Pedalar reduz sintomas da Doença de Parkinson, revela pesquisa da UFRN
Natal, RN 11 de jun 2026

Pedalar reduz sintomas da Doença de Parkinson, revela pesquisa da UFRN

19 de outubro de 2025
10min
Pedalar reduz sintomas da Doença de Parkinson, revela pesquisa da UFRN
Foto: Reprodução

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O hábito de pedalar, além de melhorar a força muscular, a qualidade do sono e a saúde mental, também pode auxiliar na redução dos sintomas da Doença de Parkinson, que acomete mais de 500 mil pessoas no Brasil, segundo estimativa recente da Academia Brasileira de Neurologia. É o que mostra o estudo “Pedala Parkinson: A bicicleta como suporte terapêutico para a Doença de Parkinson”, realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e instituições do Reino Unido.

O projeto de pesquisa coordenado pelo médico e professor titular da UFRN, John Fontenele Araújo, foi selecionado, em 15 de outubro, para a primeira etapa do Prêmio Bicicleta Brasil, promovido pelo Ministério das Cidades, ao receber o “Selo Bicicleta Brasil”.

Para o professor, a conquista representa o reconhecimento do impacto social da pesquisa, que, em um futuro de médio prazo, poderá ajudar os pacientes a viverem em melhores condições graças a novos tratamentos revolucionários que associam o uso de medicamentos à prática de atividades físicas, como o ciclismo.

“A nossa pesquisa é básica: buscamos entender como o nosso cérebro funciona promovendo diversos experimentos. Neste caso, nossa pesquisa acabou tendo uma aplicação, não só na área de saúde, mas também na área de mobilidade urbana, pois mostramos a importância do ato de pedalar como um suporte terapêutico para pacientes com Parkinson”, explicou o professor.

A pesquisa mapeou, inicialmente, a atividade cerebral de 24 adultos saudáveis enquanto pedalavam em uma bicicleta ergométrica. Os resultados, publicados em um artigo na revista científica Plos One, no início de outubro de 2024, revelaram que a prática de ciclismo reduz a ativação cerebral e mantém os circuitos nervosos do nosso cérebro em um estado mais organizado – uma capacidade frequentemente comprometida por doenças neurológicas como o Parkinson.

“Pedalar é um movimento simétrico das duas pernas. Isso promove uma estimulação sensorial nas pernas que leva à liberação de dopamina no cérebro. Essa liberação da dopamina faz o cérebro ‘relaxar’ e ‘ficar mais organizado’. É exatamente por isso que essa atividade pode beneficiar pacientes com a Doença de Parkinson”, detalhou o coordenador da pesquisa.

Esses efeitos são potencializados quando a pessoa pedala de olhos fechados, porque, segundo elucidou o professor, isso faz com que o cérebro receba menos estímulos visuais, ficando mais facilmente “relaxado” e “organizado”.

“O problema básico da Doença de Parkinson é a deficiência de uma substância química chamada dopamina. O tratamento é feito com remédios que aumentam o nível dessa substância no cérebro dos pacientes. O que demonstramos em diversos experimentos foi que o ato de pedalar também aumenta os níveis de dopamina no cérebro das pessoas, o que explica a redução dos sintomas nos pacientes”, acrescentou o pesquisador.

Cérebro aprende melhor ritmo de pedalar, diz professor

Foto: Reprodução UFRN

O professor observou que há, atualmente, diversos grupos de pesquisa no mundo investigando essa temática do suporte terapêutico da pedalada no tratamento da Doença de Parkinson.

Ele comentou que alguns estudos abordam o “regime de ciclismo adaptativo”, que permite que a bicicleta aprenda o desempenho dos pacientes enquanto eles pedalam.

“Depois, outro estudo mostrou que pedalar mais lento, numa rotação de 40 pedaladas por minutos, também tem efeito, embora mais demorado. Em nosso estudo, fizemos a mesma constatação. Agora entendemos que isso depende do sujeito e que, na verdade, como o cérebro aprende o melhor ritmo de pedalar, há para cada um uma adaptação. Atualmente, estamos estudando isso, inclusive tentando entender como esse processo ocorre”, detalhou.

Inicialmente, segundo o professor, alguns pesquisadores propuseram que seria necessário pedalar muito rápido, em uma rotação de 80 pedaladas por minuto, para conseguir esse efeito.

Pesquisa iniciou etapa com pacientes com Doença de Parkinson

Mayara Jully, da pós-graduação em Psicobiologia da UFRN, com o professor John Fontenele. Foto: Cedida

Depois de monitorar pessoas saudáveis, a pesquisa iniciou a primeira etapa com pacientes com a Doença de Parkinson. Essa fase atual está sendo realizada em colaboração com o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS), unidade que integra o Instituto Santos Dumont (ISD), localizado no município de Macaíba e é vinculado ao Ministério da Educação (MEC).

É lá que a doutoranda do Departamento de Pós-graduação em Psicobiologia da UFRN, Mayara Jully Costa da Silva, está concluindo a tese “Dinâmica Oscilatória Cortical e Marcha ao Pedalar na Doença de Parkinson”, sob a orientação do professor John Fontenele e a co-orientação do professor do ISD, Edgard Morya.

Ela reforçou que a pesquisa investiga os efeitos de pedalar em pessoas com a Doença de Parkinson, focando nas mudanças no córtex cerebral e na melhora do padrão de caminhada dos pacientes.

O estudo analisa as ondas cerebrais antes, durante e após pedalar, correlacionando-as com a redução dos déficits de marcha – alterações no modo como essa pessoa anda, que incluem perda de velocidade, suavidade, simetria ou equilíbrio, considerados os sintomas mais desafiadores do Parkinson.

“A marcha hoje se configura como um sintoma desafiador da doença, responsável pela maioria das ocorrências de quedas em pessoas com a Doença de Parkinson. As terapias existentes ainda não conseguem tratar eficazmente desse sintoma. Então, o objetivo da investigação é entender como pedalar beneficia a marcha e os processos cerebrais envolvidos, buscando uma abordagem mais completa para o tratamento da doença”, explanou Mayara.

Durante a pedalada, atividade cerebral e sintomas se assemelham ao período em que pacientes estão medicados

Touca de Eletroencefalografia (EEG) permite visualizar ondas cerebrais dos participantes enquanto pedalam ou estão em repouso. Foto: Cedida

De acordo com Mayara, o estudo apontou que, em nível motor, durante a prática da pedalada, a experiência em termos de atividade cerebral e manifestações de sintomas assemelha-se ao “momento on” da medicação, que corresponde ao período em que os sintomas da doença estão sob controle.

Isso, segundo ela, acontece em razão da natureza do movimento de pedalar, que, pela ação cíclica das pernas, envia informações que influenciam os padrões de ondas cerebrais.

Essas informações, prossegue a pesquisadora, processam-se em diferentes níveis, incluindo o córtex cerebral. Em indivíduos saudáveis, as ondas cerebrais exibem padrões característicos.

Em pessoas com Parkinson, no entanto, esses padrões se alteram, em particular nas ondas beta, que, em razão disso, são denominadas “ondas beta patológicas”. O estudo indica que o movimento de pedalar parece interromper momentaneamente esses padrões anormais, facilitando o movimento e tornando-o mais fácil. A duração exata desse efeito está sendo investigada.

Ondas cerebrais são visualizadas graças a um software que é integrado à bicicleta. Foto: Cedida

Para visualizar essas ondas cerebrais, segundo Mayara, a pesquisa, a pesquisa desenvolveu o software de análise PKMAS, que é integrado à bicicleta e, através de sensores, traduz os dados em informações exibidas em uma tela.

O participante pode pedalar e, em tempo real, acompanhar a cadência, o que permite aos pesquisadores controlar e analisar o ritmo da pedalada. Além disso, através de uma touca de eletroencefalografia (EEG), é possível visualizar as ondas cerebrais dos participantes enquanto pedalam ou estão em repouso, transformando esses dados em informações quantificáveis, como números e estatísticas, para uma investigação mais detalhada.

Tecnologia exclusiva permite acesso a 54 padrões de marcha

Passarela eletrônica possibilita avaliar 54 parâmetros de marcha de pacientes com Parkinson. Foto: Reprodução Zeno

Além dos dados eletroencefalográficos, que permitem a visualização da atividade cerebral durante o pedalar e caminhar, tanto antes quanto depois da atividade, é possível também obter parâmetros da marcha do paciente.

Mayara diz que isso é feito graças a uma passarela eletrônica chamada de Zeno, uma tecnologia exclusiva do Instituto Santos Dumont, que possibilita a avaliação de até 54 parâmetros da marcha, incluindo tempo de angulação, comprimento da passada e a pressão que o pé exerce na pisada.

O objetivo é investigar esses componentes e correlacioná-los com os dados cerebrais, buscando uma compreensão mais aprofundada e integrada do fenômeno.

O estigma da Doença de Parkinson

A pesquisadora ponderou que, apesar de ser estigmatizada como “doença do movimento”, ela é uma “doença sistêmica”, não “estritamente motora”.

“A Doença de Parkinson altera o sono, pode progredir para demência e depressão dos pacientes e apresenta sintomas gastrointestinais, genitais e de ordem cognitiva”, enfatizou.

Mayara disse que, além da diminuição da sintomatologia da doença, especialmente na melhora do padrão de marcha, o ato de pedalar também impacta positivamente na progressão do Parkinson.

“O Parkinson é uma doença progressiva, em que os sintomas tendem a avançar com o passar do tempo. Então, o exercício físico, especificamente o ciclismo, é um aliado que ajuda a modificar a progressão da doença”, afirmou, ressaltando que esse impacto aumenta na mesma proporção da constância da atividade.

A doutoranda, no entanto, lembrou que ainda não existe nada que “impeça a doença de avançar”, mas que “o modo como os sintomas avançam pode ser diminuído”, melhorando as condições de vida do paciente.

“A doença progride, infelizmente ainda não existe uma cura, mas postergar o surgimento e o avanço desses sintomas significa modificar a progressão da doença. Então, esse é outro impacto positivo [do ato de pedalar], que é modificador do curso da doença”, completou.

Pedalada é aliada das terapias existentes, não substituta, alerta pesquisadora

Foto: Reprodução UFRN

Pedalar, destaca a pesquisadora, não é “uma nova terapia”, mas sim um “novo suporte terapêutico”. Ela define a atividade como uma aliada, não uma substituta, para as terapias já existentes.

“É um aliado que se soma às terapias já existentes em ambiente clínico e ambulatorial, mas que, inclusive, o paciente também pode tranquilamente realizar esse exercício físico em casa, pedalando de bicicleta estacionária, além de poder se estender para ambientes coletivos”.

Para ela, a pesquisa demonstra que as bicicletas podem ser introduzidas como uma nova possibilidade para as políticas públicas de saúde voltadas à reabilitação dos pacientes com a Doença de Parkinson.

Um novo olhar sobre a doença e os pacientes

Ela conta que outra descoberta importante feita durante a pesquisa foi sobre o modo como a doença é enxergada, tanto pelos próprios pacientes como pelos cuidadores e os profissionais de saúde.

“A sociedade em geral não sabe que uma pessoa com a Doença de Parkinson pode pedalar uma bicicleta, que isso é benéfico e que pode ajudar a diminuir os sintomas. Os pacientes, além dos cuidadores, passaram a enxergar de um modo diferente, a ter um novo olhar sobre essa nova possibilidade. Isso transforma o olhar que o paciente tem sobre si mesmo e sobre sua doença, mas também transforma o olhar do cuidador sobre o paciente”, comemora.

A doutoranda acrescenta que, além dessa descoberta, a pesquisa contribui ainda para transformar “a visão estigmatizada sobre a Doença de Parkinson”, associada comumente apenas ao aspecto motor, porque demonstrou “a possibilidade que o paciente tem de realizar movimentos e de fazer exercício físico sem se machucar”.

Ela também aponta que, além de subsidiar a elaboração de novas políticas públicas de saúde voltadas aos pacientes com a doença, outro desdobramento da pesquisa é no âmbito da mobilidade urbana, revendo os espaços públicos no sentido de torná-los mais acessíveis e seguros para a população.

“O objetivo também é democratizar o acesso aos espaços públicos, a partir de um planejamento que priorize a acessibilidade, permitindo que as pessoas desfrutem deles, incluindo atividades como andar de bicicleta”.

Pesquisa com pessoas saudáveis abriu caminhos para estudo com pacientes com Parkinson

Mayara disse que a pesquisa inicial conduzida pelo professor John Fontenele, que investigou a redução do nível de entropia dos sinais elétricos entre as células – provocada pelo ato de pedalar – em indivíduos saudáveis, produziu resultados que foram de grande relevância, abrindo caminho para a exploração de achados semelhantes em pacientes com Parkinson.

Ela fez uma analogia entre um ambiente organizado e outro desorganizado para explicar que, na primeira situação, ao contrário da segunda, “é muito mais fácil se movimentar e encontrar alguma coisa”.

“Aplicando essa analogia ao cérebro, um cérebro mais organizado facilitaria o movimento, enquanto um cérebro desorganizado exigiria maior esforço para realizar as funções cerebrais, impactando o movimento. A redução da entropia, portanto, estaria relacionada a uma melhor organização cerebral, algo que esperamos observar em indivíduos com Doença de Parkinson”.

No que diz respeito à marcha, segundo ela, as expectativas são ainda mais otimistas, porque o ato de pedalar, como dito anteriormente, ajuda a “organizar o cérebro”, demandando dele “menos esforço” para a realização de um movimento complexo como é a caminhada.

Finalizada a coleta de informações com os pacientes, a pesquisa atualmente encontra-se na fase de processamento e análise estatística de dados. A próxima etapa, segundo Mayara, consistirá na interpretação desses dados e na redação dos resultados, incluindo a publicação de artigos científicos.

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