No seu primeiro dia de mandato, recém empossado Prefeito de Natal, Paulinho Freire já disse a que veio. Como novo alcaide da capital potiguar, no seu discurso de posse, o Prefeito disse, textualmente: “tá bem pertinho de João Pessoa voltar a ser curral de Natal”.
Menos do que um gracejo entre amigos, o que o Prefeito tentou explicar em uma nota de desculpas, 72 horas após sua fala infeliz, (em suposta resposta a uma crítica de seu aliado, o ex-senador José Agripino),é que, na verdade, está na hora de Natal voltar a ser Natal e João Pessoa ser João Pessoa, ou seja, o que eu ouvia nos meus anos de adolescência quando cheguei na cidade: uma era a resplandecente “Terra dos Reis Magos”, a “Cidade do Sol”; a outra? Apenas o caminho para Recife. Ora, sem ingressar nas conjecturas das teorias conspiratórias, mas à luz dos fatos, confesso ter entendimento diferente. A fala de Paulinho não foi impulsiva e nem de sopetão. O discurso é calculado e tem alvo certo.
Desde que fomos surpreendidos essa semana (e olha que ainda dá pra se surpreender) com as falas tenebrosas do presidente eleito americano, Donald Trump, sobre anexar o Canadá e invadir a Groenlândia, além do Canal do Panamá, sabemos que a lógica do populismo moderno, de extrema-direita, neste século, é estimular o confronto, o belicismo e a polarização. Interessa ao líder populista transformar seus eleitores em fiéis seguidores, e para que eles se esqueçam dos eventuais deslizes ou desmandos internos de sua administração, convém ao líder desviar a atenção para a animosidade contra inimigos imaginários ou recém criados.
Ernesto Laclau, finado teórico político argentino, herdeiro da tradição teórica pós-marxista e arguto estudioso do populismo, escreveu em sua célebre obra A razão populista, que o lider populista lida com as demandas populares por um princípio de identidade, e não de representação, típico das democracias representativas liberais. Não basta ser apenas um representante do povo. O mandatário tem de ser o próprio povo, e, para isso, ele se vale de expedientes retóricos, como o de identificar como povo apenas quem se identifica com suas ideias, crenças e convicções, o apelo ao nacionalismo, regionalismo e todo tipo de exclusivismo sectário de um grupo social, e, principalmente, a construção de adversários dicotômicos, que sempre mantenham a distinção polarizadora entre o nós X eles.
Esse populismo encaixa-se muito bem num modelo de política em que, o outrora liberal e moderado Paulinho, abraçou de vez com todo oportunismo, vendo o resultado dos discursos e o crescimento político de personagens como Trump e Bolsonaro.
Na qualidade de não apenas um gestor municipal, mas de um político outrora opaco, que se fortaleceu ao se eleger para a Câmara Federal e agora prefeito de uma capital, interessa a Paulinho e seu staff criar uma relação de identidade com os natalenses, inclusive fomentando rivalidades antigas, que beiram até o ridículo, como o de transformar o eleitorado da capital vizinha num rebanho, dentro do curral de uma elite agrária, provinciana e reacionária, que obteve êxito ao mobilizar o eleitor antipetista de Natal a torná-lo Prefeito.
Por falar em antipetismo, foi emblemática a estratégia do agora prefeito, durante a campanha eleitoral do ano passado, quando contrapôs un suposto “povo” natalense contra a candidata do PT, a deputada federal Natália Bonavides. A estratégia deu certo e apesar do desempenho eleitoral significativo de Natália, no segundo turno da eleição, Paulinho conseguiu se eleger com mais de 10% dos votos válidos contra a candidata petista. Valendo-se de uma série de inverdades narrativas e sempre apostando na polarização (o candidato defensor da ordem contra a candidata defensora de bandidos), Paulinho observou, acertadamente no mercado do voto, que populismo dá certo e elege candidato.
É se valendo de um populismo barato (mas caro ao eleitorado que cobra resultados de uma gestão), que Paulinho anunciou, já no seu discurso de posse, como deverá ser a sua maneira de governar. Apesar de uma dezena de parlamentares, da Câmara de Vereadores de João Pessoa, ter reclamado imediatamente nas redes sociais e nos meios de comunicação, sobre a infeliz fala do alcaide, é bem provável que, em outras ocasiões, Paulinho vá novamente à forra, e volte a fazer comparações esdrúxulas entre Natal e João Pessoa, estimulando a rivalidade.
Ora, rivalidade, concorrência, é a lógica do capitalismo e do mercado, e as ações de desenvolvimento do poder público partem, também, de um incentivo à competição. É sabido, que nos últimos 10 anos, João Pessoa cresceu em termos de obras e IDH, em comparação a Natal. A cidade desenvolveu-se em passos galopantes principalmente na geração de empregos, transporte público e turismo, áreas onde Natal, nos últimos anos, passou a apresentar déficits mais do que preocupantes.
Mas, isso se deu, principalmente, pela opção do eleitorado em eleger prefeitos afinados com os governos municipal e federal, o que não é o caso de Natal. Numa campanha com críticas abertas a governadora do estado, Fátima Bezerra, do mesmo partido do presidente da República, Lula, Paulinho apostou na narrativa da discórdia e das pautas simpáticas ao bolsonarismo, impulsionando ainda mais a rivalidade e um clima de conflito entre os entes federados.
Se Paulinho quer briga com o Executivo Estadual e o Federal, quanto mais com o da capital vizinha. Prepare-se João Pessoa! No populismo verborragico de Paulinho Freire, ainda vem mais chumbo quente verbal, no seu discurso dos natalenses contra eles. Quanto ao curral? De que gado estamos falando mesmo?