Silenciada sem explicação: como as Big Techs ameaçam o jornalismo independente no Nordeste
Natal, RN 24 de jun 2026

Silenciada sem explicação: como as Big Techs ameaçam o jornalismo independente no Nordeste

24 de junho de 2026
7min
Silenciada sem explicação: como as Big Techs ameaçam o jornalismo independente no Nordeste

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A exclusão repentina da conta da Rede Cajueira no Instagram não atingiu apenas um perfil com milhares de seguidores. Para as jornalistas que constroem há cinco anos uma das mais importantes iniciativas de fortalecimento do jornalismo independente nordestino, a decisão representa algo maior, a demonstração concreta do poder quase absoluto que as plataformas digitais exercem sobre a circulação de informação no século XXI.

Sem aviso prévio, sem justificativa detalhada e sem direito efetivo de defesa, a conta da Cajueira foi retirada do ar. O episódio levanta questionamentos sobre transparência, liberdade de expressão, concentração de poder nas Big Techs e a crescente dependência do jornalismo em relação a plataformas privadas que operam segundo regras pouco claras.

Criada por jornalistas nordestinas, a Rede Cajueira nasceu como uma newsletter gratuita e se transformou em uma rede de circulação de conteúdos, análises e iniciativas produzidas por veículos comprometidos com o jornalismo independente na região. Hoje, reúne quase oito mil assinantes, produz podcasts, mantém um portal próprio e desenvolveu o primeiro banco de fontes nordestinas do país.

Ainda assim, uma parcela significativa do público chegava aos seus conteúdos por meio do Instagram.

Foi justamente essa ponte que desapareceu de um dia para o outro.

“Nós fomos informadas de que a conta seria excluída por suposta violação das regras da plataforma, mas nunca nos disseram quais regras teríamos violado“, relata a jornalista Mariama Correia, cofundadora da Rede Cajueira.

Segundo ela, a equipe tentou recorrer por diferentes canais oferecidos pela plataforma, sem sucesso.

O Instagram sinalizou que a conta seria excluída, mas nunca explicou exatamente o motivo. Tentamos recorrer tanto pelos mecanismos da própria plataforma quanto por outras vias, mas até agora não recebemos nenhuma explicação. Foi uma surpresa enorme porque nosso conteúdo trata de jornalismo e da valorização das identidades nordestinas. Nunca publicamos conteúdo sensível que pudesse justificar esse bloqueio.”

A ausência de respostas é um dos aspectos mais preocupantes do caso. Em um ambiente digital cada vez mais central para a comunicação pública, decisões tomadas por sistemas automatizados ou por estruturas corporativas inacessíveis podem determinar quem fala, quem alcança audiência e quem desaparece do debate público.

Para Mariama, o impacto da medida é imediato e profundo.

Você está silenciando uma iniciativa que trabalha pela valorização do jornalismo independente nordestino. E a gente sabe o quanto isso é importante em um país onde a mídia continua extremamente concentrada no eixo São Paulo-Rio-Brasília.

Ela destaca que a Cajueira é mantida de forma voluntária, sem financiamento governamental, empresarial ou institucional.

Somos um grupo de jornalistas nordestinas que trabalha de forma independente. Construímos uma comunidade ao longo de cinco anos. Havia um público que nos acompanhava exclusivamente pelo Instagram. Essas pessoas não necessariamente assinavam nossa newsletter ou ouviam nossos podcasts. Elas consumiam o conteúdo por ali.”

A exclusão da conta interrompe justamente esse fluxo de comunicação.

Estávamos ampliando nosso alcance, realizando colaborações com várias iniciativas nordestinas, fortalecendo o debate sobre identidade regional e combatendo preconceitos históricos. Para uma organização de pequeno porte como a nossa, as perdas são incalculáveis.

Dependência digital e vulnerabilidade

O caso da Cajueira evidencia uma contradição que atravessa o jornalismo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que as redes sociais se tornaram ferramentas indispensáveis para alcançar audiências, elas também criaram uma dependência estrutural.

Veículos independentes, coletivos de comunicação e projetos jornalísticos de pequeno porte frequentemente não possuem recursos para investir em distribuição própria de conteúdo. As plataformas digitais acabam funcionando como praças públicas privatizadas: espaços onde o debate acontece, mas cujas regras são definidas unilateralmente por empresas multinacionais.

Quando uma conta desaparece, desaparece também parte da audiência construída ao longo de anos.

O problema se torna ainda mais grave para iniciativas localizadas fora dos grandes centros econômicos e políticos do país.

Num cenário marcado pela concentração histórica da mídia brasileira, projetos como a Cajueira cumprem o papel de ampliar vozes, narrativas e perspectivas frequentemente invisibilizadas pelos grandes conglomerados de comunicação.

Por isso, Mariama rejeita a ideia de que o episódio seja um incidente isolado.

Infelizmente, nosso caso não é único. Outros projetos independentes passaram recentemente pela mesma situação.”

Ela cita como exemplos o Pedreirense, do Maranhão, e o Tapajós de Fato, da Amazônia.

Todos são projetos independentes que têm a diversidade regional como uma de suas bandeiras. Não vejo isso apenas como um erro técnico. Estamos falando de censura.”

A palavra é forte, mas reflete uma preocupação crescente entre pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil que acompanham a atuação das plataformas digitais.

Embora as empresas aleguem combater desinformação, discurso de ódio e conteúdos nocivos, os mecanismos utilizados para moderação permanecem amplamente opacos.

Na prática, usuários e organizações frequentemente recebem notificações genéricas, sem acesso às razões específicas da punição ou aos critérios utilizados para determinar a remoção de conteúdos ou perfis.

O poder sem contrapoder

A discussão vai além da exclusão de uma conta. O que está em jogo é a capacidade das plataformas de exercerem controle sobre o fluxo informacional sem mecanismos equivalentes de responsabilização pública.

Acredito que as plataformas se valem do poder que detêm. É um poder desproporcional, porque elas podem fazer o que querem sem sequer oferecer uma explicação“, afirma Mariama.

A crítica toca em um dos principais debates contemporâneos sobre democracia digital. Nas últimas duas décadas, empresas de tecnologia assumiram um papel central na mediação da vida pública. Elas determinam o que ganha visibilidade, o que é ocultado pelos algoritmos e, em casos extremos, quem pode continuar existindo digitalmente.

Ao mesmo tempo, essas corporações não estão submetidas aos mesmos mecanismos de transparência exigidos de instituições públicas.

Para iniciativas jornalísticas independentes, o desequilíbrio é ainda maior.

Estamos nas mãos das Big Techs. Elas operam numa lógica de captura da atenção e lucram em cima do trabalho não remunerado de milhares de comunicadores“, diz a jornalista.

Diante desse cenário, ela defende que o debate ultrapasse a recuperação da conta da Cajueira.

A gente precisa encontrar formas de responsabilizar as plataformas e também construir novos caminhos para distribuir conteúdo sem depender exclusivamente dos algoritmos.

Um alerta para além da Cajueira

A retirada da Rede Cajueira do Instagram ocorre em um momento de crescente tensão entre plataformas digitais, veículos jornalísticos e organizações da sociedade civil em diferentes partes do mundo.

Mais do que um problema operacional, o episódio expõe a fragilidade de projetos que dependem de infraestruturas privadas para existir publicamente.

Quando uma Big Tech pode retirar do ar, sem explicação transparente, uma iniciativa jornalística construída ao longo de cinco anos, o debate deixa de ser apenas sobre tecnologia. Passa a ser sobre democracia.

Porque, em um país marcado por profundas desigualdades regionais e pela histórica concentração dos meios de comunicação, silenciar vozes independentes do Nordeste significa reduzir a diversidade informativa disponível para toda a sociedade brasileira.

E quando isso acontece sem justificativa, sem contraditório e sem transparência, a pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu com a Cajueira.

A pergunta passa a ser quem será o próximo.

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