O cenário da pandemia no RN em janeiro de 2022
Natal, RN 26 de mai 2024

O cenário da pandemia no RN em janeiro de 2022

24 de janeiro de 2022
9min
O cenário da pandemia no RN em janeiro de 2022

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As solicitações de internamento são o melhor indicador disponível no RN para a pandemia. Por ele podemos estimar os casos novos, antecipar os óbitos e antecipar a capacidade de oferta do sistema hospitalar.

O Rio Grande do Norte se habituou até o fim do ano passado a um cenário de declínio dos casos de Covid que ocorreu até a primeira metade de dezembro, momento a partir do qual se estabilizou para voltar a crescer de forma explosiva a partir da segunda semana de janeiro de 2022.

Em 30 de novembro de 2021 a média móvel dos casos confirmados de Covid se situava em 7,8 solicitações de internamentos por dia. Ela flutuou no período, alcançando o piso de 5,14 solicitações/dia em 30 de dezembro e voltou ao patamar de 7,42 em em 11 de janeiro de 2022. No mesmo período os casos de gripe, que lotaram a nossa rede de saúde, evoluíram de 12,6 para 25,8 solicitações de internamento por dia.

Desde então os números passaram a se inverter e no dia 17 de janeiro já havia mais solicitações de internamento por Covid-19 do que por gripe. Enquanto as solicitações de internamento por gripe vêm evoluindo de forma declinante, as solicitações de internamento por Covid foram multiplicadas por seis em relação à muito recente semana do dia 11 de janeiro quando ainda estávamos, para os casos confirmados de Covid, no patamar de 7,42 solicitações de internamento por dia, alcançando 45,28 solicitações por dia.

No presente momento os pacientes Covid estão tendo que dividir os leitos que no ano passado puderam praticamente ser destinados apenas à Covid com a gripe, o que produz uma redução mais rápida da disponibilidade desses leitos e uma menor capacidade de internamentos.

Os últimos números dão conta, portanto, de uma média móvel de 45,28 solicitações de internamento por dia de casos confirmados de Covid-19 contra 14,00 de gripe e resultam numa pressão de internamentos de 59 solicitações de leito por dia para a Síndrome Respiratória Aguda Grave, que regrupa os casos graves de Covid e de gripe e pode ser consultado no Regula RN.

Fila de pacientes e leitos disponíveis

Nesse período, a disponibilidade de leitos hospitalares caiu vertiginosamente no que toca aos leitos críticos de 104 para 33 hoje. Vale ressaltar que dentre esses 33 leitos há aqueles que são muito específicos como os obstétricos, que devem ser reservados para as parturientes porventura portadoras de covid e os pediátricos, que não absorverão uma demanda clínica concentrada entre adultos e idosos.

Concretamente isso significa que essa disponibilidade de leitos não significa obrigatoriamente capacidade de internar, sendo essa a razão pela qual a fila de doentes à espera do internamento convive lado a lado com a disponibilidade de leitos que são muito específicos. Noutras vezes pacientes e leitos estão em regiões diferentes, dificultando a hospitalização. Isso significa que por maior que seja a fila a disponibilidade de leitos nunca será zero e o percentual de ocupação nunca será de 100%. Isso significa que a fila de pacientes é um indicador mais fiel da pandemia do que a taxa de ocupação de leitos

Noutras palavras, o sistema hoje tem uma baixíssima capacidade de internar doentes, seja de gripe, seja de Covid-19 e deve, com máxima urgência, ampliar a oferta de leitos, o que parece estar em andamento por iniciativa do Poder Público.

 Tendências

Se o Brasil seguir o padrão europeu ou americano para a variante Ômicron estaríamos hoje no início da grande onda.

A França com cerca de 70 milhões de habitantes, um terço da população do Brasil, e níveis de vacinação superiores ao nosso, vem tendo dias seguidos com um número de casos novos variando entre trezentos e quatrocentos mil doentes.

Se vier a ser proporcional, portanto, o Brasil com seus 210 milhões de habitantes, poderia ter três vezes mais casos do que a França, o que resultaria em 1.200.000 casos novos de Covid-19 por dia. Mantidas as proporções em relação à população do RN onde vivem 1,5% dos brasileiros, isso poderia significar a inimaginável cifra de 18.000 casos novos/dia originados do nosso estado.

Do ponto de vista dos leitos de UTI ocupados hoje na França para o tratamento da Covid, o país conta cerca de 56 pacientes críticos internados por milhão de habitantes. Transpostos para o RN esse número representaria cerca de 200 leitos de terapia intensiva, número próximo ao que tivemos no pico da oferta de leitos.

Obviamente, não se trata de catastrofismo, mas apenas da projeção matemática do caso francês, bem real e palpável, para o nosso, fato que pode não se repetir no Brasil, mas perante o qual não podemos fechar os olhos.

Da mesma forma não podemos antecipar a pressão desse imenso contingente hipotético de casos novos sobre os hospitais, mas trata-se de uma realidade a acompanhar de forma muito rigorosa dados os riscos envolvidos.

O Poder Público e nós todos devemos ter em mente o pior cenário, não para nos amedrontar, mas para evitá-lo em tempo oportuno.

Faixa etária dos internamentos

A faixa etária dos internamentos vêm evoluindo novamente em prejuízo dos mais idosos que passaram de 47% do total no mês passado para 67% hoje. No plano quantitativo, havia 26 idosos internados em 01 de janeiro contra 70 hoje, quase três vezes mais.

Essa distribuição oferece a oportunidade de uma abordagem focada na terceira idade, tanto no que toca à prevenção, quanto no que toca à eventual antecipação da terceira dose de reforço da vacina, prática que vem sendo reconhecida como extremamente eficaz no sentido de coibir internamentos.

Uma maneira de reduzir a pressão na porta dos hospitais é acentuar a proteção dos idosos e estudar com toda urgência a antecipação da terceira dose da vacina para essa faixa etária. Ambas as iniciativas, em sendo aprovadas pelas autoridades sanitárias, devem ser alvo de uma campanha de comunicação maciça e inadiável.

A dinâmica da pandemia

Atualmente temos um grande contingente de pessoas vacinadas para quem, virtualmente, a Covid-19 se tornou uma preocupação menor. Esse grupo acredita, e com razão, na eficácia das vacinas em evitar as formas graves de Covid e passou a ter um comportamento flexível e leve em relação aos cuidados de prevenção da doença. São pessoas que têm acompanhado a evolução da variante Ômicron através dos incontáveis casos leves de que têm notícia nos seus círculos de amizade ou familiares...

Esse comportamento, mesmo sendo um mal negócio e matematicamente um risco, não tem mais no plano pessoal do vacinado, sobretudo sendo jovem, o mesmo grau de risco que existia antes das vacinas, já que, efetivamente, na imensa maioria dos casos a vacinação evita as formas graves da doença.

Dessa forma, esse contingente que decidiu (ou se deixou levar) por ter menos cuidados está adoecendo (sem gravidade) aos milhares em todo o mundo e também aqui. O problema é que a maioria dos países e o nosso está incluído, não têm cobertura vacinal suficiente para que essa atitude seja possível no plano universal da sociedade, pois há ainda uma minoria expressiva de não vacinados e de vulneráveis à Covid-19 que se adoecer vai ter a doença no padrão clássico.

Quem são esses vulneráveis? Pacientes com problemas imunes; pacientes transplantados, que têm que fazer uso de imunossupressores; pacientes em tratamento contra o câncer, que podem ter a sua resposta imune diminuída; pacientes com doenças inflamatórias crônicas, que devem fazer uso de corticóides; pacientes não vacinados, sobretudo idosos e idosos que não receberam a terceira dose de vacina.

Trata-se de uma minoria expressiva e numerosa que se vier adoecer de forma relativamente sincronizada pode, novamente, e é o que parece estar ocorrendo, exceder a oferta de leitos hospitalares.

É obrigatório por isso que os vacinados e os não vacinados mantenham rigorosamente os cuidados contra a Covid-19 sob pena de estarem sendo veículo de uma doença potencialmente mortal para os parentes e amigos com quem convivem que, presentemente, podem não ter onde se internar.

Por que a variante Ômicron se transmite mais?

Um recente artigo publicado na Revista Nature em 19 de janeiro intitulado “Como a Ômicron se propaga tão rápido?” traz a informação de que a capacidade de difusão dessa variante se deve à sua capacidade de escapar das defesas produzidas até aqui tanto pelas vacinas quanto pela própria doença produzida por outras cepas.

A má notícia disso é que, como todas as variantes futuras advirão da variante Ômicron, a chance de escape das defesas poderá ser crescente, o que poderia adiar o fim da pandemia e exigir novas vacinas específicas, com todo o trabalho e sacrifício que podemos imaginar.

A boa notícia é que as medidas preventivas bem conhecidas e utilizadas até aqui contra a Covid continuam funcionando e muito bem para a variante Ômicron.

A guisa de conclusão podemos dizer que (a) os hospitais estão excedidos por uma tsunami de casos que obriga o Poder Público a ampliar a oferta de leitos com máxima urgência; (b) os idosos são a faixa etária mais atingida, o que pode tornar imperativo o estudo da antecipação da terceira dose para essa faixa etária e um cuidado redobrado para que se previnam da Covid; (c) a variante Ômicron se transmite principalmente por escape imunológico e essa variante continua respondendo muito bem às conhecidas medidas preventivas contra a Covid que devem continuar sendo seguidas por todos.

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