CIDADANIA

Biodiversidade e banho em Ponta Negra devem sofrer impacto após engorda da praia

A engorda da praia de Ponta Negra pretende aumentar a faixa de areia sem contato direto com o mar. O mesmo procedimento está sendo feito em João Pessoa, Fortaleza e já foi concluído em Florianópolis e Balneário Camboriú, onde recentemente se registrou aumento do número de tubarões. Os cientistas não descartam que o mesmo ocorra em Natal. Na opinião do professor do departamento de Botânica e Zoologia da UFRN, Fulvio Freire, a medida é necessária para a manutenção do turismo nesses lugares, mas a biodiversidade e, consequentemente, o banho sofrem impacto.

O especialista foi convidado a falar sobre o tema no Programa Balbúrdia desta sexta-feira (29) e explicou que quando se transfere um volume de areia de uma região para outra também são levados os organismos vivos dali, alterando em maior ou menor grau o ambiente marinho.

“Existem grupos de organismos que vivem dentro desse sedimento, existem os que vivem na superfície. Vai ocorrer uma biomassa muito grande desses pequenos organismos. Na areia, mais lamosa ou com característica de praia, existem moluscos, ostras pequenas, vermes, crustáceos e outros. Predadores, consumidores primários e secundários e assim vai aos peixes maiores são atraídos”, detalhou.

De acordo com o projeto, o trabalho será feito a partir da retirada de um banco de areia do fundo do mar situado em Areia Preta, com tamanho, densidade e granulometria semelhantes ao material original da praia. A intervenção pretende deixar a faixa de areia em 100 metros quando a maré estiver seca e de 30 metros a 50 metros quando estiver cheia. O total de investimentos é de R$ 75,1 milhões. De acordo com o professor, 1,3 milhão de metros cúbicos de areia serão transferidos.

No dia 16 de novembro será aberto o processo de licitação. O alargamento da faixa de areia de Ponta Negra contempla quatro quilômetros de extensão entre o Morro do Careca e o hotel Serhs, na Via Costeira.

“Esse aterramento vai ser de até 100 metros. Todos os organismos que vivem no substrato [de Ponta Negra] vai acabar morrendo. Aqueles animais vão ser soterrados. Teoricamente, esse é um dos maiores impactos negativos. Existem outras alternativas, mas dependem muito de vários fatores”, explicou Fúlvio Freire, ao ressaltar que esse procedimento é muito conhecido e já foi feito nas décadas de 60 e 70, em lugares como Copacabana e Aterro do Flamengo.

Segundo ele, interferências como enrocamento, quebra-mar, espigões e diques, mais comuns em outros países, também modificam a dinâmica de sedimentação.

Fúlvio alerta que não dá para achar que o que aconteceu em Camboriú se repetirá no RN de forma simétrica, já que são ambientes muito diferentes. “A biodiversidade será impactado; quanto, só dá pra saber com monitoramento”, disse, ao alertar que Natal tem pouca estrutura para esse tipo de acompanhamento, não só no mar, mas citou também o semiárido, que também precisa de atenção.

Veja a entrevista completa no Programa Balbúrdia:

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais