DEMOCRACIA

De pé no chão: Livro que retrata o maior projeto de educação popular de Natal é reeditado após 40 anos e autor renova esperança na utopia

O cientista social e professor aposentado da UFRN Willington Germano olha para o espelho e revê após 40 anos o estudante que, a duras penas, contou em detalhes a histórica campanha “De pé no chão se aprende a ler”, maior projeto de alfabetização e educação popular de que se tem notícia em Natal. No chão de terra batida, sob o teto coberto de palha, centenas de crianças e adultos foram alfabetizados, entre 1961 e 1963, na periferia da capital, a partir de uma metodologia inovadora. As mudanças alcançaram ainda a estrutura física das escolas, além da programação de aulas e atividades.

Vinte anos depois da experiência criada pelo então prefeito Djalma Maranhão com o apoio do secretário municipal de Educação Moacyr de Goes, o estudante Willington Germano se debruçou, durante o Mestrado, sobre o que, para muitos estudiosos, parecia uma revolução silenciosa na cidade. O livro “Lendo e Aprendendo: a Campanha de Pé no Chão”, lançado em 1981, foi o primeiro trabalho acadêmico sobre a experiência.

Revisitando o passado, o professor lembra das dificuldades de obter informações sobre o projeto:

– Não tinha computador, celular, as xerox eram raras e o pior: ainda havia repressão. As pessoas tinham medo de falar sobre o projeto. Muita gente havia enterrado fotografias, filmes, documentos. Pesquisei muito nos jornais, como no Diário de Natal, no arquivo da Arquidiocese, no Arquivo do Instituto Histórico Geográfico, e alguns daqueles documentos precisei copiar à mão. Alguns eu recebi do próprio Moacir de Goes, que conheci durante a pesquisa”.

O estudante Willington Germano, na época da graduação de Sociologia Política, na Fundação José Augusto / foto: cedida

O projeto “De pé no chão também se aprende a ler” virou referência e provocou transformações na própria cidade. Foi um período de valorização das festas, músicas e danças populares. Bibliotecas populares foram instaladas nos bairros, uma ideia que se estendeu para a criação de praças de cultura e museus de arte popular.

No mesmo período, o educador Paulo Freire implantava no interior do Rio Grande do Norte as “40 horas de Angicos”, em 1963,  e a partir dali ganhou notoriedade internacional. Projetos como a campanha de Pé no Chão e a alfabetização de adultos em Angicos despertaram o ódio dos militares golpistas. Não por acaso, uma das primeiras iniciativas da ditadura foi acabar com a proposta:

– O general Humberto Castello Branco, quando foi a Angicos conhecer o projeto, disse que ali estavam sendo formadas cascavéis”, lembra Germano.

A ira dos militares tinha uma razão: no foco dos dois projetos estava a educação crítica como instrumento para compreender o mundo. Germano lembra que a campanha de Pé no Chão, por exemplo, foi fruto da criação dos comitês populares nos bairros da capital, uma ideia que surgiu durante a campanha eleitoral que levou Maranhão para a prefeitura e que se manteve durante a gestão, reunindo moradores da periferia para debater os problemas e as demandas mais urgentes de cada local:

– A campanha eleitoral de Djalma Maranhão foi feita com base nos comitês populares, e existiam dezenas deles. Não era lugar só de proselitismo eleitoral, as pessoas levavam problemas relacionados à cultura e à educação para esses comitês. E as demandas eram incorporadas à agenda política. Houve um levantamento que identificou quase uma centenas de comitês nas periferia da cidade”, recorda.

Crianças foram alfabetizadas a partir de metodologia inovadora / foto: DHNet

A campanha de Pé no Chão está diretamente ligada ao perfil da administração de Djalma Maranhão, um político de esquerda, comunista e irmão do militante Luiz Ignácio Maranhão Filho, morto pela ditadura militar. Djalma era ligado a Café Filho numa época em que o sindicalismo rural tinha grande força e o movimento da educação de base ecoava também pelas escolas radiofônicas, que depois foram transformadas em Movimento de Educação de Base, ligado à Arquidiocese de Natal. Naquele período, antes do golpe, o Brasil era governado pelo presidente da República João Goulart e políticos como Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul, e Miguel Arraes, em Pernambuco, chamavam a atenção pelo perfil popular de suas administrações.

Esperanças utópicas 40 anos depois: “Rever tudo isso é uma forma de lembrar, de resistir”

Cientista social e hoje professor aposentado da UFRN, Willington Germano não deixa a história cair no esquecimento / foto: Cícero Oliveira

A dissertação de Mestrado de Willington Germano sobre revolucionária experiência na gestão de Djalma Maranhão resultou no livro “Lendo e Aprendendo: a Campanha de Pé no Chão”. O relançamento da quarta edição em 2021 marcou os 60 anos da experiência idealizada pelo ex-prefeito comunista e os 40 anos da reedição do livro, que traz novos textos e ilustrações do artista plástico José Clewton do Nascimento.

A obra sai pelo selo Caravela Cultural, com o apoio do edital Economia Criativa/2021 do Sebrae/RN, do Adurn-Sindicato, da livraria Cooperativa Cultural e do DHNet. O lançamento presencial está previsto para ocorrer em março, após o retorno das atividades presenciais na UFRN, em data a ser divulgada.

Ao falar sobre a histórica campanha educacional, Germano também revisita o passado olhando para o atual cenário político do Brasil. Para ele, trazer à tona a obra, neste momento, é um ato de resistência contra o governo protofascista que hoje dirige o país:

– Eric Hobsbawm dizia que a função da história é lembrar a sociedade daquilo que os outros esquecem ou querem esquecer. Então uma obra dessa é uma forma de resistência. Na 1ª edição, as lutas democráticas estavam surgindo, havia um interesse muito grande de conhecer o que havia acontecido. Agora houve uma regressão sem precedente na vida brasileira. Jamais imaginei ver o que estou vendo hoje. Então rever tudo isso tem um significado de resistência, de esperanças utópicas de um Brasil melhor e menos desigual. Nesta quarta edição primorosa, editada pelo José Correia, é uma forma de lembrar, de resistir. Não para repetirmos, mas para que possamos nos inspirar”.

O editor José Correia Torres destaca que o relançamento do livro, após 40 anos, é um resgate da memória e de um dos momentos mais importantes da história de Natal:

– Na situação em que vivemos, o livro do professor Germano é um registro daquele momento e deve ser lido, relido e entendido. Outros fatos que engrandecem o livro são a presença e o precioso pensamento vivo do autor”, afirmou.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"