TRANSPARÊNCIA

Briga nos bastidores de concurso de beleza do RN gera troca de processos entre candidata e coordenadora

A modelo e influencer Joyce Monteiro, macauense de 21 anos, conta como pode ser “desumano” o tratamento dado a candidatas de concursos de beleza. Ela atribui áudios e prints em que é xingada à coordenadora do Miss Grand e do Concurso Nacional de Beleza (CBN) Rio Grande do Norte, dos quais participou. Também diz que lhe cobravam obediência, mesmo sem qualquer contrato.

A coordenadora de quem a modelo fala, sem citar o nome, é Kenya Siqueira, também responsável pelas etapas estaduais dos concursos Miss Supranational, Aqua Nature Brasil Miss e Belezas do Brasil. Em resposta às acusações, trata a modelo com descrédito; diz que mente e cria confusão por onde passa.

Segundo Kenya, Joyce é uma participante que “não sabe perder” e é “frustrada”. Ambas garantem que vão recorrer à Justiça; a primeira pela humilhação que narra, e a segunda por calúnia e difamação.

“Eu quero mostrar o que acontece por trás do mundo miss. Não estou fazendo isso no intuito de queimar ninguém. Estou fazendo isso pra alertar, porque tem meninas de 13 anos, pra alertar as mães a terem muito cuidado ao envolver suas filhas nesse mundo miss. Isso mexe muito com o psicológico, é desumano. Isso tem que parar”, diz a jovem.

Foto: Celio Ricardo

O primeiro contato entre as duas foi para participar do Miss Grand RN 2021, em que Joyce venceu. Os primeiros atritos começaram ali, mas pareciam ter sido superados.

“Ela começou a implicar. Falou que eu só ia para os provadores de (sandália) rasteira. Falou a verdade. Porque eu passava o dia todo trabalhando, fazendo fotos no interior e não poderia ir de salto, porque não tenho condições de ter uma moto ou ficar pagando moto táxi todos os dias. Arrumou um pretexto, queria que eu usasse um salto 16 ao meio dia em ponto, no sol quente, pra fazer provadores”.

Em 2022, recebeu convite para o Miss CNB RN, realizado no dia 23 de março. Mas segundo Joyce, no meio do processo a coordenadora mudou de ideia, supostamente para dar lugar a outra candidata. Daí começaram os episódios de humilhação e pressão psicológica, segundo a modelo.

Joyce não queria desistir. Pagou inscrição e estava confiante, porque havia se preparado e acreditava também que o projeto social “Além da Beleza”, em que faz arrecadações para famílias em situação de vulnerabilidade, seriam diferenciais, deixando-a à frente de outras candidatas.

“Entrei para ganhar e saiu do controle dela. Ela ligou para uma pessoa, que também não posso envolver, e disse que eu tinha que aprender a perder, porque nem no top 10 entraria. E realmente não entrei. Sofri abuso psicológico dentro do hotel. Ela grita com as meninas chamando de ‘alma sebosa’, não mede as palavras. Arrumei patrocinador de biquínis para o concurso, fiz a logomarca. Ela se aproveitou da minha inocência e do fato de eu não ter falado nada há um ano atrás, mas agora não quero mais ficar calada. Ela abalou o meu psicológico. Se eu não fosse uma mulher forte, tivesse passado já por tanta coisa, não estaria aqui falando”, acredita Joyce, que diz ter começado a trabalhar aos 14, vendendo geladinho na rua; depois foi ser manicure e cabelereira. E saiu de casa aos 15 anos.

“Já fui a psicólogo, psiquiatra, e vou começar a tomar remédio controlado por causa dela. Ela, querendo ou não, abalou o meu psicológico”.

A carreira como modelo começou aos 17 anos, quando conheceu a Agência Garota Top Model e participou do Miss Macau. No Miss Rio Grande do Norte 2021, ficou em 3º lugar.

Joyce também expõe que as reclamações aumentaram por ter sido fotografada em Macau.

“Você estava fazendo making of com esse fotógrafo ridículo, de faixa, com vestido curto, feito uma piriguete, queimando o nome do estado do Rio Grande do Norte. Eu não aguento mais você achar que pode fazer as suas coisas. Se não me obedece, caia fora. Cale sua boca e fique bem quietinha”, diz a voz no áudio.

A modelo conta que o fotógrafo do concurso era pago pela coordenação, mas que ela não tinha recursos para viajar semanalmente à capital potiguar e recorreu algumas vezes a fotógrafos parceiros em Macau. Por isso, acredita que foi perseguida também por sua condição financeira.

“Eu tinha que obedecer a ela sem qualquer contrato. Ela gritava, dizia que estava parecendo uma puta, mesmo eu estado com um vestido abaixo do joelho”.

Foto: reprodução/Instagram

Kenya nega que tenha desmotivado a miss.

“Quem quis que ela desistisse foi o cabelereiro dela, que era o meu também na época. Ele falou várias vezes pra ela desistir. Em momento algum eu pedi a qualquer candidata que desistisse. Ela pagou a inscrição, tinha o direito de participar, a não ser que tivesse cometido uma indisciplina, uma falta muito grave”, conta, ao lembrar de um episódio que é passível de penalidade: “ela e mais duas meninas sujaram as toalhas de maquiagem e a gerente do hotel disse que tinham pedido sabão para limpar. Era pra elas terem sofrido punição ali, mas não fizemos isso”.

Recentemente, o conflito foi parar no Instagram. Kenya publicou um print desmentindo a candidata. Joyce apontava um elogio de uma jurada. A coordenadora diz que a pessoa que enviou a mensagem é a miss 2020/2021, e não uma jurada. Mas segundo Joyce, a moça participou da seleção das 15 que desfilariam no concurso.

“Eu não sei porque as pessoas dão ouvido a encrenqueiras. Ela não foi injustiçada. Ela é uma prepotente, arrogante, mentirosa. Quis dizer que foi vítima de preconceito porque é negra. Ela não é negra, ela é morena. Temos duas negras classificadas no concurso, uma top 5 e a outra top 10, que também é transexual. Todos nós somos amigos e continuamos no grupo”, disparou Kenya.

“Eu ainda teria mais coisas pra dizer dela. Mas não vou dizer, porque eu sou uma coordenadora estadual. Não vou ficar discutindo com quem não tem classe. Ela foi até elogiada por mim na hora dos ensaios. Ela é profissional, não reclama de cansaço, está sempre sorrindo. Mas ela é uma doente. Todo concurso que ela passa, faz isso. Não é o primeiro, mas vai ser o último, porque os concursos estaduais estão de portas fechadas pra ela”, disse, ao mostrar que o coordenador nacional do CNB, Henrique Fontes, está ciente do caso e prestando apoio a ela.

Em publicação no Instagram, também sem citar Joyce, Fontes escreveu: “Quando se levantam acusações sem fundamento, não é apenas a organização do evento que o mau perdedor está ofendendo, mas principalmente todos aqueles classificados à sua frente” O que te faz crer tão superior? Ninguém é tão ‘perfeito’ que não possa ser derrotado, e muito menos tão ‘inferior’ que não possa chegar longe! Não sabe brincar? Melhor não descer pro play”.

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais