Fazenda que hospedou Mário de Andrade em 1928 será restaurada no RN
O Engenho Bom Jardim, que hospedou o escritor e pesquisador Mário de Andrade, em 1928, será restaurado pela família do antigo proprietário, o renomado crítico de arte Antônio Bento de Araújo Lima (1902 – 1988).
A propriedade está localizada no município de Goianinha, distante 60 quilômetros de Natal (RN), e pertence hoje ao sobrinho do antigo dono, Amaro Bezerra de Araújo Lima, ator, artista plástico e dono também de uma trajetória importante como maquiador do cinema nacional.
De passagem pelo Rio Grande do Norte entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, Mário de Andrade conheceu, no Engenho Bom Jardim, o embolador de coco Chico Antônio, por quem ficou encantado. O encontro foi mediado pelo amigo Antônio Bento, que auxiliava o escritor paulista em pesquisas sobre as manifestações folclóricas do Nordeste. A estadia na fazenda durou 10 dias.
Nos anos 1920, Mário de Andrade se comunicava por meio de cartas com dois grandes importantes personagens da cultura do Rio Grande do Norte: Antônio Bento e Luís da Câmara Cascudo.
Especialista na obra de Mário de Andrade, a pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, Rosângela Francischini, conta que Antônio Bento e Mário de Andrade se conheceram no início de 1926, quando Bento foi morar em São Paulo e, por um breve período, dividiu residência com o jornalista Mário Pedrosa. A partir daí, os dois passam a se corresponder até 1945, ano da morte do escritor modernista:
“A viagem de Mário de Andrade ao Rio Grande do Norte deve-se, muito, à amizade que estabeleceu com Antônio Bento, desde 1926, e aos preparativos feitos por Antônio Bento para que Mário tivesse acesso às manifestações culturais do RN. Igualmente, boa parte das pesquisas realizadas nesta viagem, e as publicações de Mário de Andrade, decorrem da participação e colaboração efetiva e direta de Antônio Bento. Mesmo após o retorno de Mário à capital paulista, Antônio Bento continuou a enviar para o amigo registros de manifestações populares do RN”, conta.

Grande encontro
Antes da viagem de Mário de Andrade ao estado potiguar, Câmara Cascudo já vinha estudando as tradições da cultura popular no Rio Grande do Norte. Ainda assim, sem reduzir a relevância do historiador, a pesquisadora ressalta a importância de Antônio Bento como o elo entre Chico Antônio e Mário de Andrade, àquela altura já consolidado como um dos maiores pesquisadores da cultura popular brasileira:
“O grande encontro que Mário teve no Rio Grande do Norte foi com Chico Antônio, possibilitado e mediado por Antônio Bento. Como Mário e Antônio Bento se conheceram em São Paulo, em 1926, portanto, antes da viagem de Mário ao RN, Antônio Bento já falava de Chico Antônio para o amigo. Assim, em 1928, estando em Natal, Mário foi ao Engenho Bom Jardim, da família de Antônio Bento, onde residia Chico Antônio. Nesse Engenho se deu o encontro que muito sensibilizou Mário de Andrade. Registros desses encontros estão em várias publicações, das quais destaco O Turista Aprendiz”, afirma.

Além de O Turista Aprendiz, Chico Antônio é personagem do livro Vida do Cantador. Os textos desta obra foram publicados, inicialmente, na coluna Mundo Musical, da Folha da Manhã, em 1943. O embolador de coco também é referência no romance Café, que Mário Andrade deixou inacabado.
12 Carusos
A admiração pelo embolador de coco foi tamanha que Mário de Andrade reservou a Chico Antônio um generoso capítulo no clássico “O Turista Aprendiz”, livro sobre as duas icônicas viagens realizadas pelo escritor modernista nas regiões Nordeste e Norte do país, na qual catalogou personagens e elementos da cultura popular brasileira na época.
A primeira viagem data de 1927, para a região amazônica, e durou três meses. Na segunda, Mário de Andrade saiu de São Paulo em novembro de 1928 e retornou em fevereiro de 1929 após visitar alguns estados nordestinos, incluindo o Rio Grande do Norte e a Paraíba.

Sobre Chico Antônio, o escritor Mário de Andrade escreveu:
“(…) Um coqueiro muito original, na gesticulação e no processo de tirar um côco. Alto, corpo de sulista, magruço, meio lerdo no gesto comprido, com uma cara horizontal, bem chata e simpática, de nordestino em riba. (…) ele não sabe, mas vale por 12 Carusos”, escreveu, citando o tenor italiano Enrico Caruso, uma das principais vozes da primeira metade do século XX.
Ainda nos registros de Mário de Andrade, sobre a despedida do embolador de coco no dia 12 de janeiro de 1929, ele escreve:
“Inda trabalho com Chico Antônio o dia até 17 horas. Na partida ele com o Boi Tungão se despede de mim e do nosso trabalho de maneira tão comovente que senti a chegada da lágrima. “Adeus sala, adeus piano, Adeus, tinta di screvê! Adeus, papé di assentá!” (assentar as músicas que ele cantava). De mim ele disse que quando eu chegasse na minha terra havia de não me esquecer nunca mais dele. E se por acaso eu voltasse por aqui, mandasse chamá-lo que ele vinha… E de fato nunca mais me esquecerei desse cantador sublime. Bom homem, simples, simpático e a voz maravilhosa, envolvendo a gente como nenhuma outra,” relatou.
O primeiro centenário de lançamento de “O Turista Aprendiz” será celebrado em 2029 e tanto o Engenho Bom Jardim como Antônio Bento e Chico Antônio têm uma importância histórica e cultural para a obra, o que valoriza ainda mais a iniciativa de restauração do espaço.
Herói com caráter

Parte das histórias que marcaram o encontro entre Mário de Andrade e Chico Antônio, no Engenho Bom Jardim, foram registradas, 50 anos depois, no documentário “Chico Antônio: o herói com caráter”, do cineasta Eduardo Escorel, lançado em 1983.
Com narração do poeta Ferreira Gullar e trechos das observações de Mário de Andrade sobre Chico Antônio presentes no livro “O Turista Aprendiz”, o filme traz depoimentos do próprio embolador de coco e também de Antônio Bento, além de imagens do Engenho Bom Jardim.
Projeto vai transformar fazenda em instituto cultural

O projeto de restauração do Engenho Bom Jardim foi aprovado em 2025 pela lei Rouanet de incentivo à cultura e está em fase de captação de recursos. Construído no século XIX, o conjunto arquitetônico da fazenda é reconhecido como patrimônio cultural, tombado pelo Estado potiguar.
A ideia de Amaro Lima é transformar a fazenda no Instituto Cultural Antônio Bento, espaço voltado à preservação da memória do tio, um dos mais importantes jornalistas e críticos de arte contemporânea do século XX no Brasil:
– Esse é um sonho antigo, mas é também uma forma de preservar a memória de um dos mais importantes personagens da cultura do Rio Grande do Norte. Antônio Bento ajudou a valorizar e a divulgar a obra de artistas hoje consagrados do país, como Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Ismael Nery e vários outros pintores modernistas do século XX. A amizade e o reconhecimento de Mário de Andrade falam por si. O legado que Antônio Bento deixou para a cultura brasileira é enorme e as pessoas precisam conhecê-lo melhor. O Instituto Cultural Antônio Bento é uma forma de mantê-lo vivo”, destaca o sobrinho e idealizador do projeto.

Primeira fase
Em fase de captação de recursos, Amaro Lima busca empresas públicas ou privadas para viabilizar a primeira fase do projeto, que inclui estudos arquitetônicos preliminares da sede do Instituto, respeitando as diretrizes de preservação patrimonial; o mapeamento completo do acervo pessoal de Antônio Bento, a partir de documentos, fotografias e objetos de valor histórico e artístico; a elaboração de um plano museológico que norteie a futura exposição pública e gestão do acervo, além da oferta de palestras gratuitas sobre Patrimônio Cultural, como forma de contrapartida social e formação de público.
“Com esse projeto, vamos iniciar o processo de restauração e transformar o Engenho Bom Jardim na futura sede do Instituto Cultural Antônio Bento (ICAB), com espaços ambientados de acordo com a valorização histórica da vida e obra de Antônio Bento. A ideia é abrir um circuito expositivo permanente, será um lugar dedicado a exposições temporárias e atividades que envolvem demonstrações folclóricas e culturais originárias da Zona da Mata do Rio Grande do Norte e de outras regiões não só do Estado, mas do país e do exterior”, explica a produtora Thalita Vaz, que auxilia Amaro no projeto.
Antônio Bento contribuiu para difundir a pintura modernista no Brasil

Antônio Bento de Araújo Lima nasceu em Araruna, na Paraíba, mas se mudou ainda pequeno para o Rio Grande do Norte. No engenho Bom Jardim, passou a infância e parte da adolescência. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, foi jornalista, crítico de arte, poeta, escritor e pesquisador. Trabalhou auxiliando Mário de Andrade em várias pesquisas sobre a cultura popular da região Nordeste.
Eleito deputado estadual pelo Rio Grande do Norte em 1927, é um dos autores do projeto de lei que garantiu às mulheres o direito de votar e de serem votadas em eleições. Com a revolução de 1930, no governo Getúlio Vargas, teve o mandato interrompido e se mudou para o Rio de Janeiro. Trabalhou como jornalista e crítico de arte nos principais veículos de imprensa da época.
Em São Paulo e no Rio, Antônio Bento tornou-se amigo do jornalista Mário Pedroza e também dos pintores Cândido Portinari, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Ismael Nery e de outros artistas modernistas da época.
O trabalho de Antônio Bento como crítico de arte ganhou projeção internacional ao ser convidado pela Unesco para participar da fundação da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), entidade fundada em 1950 para promover e difundir a crítica de arte e pesquisas na área.
Participou como crítico e também compôs o júri de bienais e grandes exposições de arte na França, Itália e em outros países da Europa.
Antônio Bento é autor de inúmeros artigos, críticas literárias e também lançou os livros “Abstração na Arte dos Índios Brasileiros”, “Sérgio Telles”, “Ismael Nery”, “Manet no Brasil”, “Milton Dacosta”, “Portinari”, “Contos Hiper-Realistas” e “Poesias, Ponteios, Toadas, Cordel” (póstumo).
Além do sobrinho Amaro Lima, dois filhos de Antônio Bento guardam histórias, lembranças e parte da memória do pai: Antônio Bento Filho, que mora em Brasília, e Lúcia de Araújo Lima, residente no Rio de Janeiro.
Antônio Bento morreu em 1988, no Rio de Janeiro, aos 86 anos de idade.