Concurso UERN: candidatos denunciam irregularidades e pedem anulação
Cerca de 30 candidatos que prestaram concurso para uma das vagas de professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em abril deste ano, estão pedindo a anulação do certame. Eles afirmam que alguns nomes que constam como membros das bancas examinadoras não foram, na realidade, contratados para a correção das provas.
O concurso foi organizado pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional, Cultural e Assistencial Nacional (Idecan). As inscrições foram realizadas entre janeiro e março deste ano, com aplicação das provas em abril.
Uma das falhas identificadas pela comissão de alunos foi no nome de um examinador, cujo nme será mantido em sigilo para evitar exposição, que deveria corrigir as provas dos candidatos às vagas para o curso de Administração. No currículo publicado em edital pelo Idecan, ele aparece como gestor de projetos, consultor sênior e professor de pós-graduação, graduação e cursos livres, mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (2008) e graduado em administração pela Universidade Estácio de Sá (2004). Porém, o suposto membro da banca parece não estar mais atuando na área para a qual foi contratado como examinador.
“O LinkedIn dele não está mais atualizado, o que parece é que hoje ele tem um blog e é empresário de bandas de rock. Consegui um celular dele através do facebook e passei essas informações, mas até o momento ele nem visualizou. O interessante é que no resumo dele publicado no concurso, constam as mesmas informações que estão publicadas no LinkedIn. Tiraram o resumo de lá, mas cadê o currículo lattes? Ele não está mais na área e desconfio que, talvez, nem saiba que o nome dele está envolvido nisso, mas é só uma suposição”, começa um membro do grupo de candidatos que realizou a pesquisa, mas pediu para não ser identificado.


O homônimo
Também foram identificadas possíveis irregularidades na banca dos examinadores das vagas de Ciências Contábeis, inclusive, com uso de nomes iguais, mas currículos diferentes.
“Para minha surpresa, ao consultar o resumo divulgado pelos organizadores do concurso, vi que o currículo é de uma pessoa, mas o link do lattes é de outra! São duas pessoas diferentes. Achei estranho e entrei em contato com o que colocaram o resumo e ele deixou claro: ‘eu não corrigi essa prova, mas tem um homônimo e pode ter havido alguma confusão’, revela o candidato que tentou, então, falar com o outro examinador, cujo currículo lattes foi publicado pelo Idecan.

“Entrei em contato com uma empresa da qual ele foi sócio e depois de alguma insistência, me deram o contato. Hoje ele é Ceo de uma empresa chamada XXX (também será mantido em anonimato), ele subiu a um patamar enorme. Consegui o contato dessa empresa, que fica em Campinas [SP]. Conversei com a diretora de Recursos Humanos e quando lhe contei sobre a situação, ela começou a rir e disse: ‘Ele é nosso Ceo, estou rindo porque ele não tem tempo para corrigir provas, saiu da área acadêmica desde 2015. Mas, me mande um email porque vou falar com ele e pedir para fazer algo por escrito’. Espero receber essa resposta por escrito até a sexta [26]. Ele disse que não corrigiu nenhuma prova, está até surpreso e disse que iria procurar a assessoria jurídica”, relata nossa fonte.
Três bancas para dois membros
Em alguns casos, além da suspeita sobre a verdadeira identidade de quem está fazendo as correções, também foi identificado que há examinadores acumulando mais de uma banca, como no caso dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e Administração, que possuem dois membros participando das três bancas.
Vamos chamar os examinadores em questão X e Y, que têm cerca de 150 provas para corrigir em menos de 45 dias.
“São dois membros em três bancas, com distinção de conteúdo em cada uma. Vamos supor um mínimo de cinco páginas para cada prova, com assuntos totalmente diferentes”, pondera o candidato.
Nossa fonte para esta reportagem também descobriu que X é general do Exército e que foi gestor da biblioteca da instituição, no Rio de Janeiro, de onde pediu exoneração no dia 28 de junho. O candidato a uma vaga na UERN, que desconfiou das bancas e passou a investiga-las, conseguiu falar com o atual administrador da biblioteca.
“Ele também riu e disse: ‘não sei se X teria tempo hábil para corrigir essas provas porque ele passou os últimos seis meses organizando toda a documentação e a biblioteca para me repassar. O tempo que ele ainda tinha disponível era para palestrar em eventos como conselheiro do CRA [Conselho Regional de Administração]. Mas, ele pode ter feito algum trabalho de fim de semana… vou entrar em contato com ele’. Mas não me responderam ainda. Entrei em contato com o CRA, que falou com ele, avisou que eu estava a sua procura, também mandei email, mas ele não se manifesta”, estranha o candidato.
“A moça do Conselho Regional de Administração disse: ‘eu acho isso estranho, porque todos os conselheiros nos mostram a agenda quando vão fazer algo, que é como se fosse para demonstrar que estão fazendo algo na área de administração, e ele não me falou nada sobre essa banca, mas, pode ter esquecido’. Ela entrou em contato com ele ontem [24] à tarde, também passei mensagem no LinkedIn e no Instagram, mas ele não responde”, comenta.
Y, que aparece como examinadora das bancas de Ciências Contábeis, Administração e Ciências Econômicas, também foi encontrada por nossa fonte. Ela é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e, coincidentemente, foi orientanda do professor citado no início dessa matéria, que tem um homônimo.
“Isso me chamou mais atenção ainda. Entrei em contato com a direção do departamento dela, passei vários e-mails e ligava todos os dias. Hoje [quinta – dia 25 de julho], eles conseguiram contato com ela, que pediu que eu enviasse um email para ela entender o que é essa situação. Mandei hoje à tarde e estou aguardando resposta. A tirar pela situação dos dois homônimos, que confirmaram não ter participado dessas bancas, é que todas elas pegaram nomes de examinadores aleatórios porque não imaginaram que nós investigaríamos os componentes das bancas. O mais agravante é que a UERN é ciente de tudo isso e não se manifesta sobre nada”, critica o candidato.
O que diz a UERN
A Agência Saiba Mais entrou em contato com a UERN para saber quais providências foram adotadas após as denúncias. Por meio de nota, a Comissão Central do Concurso público da Fundação Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Fuern) informou que solicitou explicações oficiais ao Idecan sobre a composição das bancas avaliadoras das provas discursivas do concurso para docente, edital Nº 01/2024, após realizar a análise da lista de avaliadores e fundamentada em fatos narrados por candidatos, tendo recebido a seguinte resposta:
“O IDECAN COMUNICA aos candidatos inscritos para o Concurso Público de provas e títulos para provimento de cargo de Professor do Ensino Superior, para Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, regido pelo EDITAL Nº 01, DE 05 DE JANEIRO DE 2024, que, após a análise dos recursos, fez-se necessário proceder a ajustes nas seguintes bancas examinadoras da prova discursiva: Filosofia, Pediatria, Urologia, Nefrologia, Medicina Intensiva, Química em Ensino, Ciências Econômicas, Língua Estrangeiras – Inglês, Dermatologia, Pneumologia, Pedagogia (Fundamentos), Pedagogia (Práticas Pedagógicas), Odontologia, e Serviço Social.”
A Comissão ainda expôs que “vem acompanhando atentamente todo o processo e exigindo mais celeridade nas respostas do Idecan, que está no processo final de análise de mais duas bancas”.
Porém, na avaliação dos candidatos que passaram a contestar a validade do concurso inteiro, as medidas divulgadas pelo Idecan não corrigem todos os erros identificados até o momento.
“No cenário atual, a revisão fica inviável porque todos nós já temos acesso a nossas provas e no processo para magistério superior, as provas só podem ser divulgadas após a banca postar o gabarito de respostas, assinar esse gabarito e a correção das provas, coisa que a própria banca não fez. Isso é o mínimo de qualquer concurso. Mas, além dessa situação geral, o gabarito de respostas só foi disponibilizado depois de expirar o período de recursos. Nesse cenário, só resta a anulação, não tem como fazer uma revisão”, avalia nossa fonte.
“Por que a UERN não cancela o concurso diante de tantas quebras de contrato? Apresentação de bancas falsas, profissionais que não são da área nas bancas… o que leva a UERN a continuar? É isso que chama a atenção de todo mundo”, questiona o candidato.
O que diz a Idecan
A Agência Saiba Mais também entrou em contato com o Idecan desde a quarta (24) para questionar a instituição sobre as denúncias e sobre quais seriam as mudanças feitas pela empresa, anunciadas em comunicado à UERN. Na noite desta quinta (25) nós recebemos a seguinte resposta:
“Em relação ao concurso público para professor de Ensino Superior da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), o Idecan informa que, após análise dos recursos da prova discursiva, decidiu pela substituição de alguns professores das bancas examinadoras e nova correção das provas.
São as seguintes as bancas em questão: Filosofia, Pediatria, Urologia, Nefrologia, Medicina Intensiva, Química em Ensino, Ciências Econômicas, Língua Estrangeiras – Inglês, Dermatologia, Pneumologia, Pedagogia (Fundamentos), Pedagogia (Práticas Pedagógicas), Odontologia, Serviço Social, Contábeis e Psiquiatria”.