Leonardo Padura, consagrado escritor cubano de 70 anos, vive e trabalha na mesma casa onde nasceu e cresceu, no bairro da Mantila, periferia de Havana. É de lá que ele, cercado de parentes e referências habaneras, provoca o mundo com seus livros.
Padura é dono de uma obra construída sobre os dilemas de sua geração, que lutou e sofreu com a revolução e viu o sonho de Guevara e Sandino definharem, pouco a pouco, a ponto de se ver o paraíso socialista chegar hoje ao momento mais grave de uma crise sem precedentes, onde faltam alimentos, remédios, energia elétrica, transporte, combustível, serviços essenciais, empregos e sonhos.
Da terra de Pessoa e de Camões, onde participa da Feira do Livro de Lisboa, o romancista cubano admitiu, em entrevista ao jornal Expresso, que “quando se vive 20 horas por dia sem eletricidade, a nossa relação com a realidade torna-se agressiva”.
É dos dramas e dos recortes dessa dura realidade que Padura faz sua literatura, com seus personagens envoltos em dramas pessoais, geracionais e questões como o perdão, o medo, a violência doméstica, a solidão da velhice, a pobreza.
Ele não cria a realidade exposta em seus livros, escreve sobre ela, abordando “questões que afetam muitas sociedades de diferentes formas, apresentadas numa perspectiva cubana, também pode ter interpretações universais”.
Na visão de Padura, “de fora de Cuba, existem duas formas de ver o país. Há muitos anos que é visto como um paraíso socialista, e outros veem-no como um inferno comunista”.
O autor de “O homem que amava os cachorros” (2009), sobre o assassinato de León Trotsky a mando de Josef Stálin, considera que, ”durante muito tempo, [Cuba] não foi nem o paraíso nem o inferno; era algo como um purgatório”.
Padura enxerga que, “atualmente, a polarização mundial criou dois retratos de Cuba: o retrato da vítima e o retrato do país falhado. A vítima do imperialismo ou o fracasso do comunismo. Ambas as perspectivas são válidas.”
Provocado, ele responde com outra provocação e nos faz pensar sobre como a realidade e o ofício de quem vive de escrever histórias, seja no jornalismo ou no romance, com ele faz: como encontrar inspiração em meio ao excesso de escassez de um país em declínio?…
“Uma das sociedades mais harmoniosas do mundo é a sociedade suíça. A Suíça é um país onde até os campos baldios parecem jardins, e tudo está em ordem. Mas a Suíça tem muito poucos escritores. Acho que os dramas sociais geram arte no agente”, conclui.
A literatura de Leonardo Padura confirma a aceitação do conselho de Tolstói e se torna universal pintando sua aldeia, por mais feia, triste, sofrida e mal tratada que ela esteja, porque muitas vezes “é preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela bailarina”, como vaticinou Nietzche.