Uma das classificações na evolução do homem diz respeito à sua capacidade de possuir uma linguagem de dupla articulação. Ele é capaz de organizar o caos dos fonemas e lhes atribuir sentidos lógicos, formando e trocando palavras com o outro.
Outra capacidade particular, desde que o seu ancestral desceu das árvores, perdeu o rabo e passou a andar sobre duas pernas, é a de olhar para o distante, o estrangeiro, e assim praticar nomadismos e alteridades. Olhar em perspectiva lhe possibilitou ampliar horizontes. Inaugura-se o chamado “terra à vista”.
As navegações e seus aparatos tecnológicos são exemplos práticos: binóculos, telescópios, lunetas, periscópios etc. Somam-se ainda os radares e as bússolas, que, embora não sejam objetos de olhar, são importantes para visualizar a grandes distâncias e indicar rotas de navegação.
Pois bem, na atual condição do Homo sapiens, surgiu um outro dispositivo que revolucionou sua capacidade evolutiva do olhar: o smartphone. O telefone móvel inteligente tornou-se antropófago, pois devorou o mundo externo e o alojou no interior de seus aplicativos, transformando o olhar. Em vez de mantê-lo voltado para a alteridade ou para o fora, manteve-o voltado para uma perspectiva indoors e sem distância. Tudo passou a ser visto a partir das mãos, ou, precisamente, das pontas dos dedos.
Perdemos a capacidade de enxergar lateralidades (acasos) e o outro (vizinhos). Isso significa uma regressão civilizatória, na medida em que toda a comunicação se dá pelas mãos e é mediada pelo telefone celular. Deixamos de trocar palavras — uma das características da cultura e do social (Lévi-Strauss) — e passamos a emitir meros sinais (emojis, memes etc.).
A linguagem como dupla articulação deixou de ser fundamental para a civilização do sapiens. Por isso, nos transformamos todos em Phonosapiens: fim do banquete de palavras por sujeitos exercitantes de uma comensalidade mediada por diálogos duradouros. Agora, basta que sinalizemos ou devoremos sinais.
Os Phonosapiens