Futebol, política e futebol
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Futebol, política e futebol

14 de março de 2022
7min
Futebol, política e futebol

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A filósofa alemã, Hannah Arendt, em seu clássico livro chamado A Condição Humana, no capítulo intitulado Vida Activa, diz que a condição humana é constituída por algumas atividades. Essas atividades são, segundo Arendt, o labor, o trabalho e a ação ou práxis. O labor estaria relacionado ao esforço humano do corpo e aí poderíamos dizer que se encaixariam desde o esforço do corpo feminino no parto, até as atividades que exigem intenso esforço físico - como o trabalho na agricultura ou construção de grandes obras, sobretudo o trabalho escravo que na Grécia antiga era associado à pena ou tortura (tripalium); já o que ela chama de trabalho os gregos hedonistas chamavam de poiésis, palavra cujo significado inicial era relacionado às criação, ação, confecção, fabricação e, posteriormente, arte da poesia e das faculdades poéticas). Por fim, uma terceira atividade, a mais importante, a ação ou práxis (ou política) que nasce com o sujeito e só desaparece quando este morre. A ação, práxis ou política designaria a capacidade do homem/mulher de viver entre e com outros homens/mulheres. Tal significado vai mais além do que aquilo que conhecemos contemporaneamente como política institucionalizada (a esfera política dos políticos profissionais que muitos chamam de politicagem) que está associada a noção de política, tendo como referência apolítica restrita à esfera do Estado, instituição responsável pela ordem social, como defende o italiano Noberto Bobbio.

A concepção de Arendt se aproxima mais da ideia de práxis do materialismo histórico e dialético no que diz respeito às possibilidades de construção de uma vida comum nas contradições. Mas também traz a ideia de que cada um de nós é responsável por interpretar o mundo numa perspectiva transformadora, a partir do convívio com os outros, diferentes de nós. E não interessa que papel social você exerce no mundo. Ao nascer, independentemente da classe social, etnia, nacionalidade, naturalidade, a pessoa tem a tarefa intransferível de fazer política, pois só permanecerá no mundo se exercitar esse desígnio que o próprio mundo e a cultura na qual se insere definiram. Faço este preâmbulo antes de refletir sobre a temática do título – Futebol, Política e Futebol - para que o leitor compreenda a reflexão sobre o tema numa perspectiva menos tácita, menos senso-comum. Vamos ao tema, então.

Há um dito popular bastante manjado e desgastado de que “futebol, política e religião não se discute”. Quem fala isso, geralmente se arvora de um pretenso esquivamento para polêmicas que na maioria das vezes são tratadas mais com paixão do que com racionalidade. A ideia óbvia é dizer que as preferências pessoais não se discutem. Ocorre que, para muito além dessa postura, a pessoa que assume tal discurso, está, na verdade, demonstrando um desconhecimento do significado próprio da palavra política. Reverberando o que a grande mídia diz, em geral, essas pessoas não conseguem enxergar a outra dimensão muito mais profunda e necessária do termo como um inevitável traço de sua própria existência no mundo. Defende, então, uma espécie de apoliticismo.

Mas a questão que quero realmente trazer não diz respeito apenas ao torcedor, ao partidário, tampouco ao religioso no sentido idiossincrático. Realmente não se discute a escolha de clube, religiosa ou de agremiação partidária de cada um(a), enquanto preferência pessoal.

No caso específico do futebol, essa concepção de apoliticismo, deixadas de lado as paixões, sempre foi muito evidente e dominante nos ambientes profissionais e é assumida pelos principais atores da modalidade esportiva, no caso os jogadores, como se fosse possível exercer o ofício (o labor, trabalho ou a poiésis) sem necessariamente fazer política (ação, práxis). A imensa maioria crê que seu papel no mundo do futebol e no mundo, nada tem a ver com política e por isso mesmo age como se fosse de outra espécie que não a humana, vinda, quiçá, de outro planeta ou galáxia. Uma expressiva maioria desses jogadores advém das classes subalternas e quando “dão certo”, se conformam com seus papéis de estrelas, se associam ao que há de mais espúrio no mundo das relações sociais e políticas (essas institucionalizadas), assumindo uma “postura política” (isso mesmo) de indiferença para com as injustiças que, em geral, sempre recaem sobre as pessoas do lugar de onde tiveram origem. Vemos que essa postura se reflete até mesmo em questões vitais como a do racismo no futebol e, com raríssimas exceções, aparece uma ou outra voz contestadora dessa prática peçonhenta.

Vi outro dia um jogador que protagonizou um absurdo extremo no campo de futebol - quando um torcedor lhe atirou uma banana e ele pegou-a descascou e comeu - assumir que fez aquilo de maneira intuitiva e que nunca teve qualquer sentimento de que estava sendo tratado como um macaco. Certamente essa postura seria diferente se esse mesmo jogador tivesse a compreensão do significado real de sua existência no mundo, se compreendesse o seu papel de ser político, responsável por contribuir com a mudança de mentalidade da sociedade que o trata como animal, de entender-se, enfim, como ser político. Considerando que a sua representatividade social tem relevante papel e posto que ele tem seguidores, era dever dele construir sobre esse evento nefasto um discurso condenatório e influir de maneira incisiva e reativa de combate a tais atos junto aos seus fãs.

Portanto, fora de qualquer agremiação ou instituição política, a pessoa não deixa de ser política. Evitar se posicionar de maneira clara contra as injustiças sociais, independente do partido, do clube ou da denominação religiosa, é um ato de afirmação política no mundo. É práxis. E jogador de futebol, assim como atletas em geral não está fora desse espectro. Ainda que reprovável e degeneradora de si ou da própria modalidade do esporte que representa, é preferível ouvir uma atleta se posicionar em defesa do infesto bolsonarismo, do que aquele que, senhor de ampla influência social, se posta como se não tivesse nada a dizer - sobre a miséria, o racismo, a discriminação, a sexualidade, as questões ambientais, entre outras questões - porque goza de outro status, se enxerga acima dos demais cidadãos e cidadãs. Pelo menos a outra põe sua cara na luz (ou nas trevas). Para estes profissionais da bola, o mundo resume-se às quatro linhas e, fora delas, ao seu casulo familiar, em alguns casos, ao universo das celebridades, como se cada um desses espaços não estivesse permeado por contradições e disputas, muitas das quais incidindo diretamente na sua própria existência e constituindo-se, em primeira instância, lugares para o exercício vivo da política.

Por fim, esse é um tema que pode ser extensivo a qualquer cidadão de qualquer esfera social e não apenas ao(a) jogador(a) de futebol ou a qualquer outro atleta. Podemos, por exemplo, refletir na mesma linha sobre política e televisão, política e arquitetura, política e fórmula 1, política e música etc, aplicando esse mesmo raciocínio. Tomamos especificamente o universo do futebol, o(a) jogador(a) de futebol, porque, assim como as demais categorias de cidadãos(ãs) e trabalhadores(as) no mundo inteiro, o futebol, como atividade laboral (labor, trabalho, poiésis), exercido pelo ser humano, não pode existir sem a ação, práxis, sem a política.

Artemilson Lima é professor de História do IFRN.

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