OPINIÃO

Manhã de carnaval

Há dois anos começou a pandemia do século 21, no Brasil isso aconteceu logo depois da semana do carnaval. De lá pra cá as coisas mudaram muito… Lembro que lá atrás havia um pessoal que postava nas redes sociais “vamos sair dessa pandemia como uma humanidade melhor, menos desigual e mais solidária”. Acredito que a ficha desse pessoal tenha caído rapidamente.

O fato é que a humanidade já teve inúmeras oportunidades de se aprimorar depois de grandes tragédias. Por exemplo, a pandemia de gripe de 1918 (gripe “espanhola”), que aconteceu exatamente no pós-Primeira Guerra. A “Grande Gripe” foi arrasadora durante os próximos dois anos, matando aproximadamente 500 milhões de pessoas. No Brasil, o recém-eleito Rodrigues Alves faleceu em 1919, antes de tomar posse como Presidente da República.

Dez anos depois veio uma enorme crise financeira e econômica global a partir da Crise de 1929. Ali os principais mercados internacionais estavam interligados, inclusive o do Brasil que se encontrava no auge do ciclo do café. O país sofreu uma derrocada tamanha cujos efeitos duraram pelo menos três décadas e forçou a migração da mão-de-obra trabalhadora rural para as áreas urbanas.

Aí já temos duas oportunidades perdidas. A terceira foi a Segunda Guerra. Assim como a Primeira Guerra, a Segunda Guerra teve a duração de quatro anos. Esse conflito até hoje chamado de “Guerra Total” foi um dos piores eventos que poderiam ter existido para a humanidade. A princípio envolveu sete países, porém encerrou com a participação de dezenas deles, até mesmo do Brasil.

No final da Segunda Guerra emergiram duas potências mundiais diametralmente conflitantes: os Estados Unidos e a ex-União Soviética, hoje Rússia. Para resumir, os interesses geopolíticos da Rússia que envolvem a Ucrânia não são recentes, mas como dessa vez há uma atuação direta dos Estados Unidos, da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte, então se criou uma sensação de revival da Guerra Fria.

É inegável o clima de consternação pelas vítimas da Ucrânia, em particular. Porém, na data de hoje, também estão acontecendo pelo menos outros dez conflitos armados simultâneos no mundo inteiro. Vários desses ataques têm o apoio direto de uma grande potência mundial. A maioria deles começou antes da pandemia de Covid-19, seguiram seu curso em 2020 e não tem previsão de acabar, como a guerra na Síria, iniciada há onze anos.

De fato, até aqui a humanidade não conseguiu entrar num consenso sobre a partir de quando a gente iria se aprimorar enquanto coletividade. E as desgraças continuam acontecendo o tempo todo: os países sofrendo uma fome crônica, o meio ambiente sucumbindo aos interesses privados, as pessoas fugindo de seus países em guerra, o investimento cada vez menor no ensino público, a violação dos direitos de meninas poderem estudar, o número de crimes por intolerância étnica e religiosa…

Escrevo este artigo numa manhã de carnaval. Este ano os blocos privados foram permitidos pelas prefeituras, que alegaram haver um maior controle sobre as pessoas nos blocos, já que a maioria da população está vacinada. Teste de covid-19, máscara e álcool em gel. Obviamente espera-se que elas apresentem ao menos um comprovante de que foram vacinadas no “passaporte vacinal”.

Mas esse carnaval excludente e nostálgico não engana. Ainda não é dessa vez que o Brasil verá um carnaval como o “Carnaval da Revanche” como aquele de 1919. Os livros registram que foi o maior carnaval da história do Brasil, em comemoração ao fim da pandemia e da Primeira Guerra. Momento em que o povo brasileiro foi às ruas vestido de caveira, meninas e mulheres de espanhola, em referência à gripe.

Na “Guerra da Revanche” as pessoas riram do chá da meia-noite dado como remédio aos moribundos, muitos sambas-enredo cantavam sobre a pandemia no Brasil. Foi quando os sobreviventes se vingaram da morte, se embriagaram e até fizeram filho nos dias de carnaval. E assim a humanidade sambou com gosto na cara de sua quase extinção – claro – sem problematizar sobre os desdobramentos históricos do dia de amanhã.

 

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Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.