Vítima de tentativa de feminicídio repudia exploração de sua imagem nas redes
Natal, RN 16 de jun 2026

Vítima de tentativa de feminicídio repudia exploração de sua imagem nas redes

11 de setembro de 2025
7min
Vítima de tentativa de feminicídio repudia exploração de sua imagem nas redes
Foto: Reprodução Redes Sociais

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A estudante Juliana Santos, vítima de uma brutal tentativa de feminicídio em Natal, divulgou uma nota de repúdio, na última quarta-feira (10), contra páginas de redes sociais que têm explorado sua imagem e exposto de maneira sensacionalista as sequelas físicas deixadas pela violência que sofreu do ex-namorado Igor Cabral.

O documento, assinado por sua equipe jurídica, denuncia ainda a publicação de informações “distorcidas e inverídicas” sobre sua vida pessoal. O texto ressalta que tais condutas violam sua intimidade e dignidade, além de intensificarem a revitimização:

“Essas condutas não apenas violam a sua intimidade e dignidade, mas também intensificam a revitimização, causando novos danos emocionais a uma mulher que já enfrenta um processo doloroso de recuperação, advinda da tentativa de feminicídio sofrida”, diz trecho da nota.

O comunicado apela que a sociedade “compreenda que o foco neste momento deve estar na proteção, acolhimento e recuperação de Juliana, não na exploração de sua dor para gerar críticas ou especulações infundadas”.

A nota alerta, ainda, que a continuidade dessas práticas abusivas poderá levar à adoção de medidas judiciais cabíveis com o objetivo de “resguardar sua integridade e seus direitos fundamentais”.

O texto finaliza pedindo “respeito, empatia e privacidade” com Juliana. “O combate à violência contra a mulher passa também pelo compromisso de todos em não reproduzir condutas que perpetuem o sofrimento das vítimas”, completa.

Relembre o caso

Fotos: Reprodução

Juliana foi violentamente atacada pelo ex-namorado Igor Cabral com 61 socos dentro do elevador de um condomínio na Zona Sul de Natal. O caso aconteceu no dia 26 de julho, chocou o país e provocou uma onda de solidariedade com a vítima.

A cena brutal foi registrada pelas câmeras de segurança. A agressão durou menos de um minuto, mas foi o suficiente para deixar a vítima com o rosto desfigurado. Ela foi inicialmente levada para receber os primeiros atendimentos no Hospital Walfredo Gurgel. Uma semana depois do ocorrido, foi submetida a uma cirurgia de reconstrução facial no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL).

O porteiro do condomínio, ao ver a violência, acionou a Polícia Militar. Igor Cabral foi preso em flagrante e levado à Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher da Zona Leste, Oeste e Sul (DEAM-ZLOS).

Durante a audiência de custódia, quando alegou que havia tido um “ataque claustrofóbico”, o agressor teve a prisão preventiva decretada. Ele foi transferido para a Cadeia Pública Dinorá Simas, no município de Ceará-Mirim, onde segue custodiado a espera de julgamento.

A Polícia Civil indiciou Igor Cabral por tentativa de feminicídio. As investigações foram conduzidas pela delegada Victória Lisboa, titular da DEAM-ZLOS. Ela afirmou que o ataque de Igor contra Juliana foi precedido de uma discussão, que começou em uma área comum do condomínio, onde eles faziam um churrasco com amigos.

Em depoimento, Juliana relatou que Igor teve uma crise de ciúmes quando ela lhe mostrou mensagens que havia recebido em seu celular. Ela contou que o relacionamento entre os dois era “tóxico e abusivo”, disse que já havia sofrido violência psicológica e revelou que, antes de agredi-la, o ex-namorado afirmou que iria matá-la.

“Eles estavam fazendo churrasco, estavam em um momento de confraternização com os amigos, momento em que ele pediu para ver o celular dela. Ela mostrou o celular, falou que as mensagens não tinham nada demais. Momento em que ele ficou enciumado e queria conversar com ela”, relatou a delegada.

O inquérito foi remetido ao Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), que ofereceu denúncia ao Poder Judiciário, que o tornou réu oficialmente por tentativa de feminicídio.

A próxima etapa é a fase de instrução do processo, quando as partes apresentam as provas, documentos e depoimentos de testemunhas com o objetivo de formar a convicção do juiz sobre os fatos. Não há prazo para conclusão dessa fase.

Apenas depois do final do período de instrução, o juiz deve decidir se há ou não provas suficientes para que o réu seja julgado, além de definir se ele irá ou não ao Tribunal do Júri (Júri Popular).

Vítima relata que recebeu novas ameaças pelas redes sociais

Foto: Reprodução

Em entrevista ao programa “Encontro”, no final de agosto, Juliana revelou que havia recebido uma ameça pela internet de uma pessoa dizendo que iria “dobrar a agressão” que ela havia sofrido de Igor Cabral.

Na mensagem que chegou via redes sociais, o homem ameaçou agredi-la com 121 socos quando viesse a Natal.

“Isso mexeu muito comigo, me deixou muito angustiada em saber que tem pessoas que ainda pensam desse modo. Eu não posso nem contar ao vivo o que me falaram, mas era algo referente a dobrar a agressão que eu sofri. Literalmente dizendo que viria a Natal para me dar 121 socos”, desabafou.

Juliana também disse que ainda lida com as marcas psicológicas provocadas pelo trauma que viveu. “Estou sempre em estado de vigília”, revelou, acrescentando que desenvolveu alguns comportamentos que não apresentava antes da tentativa de feminicídio.

Na entrevista, Juliana confirmou que, antes da tentativa de feminicídio, sofria violência psicológica do seu ex-namorado. Ela falou sobre o “ciclo do abuso”, alertando que, ao contrário do que as pessoas imaginam, o abusador nem sempre se comporta de forma violenta, como estratégia para manter a vítima presa emocionalmente a ele.

“Existem os momentos bons, porque o abusador precisa envolver você, ele precisa te manter ali, se for ruim o tempo inteiro você vai sair. Durante o ciclo, existe a chamada ‘lua de mel’, que é a fase dos momentos bons, felizes, em que ele te enaltece, porque se for ruim o tempo inteiro, ninguém fica preso a isso”, explicou.

Saiba Mais: Juliana Soares diz que recebeu ameaça falando em “dobrar a agressão” que sofreu

Ciclo do abuso costuma ser normalizado pela sociedade”, alerta psicóloga

A psicóloga Samantha Marinho detalhou que o “ciclo abuso” a que Juliana se refere ocorre quando o agressor, após cometer o ápice da violência, se mostra arrependido, faz promessas à vítima e a leva a acreditar que a agressão foi um incidente isolado.

O ciclo se repete, explicou, com a violência escalando gradualmente, começando com o ciúme, passando para a pressão psicológica e chegando à violência física, perpetuando o abuso.

“Essa fase da lua de mel é quando o parceiro diz que o que aconteceu foi um mero rompante, responsabiliza a parceira pela reação dele, mas diz que não era o que ele queria fazer. Ele vem com flores, com promessas e sempre de um lugar muito carinhoso, levando a mulher a acreditar que aquela violência foi verdadeiramente um fato isolado. A tendência é que, nesse ciclo abusivo, esses momentos de violência ganhem uma dimensão cada vez pior”, pontuou.

O que muitas vezes começa com uma crise de ciúmes, prosseguiu a psicóloga, rapidamente evolui para um “segurar mais forte pelo braço, depois vira uma pressão psicológica, em seguida surgem as falas depreciativas, às vezes envolvem também a violência patrimonial e, finalmente, chega à violência física propriamente dita”.

A psicóloga também sublinhou que a mulher, em muitos casos, não sai desse ciclo de violência porque esse padrão de relação costuma ser normalizado pela sociedade, fazendo com que ela acredite “as coisas são assim mesmo”.

Samantha defendeu que é preciso popularizar as diferentes formas de abuso, assim como o que são “falas machistas e misóginas”, para que as mulheres reconheçam quando estiverem sendo vítimas de uma violência. Ela também frisou que nós, enquanto sociedade, precisamos “criar mais mecanismos de empoderamento feminino”.

“Isso é fundamental para que a mulher reconheça o quanto antes que está em uma relação abusiva e consiga colocar um limite logo no início, porque na hora em que ela já está envolvida emocionalmente, que esse ciclo já está estabelecido, é muito mais difícil sair, até porque nós estamos falando de relações com um alto cunho de dependência emocional. O processo terapêutico nesse sentido é muito importante também para que a mulher reconheça essa dependência emocional, consiga adquirir outras ferramentas de autonomia para sair dessa relação e tenha outros padrões de relações mais saudáveis”, completou.

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