Respeitem a TVU
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Respeitem a TVU

9 de junho de 2018
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Acredito que era um jogo da Série C  do Campeonato Brasileiro, o ABC  entrava em campo contra um time do Pará, o qual a minha péssima memória e minha falta de afinidade com futebol não me permitem lembrar o nome. Era um jogo importante, uma vitória deixava o ABC a um passo de voltar para a segunda divisão.

Era um desses jogos que a televisão anuncia em jornal, donos de bares reforçam seus estoques e torcedores saem  de suas casas para acompanhar a transmissão. Estava na equipe da Televisão Universitária que produzia o TVU Esporte, programa que entrou no ar antes da partida.  Em Marabá,  o juiz apitava o início do jogo, mas em Natal ninguém viu. Falhas na recepção do sinal de satélite inviabilizaram a transmissão, que era exclusiva da TVU.  Difícil foi explicar isso para um grupo furioso de torcedores que chegou na porta da TV.  Nem quero imaginar a boa vontade dos torcedores que passaram 90 minutos esperando um jogo que nunca foi exibido.  O fiasco que no momento foi motivo de tensão, virou uma dessas histórias que espalho com humor ao lembrar das experiências no meu tempo como bolsista na emissora.

As dificuldades estruturais e a falta de recursos sempre foram uma constante para quem atua nos veículos universitários, mas existe um elemento sedutor naquele espaço de trabalho, algo que faz com que se defenda ele com unhas e dentes. Talvez seja o que chamam de pertencimento. Pertencer a um lugar que produz rádio e televisão um pouquinho mais longe das pressões que enlatam os conteúdos na mídia comercial, dando uma condição ímpar para quem atua neles: o experimento.

Manifestação Respeitem a TVU (Foto: Sintest/RN)

Claro que as contenções pragmáticas da falta de dinheiro impediam a viabilidade de algumas vontades, mas as ideias e a discussão delas nunca eram vetadas. Havia liberdade para, um aluno de segundo período, sugerir, discutir e produzir televisão. O resultado era, muitas vezes, amador, até porque também éramos. Contudo, isso não significava um veto expresso quando algo não ia muito bem, lá dava tempo de insistir. Um tempo necessário para se aprender.

Foi na TVU  minha primeira experiência  em um ambiente de trabalho de comunicação, e acho foi o melhor lugar possível para aprender. Nas brechas da falta de recursos, recebi a orientação de bons profissionais que apresentavam uma outra construção da notícia e , mesmo engessado no formato televisivo padrão, onde falávamos para poucos, conseguíamos ir falando coisas que nenhum outro lugar falava.

E quando tentavam proibir ou deixar de veicular algo, também não deixávamos por menos:  era  boca no trombone.  Não foram poucas campanhas e denúncias pedindo a democratização dos veículos universitários, com gestão tão travada pela burocracia acadêmica e tão renegada por essa mesma burocracia.

Assim, vejo com muita positividade o movimento dos bolsistas que agora realizam uma greve, justamente, para cobrar melhorias na transmissão e nas condições de trabalho na emissora. É assim mesmo.  É preciso lembrar sempre que os veículos públicos são do povo, não de seus gestores. Expor os problemas e lutar por melhorias é uma das formas de defender o que é nosso.

Perdi a conta dos colegas de profissão que também tiveram a possiblidade de aprender na TVU e na FMU, boa parte do mercado potiguar de comunicação passou por ali e, creio, sente algo parecido sobre as notícias que chegam sobre a atual situação dos veículos universitários. Apesar de anos longe de suas redações e estúdios, tudo ali ainda é um pouco nosso também.

A Televisão Universitária segue comprimida pelo tempo e pela evolução da tecnologia, não por falta de capacidade técnica e humana para resolver suas questões, sim por erros de quem ainda insiste em  tratar a comunicação pública como um ativo das decisões individuais.

Uma das nossas principais reivindicações, no meu tempo de estudante,  era para que a Superintendência de Comunicação abrisse a gestão dos veículos universitários construindo um conselho deliberativo de conteúdo e gestão. Chamando movimentos sociais, entidades políticas e sociedade civil para construir uma comunicação representativa e mais diversa, para além do diálogo com a comunidade acadêmica.

Fizemos eventos na universidade, audiências públicas para debater programação, campanhas nas redes sociais. Infelizmente, faltou grandeza para a gestão entender que essas não eram ideias construídas contra indivíduos, mas sim uma forma de ampliar a voz dos donos dessa comunicação, o povo potiguar.  Hoje, se não por movimentos públicos de denúncia, ninguém consegue saber o que de fato acontece dentro da TVU e FMU, o oposto do que deveria acontecer em veículos públicos desse porte e importância.

Todo apoio aos trabalhadores e bolsistas da TVU em suas reivindicações, façam barulho. Silêncio nunca foi aliado da comunicação pública!

*Depoimento feito a pedido do movimento Respeitem a TVU que cobra o restabelecimento, com qualidade, do sinal digital da emissora e melhores condições de trabalho. Conheça o movimento e suas reivindicações clicando aqui! 

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