Como é possível expressar a própria finitude se, para fazê-lo, é preciso estar vivo, portanto, não findo? Qual a validade de imaginar o momento em que já não teremos mais voz para narrar aquilo que justamente extinguiu qualquer sopro da nossa imaginação?
Em Breviário da Finitude, Edgard de Assis Carvalho se lança – e nos lança – nesse abismo de desconhecimento que constitui a morte humana ao ensaiar, com sua escrita, o processo irrevogável do morrer. Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, diz que a vida não admite ensaios. Ouso dizer, com a imprecisão de quem nunca experimentou o ato, que morrer também não o admite. A morte é a versão definitiva do que antes eram apenas aproximações errantes e ensaiá-la sem morrer é pantomima inútil: não nos prepara para encenação final, completamente diferente de tudo o que aconteceu antes.
Toda vida caminha ao encontro da morte, é a realidade que conhecemos, a condição inevitável de estar vivo. Encaramos a morte o tempo todo, mas fechamos os nossos olhos para conseguir viver melhor e por mais tempo. Isso é tão claro e tão potente que a adrenalina ao escapar do perigo nos faz renascer; toda tragédia que não nos mata equivale a um choque de vitalidade. Talvez por isso o breve ensaio de Carvalho seja muito potente e pulsante, mesmo que verse sobre o fim.
Quando Carvalho começa seu breve ensaio sobre o caminhar que o aproxima da própria morte, coloca-se em um meta ponto-de-vista cósmico. Sua voz está em primeira pessoa, mas o seu olhar se dirige aos acontecimentos que cercam a sua jornada para a finitude que divisa de um jeito desassombrado. Há dor, há pasmo, mas há também compreensão e algo que eu poderia chamar de aceitação lúcida, embora não tenha certeza de que seja mesmo um aceitar. O que é indiscutível é a dimensão e a profundidade das reflexões que Carvalho faz com a coragem de se desnudar e com o caráter confessional sem culpa da sua escrita. A resultante, para quem o lê, é uma nova compreensão sobre o processo de envelhecimento, adoecimento e morte dos seres humanos como um todo.
Um grande escritor se assenta sempre sobre um grande leitor. Com Carvalho, vamos passeando por entre os livros da sua biblioteca ideal, penetrando nas páginas e absorvendo ideias complexas, que vão sendo dispostas com uma economia de palavras e uma simplicidade que só a sabedoria de uma vida bem vivida pode oferecer. Há releituras de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, em uma tradução escolhida; dos Diários, escritos pelo pai de Carvalho, que chama o filho de “comunista”, como se isso fosse um xingamento; de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: das Obras Completas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Esses e outros autores são apresentados com intimidade e mesclados aos fatos da vida de Carvalho. Suas obras ganham dimensão e peso para nós. Entre os autores, Edgar Morin refulge, é um pensador de referência que, mais do que isso, está na condição de amigo. Carvalho diz ter percebido que, com Morin, “o dispositivo do suposto saber havia sido definitivamente substituído pela pulsão desejante, genuína e suntuosa do prazer de conviver”.
Nessas cenas de vida intensa, a morte se imiscuiu, talvez para atestar o quão tudo aquilo era realmente um exercício vital. A brecha que revela outras camadas da realidade apareceu para Carvalho na ida para uma residência para idosos, “um asilo de alienados excluídos do convívio social” para ocultar, dos familiares, as “agruras dos sofrimentos e dores das etapas finais da vida”. Nesse momento, ele não se apartou psiquicamente do mundo; seguiu lendo as aflições coletivas. “Em janeiro de 2019, o Brasil passara a ser comandado por um psicopata clínico que produziu um irrecuperável e desastroso efeito nos corações e mentes (…) e, por meio de uma máquina corruptora, transformara o país numa massa reacionária, discricionária, intolerante”, anota.
O tempo, porém, cobra seus tributos. Mesmo tendo voltado depois para casa, Carvalho conta que se retirou progressivamente da vida coletiva, o que ele considera uma “modalidade suicidaria” simbólica. Ele foi observando seu corpo nessa condição de exilado, um corpo antes tão bem cuidado e, agora, um espectro sem materialidade, abandonado “no compasso de espera de que ele mesmo desse os sinais do fim”. O computador, a cozinha, os poucos amigos, os livros são os companheiros nesse trecho do trajeto rumo ao esquecimento.
Edgard, então, recorre a Freud e foca sua escrita sobre a transitoriedade, de cuja consciência pode resultar indiferença ou revolta e sobre como a libido não morre, só muda de objetos e realiza um trabalho incessante de reconstrução. Assim, tudo o que foi destruído pode ressurgir “num plano mais sólido e duradouro”, ajudando as culturas humanas a “se livrarem dos sentimentos de desilusão que elas proporias criaram: guerras, extermínios, malevolências, exclusões”. Carvalho se inspirou nisso para se reconstruir “como sujeito uno e múltiplo, universal e particular”. Seu corpo, para ele, voltou a adquirir consistência, a esqualidez passou a ser vista como destino, dotada de uma beleza surreal. A sua mente foi se deslocando para territórios arcaicos. A lentidão e a resiliência assumiram o comando da sua vida rumo ao fim, em que o “meditar significa a justa medida entre as palavras e as coisas” e o Ego deixa de limitar a expansão do ser.
Breviário da Finitude é um texto curto, mas cada palavra tem a força de um manifesto cuja leitura parece acender, de dentro de nós, verdades que ainda levaremos muito tempo para reconhecer.