A guerra ao terror 20 anos depois
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A guerra ao terror 20 anos depois

12 de setembro de 2021
A guerra ao terror 20 anos depois

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O dia 11 de setembro de 2001 começou com uma manhã comum, até a hora do ataque provocado por dois aviões ao World Trade Center (Torres Gêmeas), no coração financeiro de Nova Iorque e ao Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA. O ato criminoso vitimou pelo menos três mil pessoas.

Desde então a pergunta “o que você estava fazendo no dia 11 de setembro?” tornou-se um clichê. Naquela terça-feira eu escrevia o meu trabalho de conclusão de curso em História quando vi as imagens pela TV aberta. Acompanhei o evento até à noite, enquanto estudava para a seleção de Mestrado em Antropologia.

Vinte anos depois, atualmente professora de Direito Internacional, agora entendo como a literatura de Eric Hobsbawm (1917-2012) me ajudou a compreender estas últimas duas décadas. Hobsbawm foi um historiador longevo e ativo, tanto que aos 85 anos proferia suas palestras críticas ao então governo de George W. Bush, quando testemunhou a ascensão da Guerra ao Terror.

O livro “Globalização, democracia e terrorismo”, publicado no Brasil em 2007, foi uma das obras mais populares de Hobsbawm junto ao público. Ali estão reunidas dez palestras e conferências ocorridas entre 2000 a 2006. É nele que o historiador já demonstra a sua total descrença sobre o futuro da Guerra ao Terror, devido ao empreendimento de atos de violência desproporcionais, empregadas para vingar a população estadunidense em nome dos valores ocidentais.

A partir de “Globalização, democracia e terrorismo” Hobsbawm passou a dedicar a sua última década de vida à análise das questões relativas à guerra e à paz no século 21. Ele publicaria suas análises posteriores sobre os impérios globais, a renovação dos movimentos nacionalistas, as falhas da democracia liberal, o aumento da violência política, do terrorismo internacional e o temor da destruição do planeta.

No direito internacional é lícito que um Estado busque revidar imediatamente a uma agressão cometida, dentro de seu território, por outro Estado (chama-se “retorsão”). Porém, a resposta deve ser proporcional ao ato cometido. O problema é que, para Eric Hobsbawm, esse revide por parte dos EUA foi desmesurado e seus resultados criaram novos problemas, ainda sem resolução.

Este processo começou logo após o ataque às Torres Gêmeas, precisamente no dia 26 de outubro de 2001, quando foi aprovado o USA Patriotic Act que deflagrou a política internacional antiterrorismo. Em lugar de uma solução localizada, optou-se pela imposição de força desmesurada: o maior erro empreendido pela maior potência ocidental naquela região.

A primeira destas ações violentas foi a invasão do Afeganistão, ainda em setembro de 2001. Isto aconteceu porque os ataques foram assumidos pela rede Al-Quaeda, um grupo de ações terroristas situado na Ásia Central. A Al-Quaeda já tinha havia sido declarada como inimiga pelos EUA há alguns anos antes.

A partir dali colocou-se em prática a perseguição aos países inimigos públicos dos EUA, a fim de justificar o uso do terror de Estado através de técnicas militares. Um dos exemplos disso é a fundação da Prisão de Guantánamo, em 2002, para abrigar a vinte presos provisórios dessas diferentes nacionalidades.

Um destes países inimigos era o Iraque. Por isso, em 2003 utilizou-se uma falsa narrativa para a invasão do país, muito semelhante às atuais fake news. Os EUA produziram relatórios onde informavam a produção iraquiana de armas químicas. O resultado desta ação foi político: a entrega do então presidente Saddam Hussein (1937-2006), ex-aliado dos EUA, aos seus inimigos. Hussein foi executado sem que houvesse um julgamento adequado.

Por outro lado, os EUA passaram a sofrer retaliações internacionais devido aos excessos. As primeiras provas dos crimes de tortura, estupro, abuso sexual e morte cometidos pelos oficiais estadunidenses no Iraque surgiram em 2004, na Prisão de Abu Ghraib. O julgamento dos acusados terminou em 2014. Sobre isto, Hobsbawm insiste no argumento de que o inimigo é sempre o alvo de desumanização por não compartilhar dos mesmos valores ocidentais.

Os efeitos do USA Patriotic Act decaíram em 2015. Logo em seguida o mundo ficou estarrecido, quando os EUA assumiram publicamente que não havia armas químicas no Iraque. Por volta da mesma época também se negociava a retirada das forças estadunidenses do Afeganistão, finalmente retomado em agosto de 2021 pelo grupo fundamentalista islâmico Talibã. Com base nos ensinamentos de Eric Hobsbawm, considero estes dois momentos como pontos críticos para os EUA, desde a tentativa de reafirmação da hegemonia unilateral sobre o mundo vinte anos antes.

Hoje sabemos que, em grande medida, os EUA usaram o argumento da Guerra ao Terror como um modo de reaquecer o mercado bélico, paralisado desde o fim da Guerra Fria (1945-1992). Apesar de cantar a vitória no final, muitos especialistas (internacionalistas) não se convenceram de que o país ganhou a guerra. O certo é que hoje o cenário é bem mais difícil para a população do Iraque e do Afeganistão devido à migração forçada (globalização social), um problema político causado pelas potências ocidentais.

Eric Hobsbawm também nos ensina que, ainda que os inimigos declarados dos EUA também sejam inimigos dos valores ocidentais, isso não os redime em nada do cometimento de seus crimes em nome da democracia.

Gilmara Benevides é doutora em Direito, pesquisadora sobre Direitos Culturais e interessada em divulgação científica.

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