Há dez anos, um grupo de amigos decidiu ocupar o domingo da cidade com algo diferente. A ideia era simples. Criar um espaço onde a música eletrônica e a experimentação fossem vividas com liberdade, humor e afeto. Assim nasceu a Houssaca, festa que se transformou em um dos marcos mais importantes da cena musical e cultural de Natal.
O que começou como um encontro de amigos virou uma nave-mãe como define o produtor Frank Aleixo, um dos idealizadores da festa. “O maior legado da Houssaca são as grandes conexões que a festa é capaz de fazer. São as pessoas que se conheceram na pista, que pisaram pela primeira vez no palco, que fizeram amizades que depois viraram grandes projetos”, relata.
Mais do que uma pista de dança, a Houssaca construiu uma comunidade. Um lugar onde o público pôde experimentar ser quem é, rir de si, dançar junto e se reconhecer nos corpos ao redor. “Quando a gente cria um espaço onde as pessoas possam se relacionar, viver, se divertir e experimentar consigo mesmas, muita coisa interessante é capaz de sair daí”, reflete Frank
No início, a festa enfrentava os desafios típicos da produção independente. Encontrar um espaço fixo, garantir estrutura e ainda manter o ingresso acessível era quase um malabarismo. “No começo, a entrada era cinco reais. Eu ficava na porta, olhando o estacionamento, contando as pessoas e pensando: ‘cadê esse povo?’. Cada um que entrava, eu contabilizava cinco reais na cabeça até que fechava tudo e dizia: se pagou, tranquilo, vou dançar em paz”, lembra Frank.
Essa leveza foi o combustível que manteve o projeto vivo mesmo nos momentos mais difíceis. “A força de querer fazer sempre superou o medo do risco”, resume. A parceria com o Ateliê, na Rua Chile, foi um marco. A festa firmou raízes na Ribeira, bairro histórico de Natal que sempre foi abrigo da arte, da resistência e da noite.
Ao longo dos anos, a Houssaca manteve-se fiel ao território que a acolheu. “A festa sempre foi muito ligada à Ribeira. Mesmo com os desafios que o bairro enfrenta, a gente quis continuar lá. É o nosso lugar”, explica Frank. Ele reconhece que a região segue enfrentando dificuldades de acesso e infraestrutura, mas vê um cenário mais fértil para a cultura. “Agora existem mais espaços abertos, como o Clube Frisson e o Ribeira Music. Isso também cria novos desafios, mas mostra que a coisa segue viva.”
Para Frank, produzir no Centro Histórico é sempre um ato de criação e reinvenção. “A gente gosta de pegar a dificuldade e tacar um som, uma luz, uma risada e transformar o espaço. É o que a gente sabe fazer de melhor.”
Entre gerações e encontros
Desde as primeiras edições, a Houssaca se destacou por reunir diferentes gerações e estilos, criando pontes entre veteranos da música eletrônica e novos talentos. “A gente vai ter back to back de pessoas da velha guarda com DJs que estão despontando forte na cena”, explica Frank.
Essa mistura é parte da essência da festa. “Desde o começo, a Houssaca teve essa ponte entre as gerações e sempre manteve uma reverência à house music e à comunidade LGBTQIAPN+, que constrói esse gênero do berço ao apogeu. São elas, caralho!”
No line-up, também brilham nomes de fora do estado. O DJ Mau Mau, pioneiro da house music no Brasil, e Paulete Lindacelva, artista que acompanhou o nascimento da Houssaca e hoje é referência nacional, representam essa ligação entre o local e o global. “Ela é uma das pessoas mais importantes para a house music brasileira. Está criando de uma maneira lindíssima e trazendo a house para o centro de novo, para essa comunidade que criou o gênero”, comenta Frank.
Em dez anos, a festa tornou-se também um espaço de formação artística e de visibilidade para talentos da cidade. Frank lembra com carinho das performances que passaram pelo palco. “É muito legal ver essas pessoas que começaram na Houssaca e hoje estão fazendo coisas incríveis. A festa sempre esteve de porta aberta, sempre buscando e reverenciando quem coloca a house nesse lugar tão especial.”
Ele recorda ainda o impacto da presença da “velha guarda queer”, DJs e performers que moldaram a identidade da festa.
Uma pedagogia da pista
Mais do que entretenimento, a Houssaca sempre teve um caráter pedagógico, um espaço de aprendizagem coletiva sobre música, corpo e pertencimento. “A festa sempre foi muito pedagógica. Tinha o público das drags e o público da música eletrônica, e os DJs sempre tiveram a preocupação de fazer pontes entre esses mundos. Acho que isso influenciou a forma como se toca house music aqui em Natal”, diz Frank.
Hoje, ao olhar para a cena potiguar, ele enxerga o quanto a festa ajudou a pavimentar um caminho. “A gente tinha medo de fazer evento no sábado, e hoje tem festa de música eletrônica praticamente todos os dias na cidade. É house every weekend, como a gente cantava.”
A nave segue em movimento
Ao revisitar fotos e arquivos das primeiras edições, Frank e o coletivo perceberam o tamanho do que construíram. “Foi mexendo nesses arquivos que a gente entendeu o quanto a festa é influente para a cena musical de Natal. As pessoas que estavam na pista lá atrás hoje estão criando coisas incríveis. A Houssaca é a nave-mãe porque dela surgiram muitos desdobramentos.”
E, mesmo com os desafios, o espírito continua o mesmo. Criar, experimentar e se divertir. “A gente quer se divertir produzindo. A Houssaca sempre foi sobre isso, sobre transformar o espaço, as relações e o próprio tempo. Sobre ser livre, ser som e ser gente.”
Há 10 anos nascia a Houssaca, o encontro de amigos e som que mudou a cena natalense.
A celebração da década de história acontece no Largo da Rua Chile, a partir das 16h, no dia 8 de novembro, reunindo velhos conhecidos e novas figuras da música eletrônica potiguar.
O reencontro promete relembrar a energia das primeiras edições, quando a Houssaca ainda era uma festa underground, feita de forma colaborativa e movida pelo amor à house music. “Dia 08/11 nos encontramos na Rua Chile pra comemorar 10 anos de House Music formando elos luxuosos pela cidade”, anuncia a produção nas redes.
Antes da grande celebração, a programação inclui oficinas voltadas a DJs e performers aspirantes, ministradas por duas figuras que são pilares da história da festa: Pajux Frank e Marxine. As inscrições já estão abertas no link bit.ly/oficinahoussaca.
A edição comemorativa é uma realização da Fundação José Augusto, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura e Governo Federal.
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