Renúncia e liberdade
Natal, RN 25 de jun 2026

Renúncia e liberdade

25 de outubro de 2025
7min
Renúncia e liberdade
Imagem produzida via IA

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Recentemente, numa viagem de Blá Blá Car, bati um papo no mínimo interessante com o rapaz que conduzia o carro, que para a minha surpresa, já havia sido meu aluno uns aninhos atrás, o que nos deu abertura para essa conversa que durou horas.

Falamos de muitos assuntos: vida profissional e acadêmica, shows – já que eu estava vindo de um fds em que assisti a vários shows no Festival MADA – exploração ambiental, política… um assunto ia se emendando a outro como qualquer boa conversa que flui naturalmente.

Num dado momento, entramos na seara das relações interpessoais e intergeracionais. Citamos exemplos de conflitos entre gerações, apontamos dissidências impossíveis de não acontecerem entre uma geração e outra. Discutimos sobre empregabilidade, sociabilidade, educação – sobretudo acerca do desinteresse de muitos jovens e como isso é preocupante para uma professora que gostaria muito que seus alunos só gostassem de aprender.

Os assuntos entraram no campo das redes sociais e seus perigos; dos aplicativos de namoro; da fetichização de certos corpos; do sexo por amor, por curiosidade, pra não perder a viagem; dos relacionamentos de pessoas com idades diferentes; da dificuldade de relações afetivas em todos os âmbitos com essa geração cada vez mais narcisista, depressiva e isolada em telas, em que os sentimentos não são expressos.

Contei da minha visão sobre os homens 30- (trinta menos) – shape em dia, barba na régua, nenhum conteúdo além de treino e creatina e “corri N quilômetros essa semana” e “o treino foi pesado” …, sexo editado a la X-vídeos, e a preocupação com uma cartilha performática a seguir. 

Falei da minha preocupação com a ideia disseminada, sobretudo em letras de música, de que sexo bom tem que ter tapa na bunda, tapa na cara (performances sexuais em que só a mulher apanha) ou se resume ao quica-quica, bota-bota, soca-soca… E de o outro virar descarte após uma transa, do ghosting e da indiferença, e da falta de sentimentos envolvidos – “Não é permitido gente emocionada nesses tempos.”

E foi aí que chegamos no AMOR, no casamento e na (não) monogamia.

“Não vejo o amor como essa coisa romântica”, disse o motorista. “Tudo o que o amor traz é renúncia. Talvez as pessoas se casem com essa ideia do amor romântico no começo. Ninguém tem ideia do quanto é difícil renunciar coisas por conta do casamento.”

“É por isso que sou não-monogâmica”, interrompi. “Já fui casada e hoje não aceitaria renunciar minha liberdade por nada nem por ninguém. E questiono a monogamia porque na maioria das vezes as mulheres são capazes de renunciar, mas dificilmente um homem faz renúncias e quando abre mão de alguma coisa, o que se planta em seu coração é rancor. E muitos homens terminam usando isso como desculpa para as traições, para acumular suas infelicidades, culpabilizando a mulher por não ter feito ele feliz como o amor romântico vendeu.”

“Não gosto também da ideia de que no casamento uma pessoa vira propriedade da outra. A ideia de ter, coisifica a pessoa, objetifica-a, desumaniza-a, porque agora ela me pertence e eu faço dela o que for melhor para mim: deixo ir, deixo ficar, imponho condições, regro horários, comportamentos, contatos, amizades, tempo de permanência nos lugares, tolho o direito de ir e vir, de como se veste, de como rir, de como se maquia, com quem pode ou não conversar, de para onde pode e para onde não pode ir, que religião deve seguir, o que pode e o que não pode fazer…”

Concordei com o motorista sobre o prisma do amor enquanto renúncia, apesar de não achar que isso seja justo com ninguém. Mas tenho outra visão sobre o amor, aprendi a ter. Talvez por já ter sido feita de objeto, por ter renunciado muita coisa na minha vida por conta de outra pessoa. Talvez por ter feito outra pessoa se anular e renunciar para caber no meu mundo… prefiro entender que amor de verdade não é romântico, nem é aquele que te condena às renúncias, mas sim o que nos liberta. Uma vez escrevi isso, que a melhor forma de prender uma pessoa é deixá-la livre e hoje acredito piamente nisso.

Amor, pra mim, é bicho arisco, não aceita coleira, não obedece cerca, e se tentar colocar numa gaiola, morre sufocado. Amor que é amor não tem a ver com contrato, e muito menos com cartório. É um movimento de escolha, não de posse. Quando o amor precisa ser carimbado, jurado em altar ou documentado em foto com legenda “meu tudo”, ele já começou a morrer. É como se as pessoas estivessem registrando um contrato de posse. Assusto-me, porque o amor verdadeiro não pede comprovação; ele se mostra no cotidiano, nos gestos que libertam e não nos que controlam.

A monogamia, nesse sentido, parece-me um acordo mais de medo do que de amor. Medo da solidão, medo do julgamento social, medo de não ser suficiente. Acredito que por isso me tornei não-monogâmica. A sociedade criou o casamento como uma espécie de contrato de sobrevivência emocional e econômica e a gente, muitas vezes, assina esse contrato sem ler as letras miúdas.

Lá está escrito: “abrir mão de partes suas para caber no outro”, “manter-se dentro do esperado para não causar escândalo”, “engolir a insatisfação porque é assim mesmo”, “descobrir coisas que nunca foram minimamente reveladas a você”. A monogamia, para muitos, virou esse disfarce da renúncia que o motorista dizia: uma renúncia fantasiada de virtude. Afinal, você faz tudo isso em nome do amor, não é!?

Mas o amor que liberta não combina com esse formato. Ele não precisa que o outro renuncie a si para provar nada. Ele não mede exclusividade por ausência de desejo, nem fidelidade por clausura. O amor livre não é promíscuo, como se pensa, ele é responsável. É aquele que reconhece que o outro é universo próprio, e que amar é visitar esse universo sem querer colonizá-lo. É estar junto porque faz sentido não porque é o que se espera. Não tem script, é visceral e orgânico.

No fundo, acredito que a monogamia sobrevive mais pela tradição do que pela emoção. É uma instituição que protege um tipo de ordem social – a herança, o sobrenome, o “modelo de família” – muito mais do que protege o amor. O amor mesmo, quando verdadeiro, não precisa de testemunhas. Ele se sustenta no encontro e no respeito mútuo. E quando deixa de fazer sentido, é o amor quem deve ter a coragem de se despedir, não o contrato.

Talvez o grande desafio dos nossos tempos seja reaprender a sentir, voltar a nos emocionar com os afetos, deixar que as relações fluam sem tantas barreiras e imposições e scripts, e roteiros, permitir que ele seja livre, e a amar sem o peso da posse. Amar sem projetar, sem aprisionar, sem esperar que o outro cure o que é nosso. Amar de um jeito que a liberdade do outro também nos faça felizes, porque, no fim das contas, o único amor que vale a pena é aquele que, em vez de nos prender, nos ensina a voar.

Não sei se o motorista concordou comigo, mas pelo silêncio que se fez, alguma mudança se operava ali.

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