“Sabia que era uma menina”: a trajetória da primeira mulher trans potiguar operada pelo SUS
Natal, RN 24 de jun 2026

"Sabia que era uma menina": a trajetória da primeira mulher trans potiguar operada pelo SUS

15 de junho de 2025
4min

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Wanja Celine da Silva tem 62 anos e mais de três décadas de atuação no movimento LGBTQIAPN+ no Brasil. Pedagoga, técnica em Turismo e Hotelaria e coordenadora-geral da ONG Attransparência RN, ela também ocupa uma cadeira no Conselho Estadual LGBT+ do Rio Grande do Norte. Sua história é marcada por coragem, pioneirismo e uma luta incansável por dignidade. Wanja foi a primeira mulher trans potiguar a realizar a cirurgia de afirmação de gênero pelo SUS.

"Desde os cinco anos eu sabia que era uma menina", relembra. Gêmea de um irmão com quem não se identificava, Wanja enfrentou as imposições da infância e da juventude até se reconhecer como mulher trans já na vida adulta, aos vinte anos. “Os desafios foram muitos, mas não tão grandes a ponto de não serem superados”, afirma.

Após uma longa espera e dez anos de acompanhamento psicológico e psiquiátrico no Hospital das Clínicas de São Paulo, ela finalmente conseguiu realizar a cirurgia. “As terapias em grupo foram um marco. A gente dividia histórias de dor e superação. Foi uma jornada que me deu força e inspirou outras mulheres a acreditarem que também podiam realizar esse sonho pelo SUS.”

Mas se São Paulo lhe abriu as portas para a transição com mais estrutura, a realidade no Nordeste, segundo ela, ainda é muito desigual. “Aqui, a fila praticamente não existe. Temos os ambulatórios TTs, que são importantes, mas ainda deixam muito a desejar, principalmente na hormonização.”

Desde que retornou a Natal, em 2017, ela se filiou à Attransparência RN e passou a militar de forma ainda mais incisiva pelos direitos da população trans. “Seguimos enfrentando muitos desafios, especialmente pela falta de patrocínio. Ainda assim, realizamos ações importantes como a Jornada da Visibilidade em janeiro e a Cozinha Solidária, em parceria com o MST, que distribui refeições para a nossa comunidade.”

Com o aumento da expectativa de vida no Brasil, mais pessoas LGBTQIA+ têm alcançado a terceira idade, mas essa conquista ainda carrega um peso invisível. Segundo ativistas e especialistas, o envelhecimento dessa população é atravessado por solidão, abandono, exclusão social e precariedade no acesso a direitos básicos.

“A verdade é que não somos vistas nem valorizadas quando envelhecemos. Principalmente nós, mulheres trans. A gente envelhece e desaparece. Somos tratadas com pena, como se nossa história já tivesse acabado”, desabafa Wanja.

A denúncia encontra eco no tema da 29ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, marcada para o dia 22 de junho na Avenida Paulista. Com o lema "Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro", o evento deste ano joga luz sobre a realidade das pessoas LGBT+ idosas no Brasil, reivindicando visibilidade e políticas públicas específicas.

“Venho pedindo, implorando mesmo, por políticas públicas para mulheres trans acima dos 50 anos. Até hoje, nada. Precisamos de oportunidades de trabalho, acesso à saúde e condições para envelhecer com dignidade.”

Wanja acredita que o caminho para mudar esse cenário começa com educação, afeto e solidariedade. E deixa um recado forte para as novas gerações: “Vocês que estão aí tentando seu lugar ao sol, saibam que a luta não é fácil. A expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil ainda é de 35 anos. Muitas de nós foram assassinadas com crueldade. Mas com respeito, sabedoria e educação, vocês podem ir longe. A educação transforma vidas. Estudem. Usem o amor que têm no coração e ele vai voltar para vocês", finaliza ela.

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