Em Parnamirim, mulher trans reinventa o cuidado com idosos pelo SUS
Natal, RN 24 de jun 2026

Em Parnamirim, mulher trans reinventa o cuidado com idosos pelo SUS

8 de junho de 2025
5min
Em Parnamirim, mulher trans reinventa o cuidado com idosos pelo SUS
Amanda dança, ensina e resiste. E o grupo Saber Viver dança junto com ela. | Foto: Gil Araújo

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

No pátio da Unidade Básica de Saúde do Monte Castelo, em Parnamirim, o som do forró ainda não ecoa, mas já há uma vibração no ar. 13 idosos do grupo Saber Viver — um coletivo que existe há 22 anos, sendo oito com esse nome, se reúnem, como de costume. Antes de qualquer alongamento ou batida musical, o grupo começa com uma oração.

A professora de dança e agente de saúde Amanda Brasil, 43, mulher trans que há mais de duas décadas caminha por esses corredores, conduz o grupo com a leveza de quem compreendeu, na marra e no afeto, o poder da escuta. Durante a aula, a pausa para respirar. O gesto, que poderia parecer apenas técnico, revela-se ato simbólico: para ela, respirar é seguir, e ensinar a seguir.

Dança como re-existência

“Eu comecei só olhando”, conta Amanda. Quando chegou à unidade, já existia o grupo de idosos, mas ela, ainda nova na função e no território, mantinha distância. “Não interagia, não me interessava tanto.” Com o tempo, percebeu que havia uma energia diferente ali. “Eu vi que o grupo gostava de dançar… e dança é comigo mesmo!”

Dançar, para Amanda, nunca foi só movimentar o corpo. Era brincar com a toalha na cabeça na infância, em frente ao espelho, mesmo sem permissão. Era fazer da brincadeira um abrigo, e depois, uma forma de existir publicamente. O grupo a acolheu, e ela, em troca, ensinou que saúde também mora no compasso da música.

Hoje, os encontros semanais incluem ritmos populares, alongamentos, e, mais recentemente, aulas de ioga. “Elas estão amando, né? Uma novidade, uma coisa gratuita. E a gente trabalha a saúde física, mental, o pertencimento”, explica Amanda.

Do picolé à política do cuidado

Amanda virou agente de saúde por necessidade. “Vim de família humilde, vendia picolé quando era adolescente.” Quando o concurso apareceu no bairro, decidiu tentar. “Fiz a prova, passei, fiz treinamento e tô aqui até hoje.” Era o início dos anos 2000, e Amanda, ainda no início da sua transição, precisou esconder sua identidade. “Passei anos com outra identidade no trabalho, me passando de menininho. Escondia o cabelo, os brincos, tudo. Sabia que se não fosse assim, eu não conseguiria o trabalho", relembra ela.

Foi só mais tarde, quando se sentiu amparada pela lei e pela própria maturidade, que disse: “agora é o momento”. Reivindicou o nome social, encarou o que fosse preciso. “Hoje tô aqui como Amanda. Com muito orgulho.”

Mas não sem cicatrizes. Amanda relembra uma agressão que sofreu dentro da própria UBS, em que foi empurrada por uma paciente após uma discussão. “Ela disse que eu não era mulher. Fomos até pra delegacia, mas ficou por isso mesmo.” Ainda assim, ela segue. “Já sofri preconceito, até de outras mulheres. Mas dos idosos, nunca. Pelo contrário, é carinho, respeito, abraço.”

Talvez seja porque, para eles, Amanda nunca foi só agente de saúde ou professora de dança. É ponte. É presença. É uma forma viva de dizer que ainda dá pra ser aceito como se é, e dançar mesmo assim.

O futuro é dançante

Ao final da aula, entre gargalhadas, passos improvisados e um lanche compartilhado, algumas alunas relembram com entusiasmo um passeio do grupo por Ponta Negra. Aos poucos, se despedem de Amanda com abraços e afeto, antes de retomarem a rotina do dia a dia.

Em Parnamirim, Amanda ajuda a criar um lugar onde envelhecer não é sinônimo de parar, mas de mover o corpo com mais presença e intenção. Onde viver a transgeneridade é possível, não apesar da dor, mas pela alegria de existir, trabalhar e se reinventar.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.