Curso pioneiro no RN capacita profissionais do SUS sobre cannabis medicinal
O uso medicinal da cannabis vem ganhando espaço na saúde pública brasileira, mas ainda esbarra em barreiras como a falta de informação, preconceitos históricos e dificuldades de acesso ao tratamento. No Rio Grande do Norte, uma iniciativa voltada a profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), marcada para o próximo dia 3 de julho, na Escola de Saúde Pública do RN.
O curso é resultado de uma articulação entre a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), a Escola de Saúde Pública do RN, a Associação Reconstruir Cannabis e outros parceiros. A proposta é qualificar profissionais para o uso terapêutico da cannabis, ampliando o conhecimento sobre prescrição, indicações clínicas e aspectos legais relacionados ao tratamento.
Felipe Farias, responsável pelo projeto no estado, conversou com a Agência Saiba Mais sobre as expectativas da formação. O objetivo, segundo ele, é que contribua para aumentar o número de profissionais aptos a orientar pacientes e prescrever medicamentos à base de cannabis quando indicado:
“Hoje ainda existem profissionais de saúde que acreditam que não podem prescrever cannabis ou que desconhecem as formulações disponíveis no Brasil. Nosso principal desafio é fazer essa informação chegar aos profissionais e reduzir o preconceito em torno do tema”, afirma.
A capacitação surge em um contexto de crescimento da demanda por tratamentos com cannabis medicinal no país. Embora o canabidiol seja o composto mais conhecido, outros canabinoides também vêm sendo estudados e utilizados em diferentes condições clínicas, especialmente em áreas como neurologia, psiquiatria, oncologia e cuidados paliativos.
De acordo com Felipe, muitas famílias procuram atendimento na rede pública após tentativas frustradas com tratamentos convencionais. No entanto, encontram dificuldades para localizar profissionais capacitados para orientar o uso terapêutico da cannabis.
“São famílias que já utilizaram vários medicamentos sem alcançar o resultado esperado e buscam uma alternativa. Ao mesmo tempo, muitos profissionais relatam que não receberam esse conteúdo durante a formação acadêmica e sentem falta de capacitações específicas sobre o tema”, explica.
Atualmente, o Rio Grande do Norte ainda não oferece medicamentos à base de cannabis pelo SUS. Para os organizadores, a formação representa um primeiro passo para futuras discussões sobre a ampliação do acesso na rede pública estadual.
“Nosso plano de expansão passa justamente por isso: criar condições para que as famílias possam acessar esses tratamentos pelo SUS, como já acontece em alguns estados brasileiros. Hoje esse acesso ainda não existe no Rio Grande do Norte”, destaca Felipe.
Além das dificuldades de acesso, o custo dos medicamentos é apontado como um dos principais obstáculos para pacientes e familiares. Dependendo da formulação e da concentração, um produto à base de cannabis pode custar entre R$ 400 e R$ 3 mil por mês.
A expectativa é que a capacitação também contribua para um uso mais racional de medicamentos. Segundo Felipe, em alguns casos o tratamento com cannabis pode ajudar a reduzir a quantidade de fármacos utilizados simultaneamente pelos pacientes, situação conhecida como polifarmácia, comum especialmente entre pessoas com doenças crônicas.
A grade curricular do curso terá cerca de 18 horas de duração e abordará desde a história da cannabis e seu processo de proibição até questões jurídicas, direitos dos profissionais prescritores e aplicações clínicas em diferentes especialidades médicas. Entre os temas previstos estão neurologia, psiquiatria, reumatologia, oncologia e cuidados paliativos.
Os organizadores ressaltam que o objetivo não é apenas transmitir conhecimento técnico, mas também combater estigmas que ainda cercam o uso medicinal da planta.
“Muitas famílias ainda têm receio de informar aos profissionais de saúde que utilizam cannabis por medo de julgamento. A capacitação é fundamental para que o profissional compreenda o tema com base na ciência e para que os pacientes recebam acolhimento e orientação adequados”, finaliza.
O lançamento do curso será aberto ao público e deve reunir profissionais de saúde, gestores, pesquisadores, pacientes e familiares interessados na discussão sobre a cannabis medicinal e seu papel nas políticas públicas de saúde.
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