscos à saúde, como incidência de câncer e redução da taxa de natalidade. Ela defende que a discussão sobre o fraturamento seja feita em nível nacional, e não estadual.

“A Europa tem barreiras fitossanitárias de diversos químicos que, se forem utilizados em regiões de produção agrícola, essa produção não pode ser importada pela Europa. Vários desses químicos estão nos componentes usados pelo fracking.”

A diretora da Arayara também cita danos à paisagem, uma vez que a exploração de recursos não convencionais exige a perfuração de mais poços para extração de petróleo e gás natural.

Para o superintendente de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da EPE, Marcos Frederico de Souza, os riscos são operacionais e dependem do tipo de produção no Brasil.

A luta contra o tempo para viabilizar o fracking
Apesar dos impactos ambientais, climáticos e sanitários relacionados cientificamente ao fracking, o Governo Federal e a indústria do gás – sobretudo as chamadas “empresas independentes”, de pequeno e médio porte – defendem sua prática por considerarem que o aumento da produção do combustível será vantajoso para o Brasil.

“Todo mundo do setor faz apologia à matriz elétrica brasileira, dizendo que é a mais limpa”, afirma o físico Roberto Kishinami. “Isso é verdade e o fracking nos posiciona para ir na direção oposta à que estamos indo agora. Só que isso hoje é usado para dizer ‘não faz mal ter um pouco mais de gás natural, que é fóssil, porque não vai deixar a matriz tão suja’. O problema é que esse caminho com gás natural nos leva para trás.”

Histórias como essa precisam ser conhecidas e debatidas pela sociedade.

Fontes: G1, eCycle, Agência Pública, Não Fracking.

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