A circulação tão intensa, afetiva e premiada de Pupá, curta-metragem dirigido por Osani, jovem realizador de Acari que vem redefinindo, a partir do Seridó, a força das narrativas intimistas e territoriais dentro do cinema brasileiro contemporâneo. Com mais de 50 exibições no Brasil e na França e 18 prêmios acumulados, o filme se tornou um dos grandes destaques do circuito de mostras e festivais, abrindo caminhos para seu diretor e projetando a figura de sua protagonista, sua mãe, Edna Maria, como um ícone popular reconhecido e celebrado pelo público.
Aos 30 anos, Osani, que também assina artisticamente como tambureti, constrói uma trajetória marcada pela persistência e pelo compromisso com a representação de vidas e corpos que historicamente estiveram à margem das telas. Morador de Acari e pessoa transmasculina, iniciou sua relação com o audiovisual em 2021, quando a Lei Aldir Blanc abriu portas com chamadas municipais de incentivo à produção. Dali nasceu Morada, seu primeiro curta, centrado no cotidiano da cidade e na memória afetiva de um amigo, o Negão Azul. Mas o desejo de migrar da fotografia, prática que desenvolve desde 2016, para o cinema já pulsava antes mesmo desse primeiro passo. Hoje, cursando Comunicação Social – Audiovisual pela UFRN, ele sintetiza as duas linguagens numa estética própria, marcada pela delicadeza, pela atenção às miudezas do cotidiano e pelo olhar íntimo sobre o território.
Mais do que um projeto audiovisual, Pupá é um filme-casa, um filme-família. A obra nasce da vontade de contar a história de sua mãe, Edna Maria, figura conhecida em Acari pelo humor, pela força, pela autonomia e pela constante presença comunitária. Cambista de jogo do bicho, amante das festas, da seresta, do batom vermelho, das amizades de rua, das rezas e da ancestralidade indígena, ela encarna uma mulher nordestina livre, complexa e cotidiana, raramente retratada pelo cinema com tanta intimidade.
“Construímos o filme juntos, desde o roteiro até os lugares onde ela se sentiria à vontade”, diz Osani em entrevista à Agência Saiba Mais. Ele destaca que a obra busca revelar a experiência de uma mulher de mais de 50 anos que vive sua própria liberdade, muitas vezes à revelia das expectativas sociais sobre maternidade, idade e comportamento. A escolha estética de aproximação, cuidado e afeto, faz de Pupá uma narrativa profundamente sensível, que dá centralidade a corpos que por muito tempo foram filmados apenas pelo olhar alheio.
A trajetória do filme impressiona até espectadores e profissionais mais experientes. Pupá vem sendo exibido em cineclubes, festivais de pequeno e grande porte, mostras regionais e nacionais, sempre recebendo respostas calorosas. Em muitas sessões, relatos de identificação se repetem: “Essa é a cara da minha mãe”, “parece minha tia”, “lembra tantas mulheres da minha vida”. Para Osani, esse espelhamento é o que torna o percurso tão especial.
“Acho que o público vê em Pupá uma mulher que existe em tantos lugares do Brasil. Isso me emociona”, afirma o diretor.
O filme, segundo ele, carrega não só a história de Edna, mas a de gerações de mulheres do interior, marcadas por força, espiritualidade e humor, e também a história dos que vieram antes, e que agora podem ser contadas a partir de dentro, com autonomia narrativa.
Curta Caicó
No último mês, durante a 8ª edição do Curta Caicó, o filme viveu um de seus momentos mais simbólicos. Pupá conquistou Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Montagem na Mostra Seridó, que homenageou Tânia Maria, pelo seu destaque no sucesso nacional Agente Secreto. Recebeu ainda prêmios especiais do Filmes Urgentes e da Mistika, e garantiu presença no Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF) 2026, uma vitrine internacional do cinema brasileiro.
“Vencer no Seridó, onde a história de Pupá nasceu, foi sensacional. Mais do que prêmio, foi encontrar um público que entendeu a obra de dentro pra fora”, diz Osani.
Foto: Kennel Rogis
A noite de Gostoso
Se no Seridó o reconhecimento foi íntimo, em São Miguel do Gostoso ele se transformou em monumental. Pupá foi selecionado e exibido na última sexta-feira (21) para a Mostra Competitiva da Mostra de Cinema de Gostoso. E desta vez, algo ainda mais potente aconteceu: Edna Maria, a Pupá real, estava presente na plateia.
A exibição à beira-mar, diante da tela gigante montada na praia, se tornou um dos momento simbólico. Ao final, aplausos longos e calorosos.
Com a circulação do curta pelo Brasil, Osani percebe um novo olhar sobre seu trabalho. Como ele próprio define, “as pessoas passaram a compreender que sou um realizador audiovisual, tanto na minha cidade quanto na minha família e até entre colegas de trabalho. Agora sou visto como alguém que faz filmes, que faz cinema.”
O cineasta também destaca que estar presente nas exibições e festivais tem ampliado suas referências e redes no audiovisual. “Conhecer diversas pessoas nos lugares por onde passo com o curta, conhecer novos realizadores, novos curadores, várias mostras e festivais tem sido enriquecedor. Acho que estou em um momento de construção de trajetória artística e de descoberta do mundo do cinema da melhor forma possível”, finaliza ele.