Livro de policial potiguar chega à disputa do Jabuti 2025
Natal, RN 4 de jun 2026

Livro de policial potiguar chega à disputa do Jabuti 2025

30 de setembro de 2025
3min
Livro de policial potiguar chega à disputa do Jabuti 2025

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Um cangaceiro que não gosta de sangue. Um filho da união improvável entre um farrapo gaúcho e uma indígena janduí. Um espião dentro do bando de Jesuíno Brilhante, o “cangaceiro romântico”. Assim nasce Zé Doido, personagem central do livro Flor do Mandacaru – O Amor em meio ao Cangaço, primeira obra do 2º sargento Claudionor de Oliveira Júnior, o “Teimoso Zen”, que conquistou lugar entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti de Literatura.

A lista foi divulgada na última quinta-feira (25) pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Cada categoria reúne dez semifinalistas, e no próximo dia 7 de outubro serão revelados os cinco finalistas que seguem para a cerimônia de gala marcada para 27 de outubro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Confira todos os indicados.

A narrativa de Flor do Mandacaru mergulha na tradição do regionalismo nordestino, mas com um recorte tipicamente potiguar. O pano de fundo é a trajetória de Jesuíno Brilhante, nascido em Patu em 1844, que ficou conhecido como “o cangaceiro romântico”. Diferente da imagem violenta associada ao cangaço, Jesuíno foi lembrado como defensor dos pobres e injustiçados, alguém que dividia o que tomava dos coronéis para garantir alimento e dignidade aos mais vulneráveis.

É nesse cenário que Zé Doido encontra seu espaço: um personagem contraditório, hábil no combate mas avesso à violência, um cangaceiro que preferia espiar em vez de matar. Mais do que ação, o romance coloca em cena o amor improvável, evocando a imagem do mandacaru que floresce em meio à seca.

O policial que virou escritor

Com 24 anos de carreira na Polícia Militar do RN, Claudionor atua hoje no Batalhão de Policiamento Escolar e Prevenção às Drogas e Violência (BPRED), como instrutor do PROERD. Também é voluntário da Cruz Vermelha do RN, onde coordena cursos de Atendimento Pré-Hospitalar. Entre fardas, aulas e missões, descobriu na escrita um caminho de memória e afeto.

“Eu sempre me incomodei com o fato de o Rio Grande do Norte ter histórias riquíssimas e isso não estar na literatura que circula nas escolas. A gente fala de Lampião, mas antes dele existiram outros cangaceiros”, relata o autor.

O processo de escrita foi um exercício de disciplina uma página por dia, sempre à noite, após o expediente. Em um ano e oito meses, a obra estava pronta. “Eu escrevia depois do dia de trabalho, sempre à noite, uma página por dia, meia página por dia, um pouquinho. Eu desejo que as pessoas se encontrem aqui, encontrem a história dos seus avós. Eu dedico essa obra à memória dos meus avós.”

Além do Jabuti, Flor do Mandacaru também concorre em outros dois prêmios nacionais: o Prêmio Candango, em Brasília, na categoria Melhor Romance, e o Prêmio São Paulo de Literatura, ambos na categoria autor estreante.

A trajetória já simboliza uma vitória, a de trazer para o cenário nacional uma literatura feita a partir do chão potiguar, onde amor, memória e resistência florescem, tal qual o mandacaru em tempos de seca.

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