Caso Gabriel: júri popular avança e manifestantes fazem vigília
Natal, RN 18 de jul 2024

Caso Gabriel: júri popular avança e manifestantes fazem vigília

4 de julho de 2024
8min
Caso Gabriel: júri popular avança e manifestantes fazem vigília
Pela manhã foram realizados os interrogatórios dos réus | Foto: TJRN

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Iniciado na última terça (2) depois de quatro anos e três adiamentos, o júri popular do caso Giovanne Gabriel de Souza Gomes tem a expectativa de encerrar na madrugada desta sexta (5), acompanhado por uma vigília que pede justiça. A ação feita por familiares, amigos e movimentos sociais inicia nesta noite e segue pelas horas seguintes.

Uma das pessoas que participam da atividade é Mateus Freitas, da Unidade Popular e do Coletivo Negro Valdete Guerra. Ele explica que a ideia é ficar em vigília até que o resultado saia e receber Priscila Souza, mãe do Gabriel, após o término do julgamento.

“Infelizmente a gente está tendo que lidar com uma repressão completamente desproporcional por parte das forças de repressão, que fizeram um cerco ao redor do prédio de forma completamente desnecessária. É como se realmente o Fórum, a Justiça do nosso país, tivesse medo do nosso povo porque a gente não pode nem chegar perto do prédio, então eles cercaram a rua e dessa vez não deixaram nem a gente ficar dentro do perímetro que cercaram. Nós estamos do lado de fora e vamos acompanhar o processo do júri daqui, esperando esse resultado”, diz.

Freitas espera colher o fruto das mobilizações de quatro anos feitas constantemente pelo conjunto dos movimentos sociais, familiares e amigos de Gabriel. Mesmo sem saber ainda o resultado, Mateus diz ter total convicção de que o processo de mobilização conquistou a maioria da opinião pública a favor de Gabriel e da condenação e responsabilização dos quatro acusados.

“Não teve uma pessoa que nós conversamos nas ruas que sequer tenha titubeado sobre a culpa desses policiais no crime. Isso é algo que alivia, que traz um certo tipo de conforto em nosso coração, porque nós conseguimos fazer com que essa agitação política repercutisse o suficiente para que a gente tivesse o povo ao nosso lado nesse processo. Isso é fundamental para a gente conseguir continuar na luta por justiça social e para que casos como o que aconteceu com o Gabriel não voltem a se repetir, para que a gente consiga dar enfrentamento a essa política genocida que existe no nosso país”, enfatiza.

Acompanhando o júri desde o início da semana e tendo participado das ações de mobilizações antes e durante o julgamento, Mateus Freitas diz que, a todo tempo, o lado da defesa dos policiais tentou desqualificar os argumentos das testemunhas e da acusação, inclusive se recusando a responder a todas as perguntas feitas pela acusação.

“A tática deles é tentar deslegitimar os argumentos, os fatos e as provas que a acusação apresenta e tentar comover os jurados com um discurso completamente banal de que aqueles policiais são servos de Deus, pessoas de bem, tentando mascarar o quão foi horripilante, racista e cruel a atitude que eles tiveram com o Giovanne Gabriel”, pontua. 

“Nós temos a favor do nosso lado a verdade, e é com isso que a gente se apega para acreditar que esse resultado vai ser vitorioso para o nosso povo e para a família do Gabriel, que por mais que não traga o Giovanne Gabriel de volta, representa essa possibilidade de mudança e de enfrentamento a essa política tão nefasta e genocida que a gente vive hoje, que coordena todas as forças militares do nosso país.”

O terceiro dia
No terceiro dia de trabalhos, o júri do Caso Gabriel foi retomado às 14h desta quinta-feira, após pausa para o almoço, com a fase de debates em plenário entre a acusação e a defesa. O Ministério Público iniciou os debates, seguido pela defesa dos réus. Por volta das 17h, houve uma nova pausa para a janta, e o julgamento retornou aproximadamente às 17h30.

A fase atual é o momento em que as partes apresentam suas teses e argumentos, com o intuito de influenciar na formação da convicção dos jurados. Neste julgamento, cada parte terá duas horas e meia para pronunciamento. Após os debates, a acusação tem direito a réplica, com até duas horas de fala. Caso a utilize, abrirá espaço para que a defesa apresente sua tréplica, também com até duas horas de duração.

Pela manhã foram realizados os interrogatórios dos réus Anderson Adjan Barbosa de Souza, Bertoni Vieira Alves e Valdemi Almeida de Andrade. Os trabalhos do turno matutino foram concluídos às 13h, quando o presidente do tribunal do júri, o magistrado Marcos Sampaio, suspendeu o julgamento para o almoço.

O caso está sendo julgado pela 1ª Vara Criminal de Parnamirim. A polícia fechou a rua e proibiu manifestações por determinação da direção do Foro da Comarca, mas os familiares de Gabriel e movimentos sociais têm buscado se mobilizar clamando por justiça. Apoiadores dos militares também fazem presença e estenderam uma faixa fora do perímetro traçado os chamando de “heróis”.

Na época do crime, os acusados Paullinelle Sidney Campos Silva, Bertoni Vieira Alves, Valdemi Almeida de Andrade e Anderson Adjan Barbosa de Souza eram, respectivamente, sargento e cabos. Mas todos foram promovidos neste período de quatro anos. Hoje Paullinelle é subtenente, enquanto Bertoni, Valdemi e Anderson são sargentos.

Histórico
No primeiro dia de julgamento houve a escolha do conselho de sentença, que é composto por cinco homens e duas mulheres que, ao final da sessão de julgamento, vão decidir pela condenação ou absolvição dos quatro réus. 

Também foi iniciado o depoimento das testemunhas e declarantes. Foram ouvidas nove pessoas, sendo cinco da acusação e quatro da defesa.

O segundo dia do júri foi dedicado aos depoimentos das testemunhas de defesa. Ao todo, 13 testemunhas ou declarantes foram ouvidas e seis dispensadas. Terminados os depoimentos, ocorreu ainda o interrogatório do réu Paullinelle Sidney Campos Silva.

Relembre o caso
Na manhã do dia 5 de junho de 2020, Giovanne Gabriel havia saído de sua casa, no Guarapes, para visitar a namorada, que morava no Loteamento Cidade Campestre, em Parnamirim.

Ele tinha acabado de chegar ao local, mas como o relacionamento não era aprovado pelo pai da garota, Gabriel foi esconder a bicicleta numa área próxima à casa para evitar maiores problemas. 

Nessa mesma manhã, policiais foram acionados após o roubo de um carro em Parnamirim. O veículo pertencia à cunhada de Paullinelle Sidney Campos Silva, sargento da polícia militar que acionou outros três agentes: Bertoni Vieira Alves, Valdemi Almeida de Andrade e Anderson Adjan Barbosa de Souza, todos lotados no município de Goianinha, para buscas do veículo.

O grupo deslocou-se, inclusive, para uma área fora de sua guarnição à procura do veículo. O carro foi encontrado próximo ao local onde Gabriel tinha deixado a bicicleta e o rapaz acabou sendo confundido com o responsável pelo roubo do carro.

Durante as buscas, uma primeira equipe de policiais abordou Gabriel, que explicou que estava indo visitar a namorada. Os PMs checaram a veracidade da história e liberaram ele.

Porém, ao sair da área de mata onde estava, Gabriel foi novamente abordado, dessa vez, por outra equipe de policiais, avisados por moradores da região sobre “um jovem em atitude suspeita” no local.

Gabriel foi novamente abordado e chegou a avisar aos policiais que já tinha sido revistado por policiais de outra viatura. Mesmo assim, ele foi colocado dentro da mala do veículo. Essa foi a última vez que Gabriel foi visto com vida. 

De acordo com as investigações da Polícia Civil, o jovem foi executado a tiros pelos policiais, que deixaram o corpo dele em São José de Mipibu, distante 30 km de Natal e 20 km de Parnamirim, onde ficava a casa da namorada.  

O cadáver de Giovanne Gabriel só foi encontrado em 14 de junho, depois das buscas realizadas por amigos e familiares do jovem. Gabriel sonhava em ser professor de educação física e servir ao Exército.

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