CIDADANIA

Do abandono à retomada pela cultura: Centro Histórico de Natal luta pra manter de pé arquitetura que abriga história da cidade

Apesar dos alertas, Natal (RN) acabou seguindo o mesmo caminho percorrido por outras capitais do país e assistiu seu Centro Histórico, fundado nos bairros da Ribeira e Cidade Alta, onde a cidade nasceu e surgiram as primeiras habitações que se tornaram referência arquitetônica por sua pujança em tempos mais áureos, se transformar num vazio de praças e prédios deteriorados, pouco convidativos a uma caminhada exploratória.

A Praça André de Albuquerque, também conhecida como Praça Vermelha, é o marco zero da cidade. Ela foi fundada em 1888 pela Câmara Municipal e em seu entorno foram erguidas as primeiras casas e a igreja, que era praticamente obrigatória em qualquer povoado, segundo a tradição que vinha desde o Brasil colonial. Com a construção de uma nova catedral em 1988, a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação passou a ser conhecida como Catedral Velha.

Outro ponto que vale a pena lembrar é que André de Albuquerque Maranhão, personagem histórico que dá nome à Praça, era um senhor de Engenho de Cunhaú que lutou ao lado do grupo que iniciou a revolução Pernambucana de 1817, que tinha o propósito de derrubar o absolutismo da Família Real e sua monarquia no país. Durante todo esse tempo, a praça passou por inúmeras intervenções, perdeu seu coreto central e a característica jardinagem.

“A deterioração do patrimônio está muito associada a uma falta de compreensão da importância da elaboração da memória e, inclusive, da ressignificação desses espaços para uma percepção da própria população, que também não contribui com o poder público, pixa e depreda porque não há uso racional e consciente para esses lugares. O poder público se omite, ora porque não tem verba, ora porque não tem interesse. No caso de Natal, o deslocamento econômico está se estabelecendo para zona sul, para Ponta Negra, por exemplo. Regiões como Ribeira, Cidade Alta e, até mesmo, Petrópolis e Tirol, são áreas de fuga, de despovoamento. Quando a prefeitura ou o governo do estado não faz uma reflexão sobre essas atividades, gera esse tipo de questão”, lamenta o professor de História e entusiasta da revitalização desses espaços, Henrique Lucena.

Praça André de Albuquerque em 1907 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1907 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1957 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1957 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1982 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1982 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1985 I Foto: reprodução Semurb
Praça André de Albuquerque em 1985 I Foto: reprodução Semurb

Nesta quarta (17) é celebrado o Dia do Patrimônio e Memória. Para tentar resgatar a importância que toda essa herança histórica tem, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte (CAU/ RN) e o Instituto Histórico e Geográfico organizaram uma apresentação dentro da Igreja do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta, bem perto Praça André de Albuquerque, para abordar o tema. No evento, o professor Henrique Lucena, que é formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em História, vai falar falar sobre o conceito de poder, patrimônio e arquitetura. A palestra é aberta ao público.

Quando falamos da arquitetura associada ao poder, por exemplo, vem a questão de como o estado se utiliza de arquitetos e engenheiros para criar o fluxo dos carros, a velocidade dos veículos, mas, também das pessoas. Ao mesmo tempo, essa arquitetura gera memória, porque ela é consumida pelo olhar, que estabelece uma relação de leitura com o período que aquilo foi construído, edificado, de que maneira é importante para o cotidiano das pessoas ou se não o é, o que nos faz voltar para aquela questão que comentamos anteriormente sobre a depredação do patrimônio e falta de conservação’, avalia Lucena.

A arquitetura é um reflexo da sociedade e a população tem o direito de conhecer, usufruir e se identificar com o patrimônio, que é uma construção coletiva. Trazendo para a questão da requalificação dos nossos centros antigos, é muito importante termos o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para promoção de Habitação de Interesse Social nestes centros antigos, requalificando edificações compatíveis com este uso, por exemplo, já que são áreas da cidade já dotadas de uma excelente infraestrutura urbana. A vida cultural é outro importante direito do cidadão, perfeitamente compatível com muitas das ruas e edificações históricas, assim como pode-se pensar na movimentação da economia criativa nestes locais”, avalia Cíntia Viegas, arquiteta e urbanista, doutora em patrimônio e conselheira do CAU/RN.

IFRN da Avenida Rio Branco, na Cidade Alta, ao lado do Espaço Cultural Ruy Pereira I Foto: Mirella Lopes
IFRN na Avenida Rio Branco, na Cidade Alta, ao lado do Espaço Cultural Ruy Pereira I Foto: Mirella Lopes

C&A fechada

Avenida Rio Branco com loja C&A à esquerda I Foto: Mirella Lopes
Avenida Rio Branco com loja C&A à esquerda I Foto: Mirella Lopes

Em março deste ano, a loja C&A, que ficava no cruzamento da rua João Pessoa com a avenida Rio Branco, na Cidade Alta, fechou as portas. O movimento faz parte de uma tendência que comerciantes e clientes já vinham observando nos últimos anos, o da mudança do público para os shoppings. O terreno onde a loja funcionava já abrigou grandes casas da elite natalense e um mercado municipal. A memória do lugar está expressa no painel feito pelo artista plástico Dorian Gray Caldas, por encomenda da empresa, em 1992.

Para o professor Henrique Lucena, o fechamento da loja de departamentos é um símbolo da decadência do poder econômico. Ele explica que no século passado aquela esquina e o seu entorno ficaram conhecidos como Grande Ponto, por concentrar a efervescência política, comercial e cultural da época.

Historiador Henrique Lucena fala sobre importância do encontro da Av. Rio Branco com a Rua João Pessoa para a cidade de Natal.
Historiador Henrique Lucena fala sobre importância do encontro da Av. Rio Branco com a Rua João Pessoa para a cidade de Natal.

“A maior parte das casas foi derrubada entre os anos 20 e 50. Petrópolis e Tirol passaram a assumir essa função residencial; enquanto o Centro, a comercial, com cafés, lojas, mercado,… tinha o escritório da Cruz Vermelha, os principais cinemas…”, conta, ao lembrar que chegou a comer em uma das lanchonetes dali quando criança, nos anos 80.

“O Cinema Nordeste, inaugurado em 1959, era extremamente luxuoso, com ar condicionado, poltronas muito largas, o hall era um local de exposições. Ele e o Teatro Alberto Maranhão rivalizavam. Todos os cinemas de Natal eram naquele lugar e na Ribeira”, explica o professor que aponta, ainda, que poucos anos antes, entre 49 e 50, foi realizado o 1º Salão de Arte Moderna de Natal, por Newton Navarro, [revelando à sociedade da capital potiguar o nome de Dorian Gray], na Praça Kennedy, em frente ao que seria e, a partir de hoje não é mais, a C&A.

Antigo Cinema Nordeste I Foto: Luciano Capistrano

Antigo Cinema Nordeste I Foto: Luciano Capistrano

Mais que sol, mar e água fresca…

Para além das belezas naturais, Natal tem um potencial para o turismo cultural ainda pouco explorado. Algumas iniciativas têm tentado resgatar o movimento noturno das tradicionais ruas, becos e casarões da Ribeira e Cidade Alta. Este ano, o Festival do Sol foi realizado no Memorial Câmara Cascudo e toda semana, artistas poetas e boêmios batem ponto no Beco da Lama, no Bardallo’s ou no Espaço Cultural Ruy Pereira, dentre outros pontos de resistência.

Na Ribeira, que já foi abrigo de movimentadas boates nos anos 90, proprietários de cafés, ateliês e bares tentam preservar não apenas a história, mas a vida no local. Alguns prédios mais contemporâneos até foram construídos no bairro nos últimos anos, mas os traços clássicos ainda são dominantes na arquitetura do local. Por causa do maior número de imóveis desocupados, segundo Cíntia Viegas, centros antigos também têm sido utilizados pelo poder público enquanto alternativa para política habitacional.

Lojas do centro da cidade perderam movimento para os shoppings nos últimos anos I Foto: Mirella Lopes
Calçadão da João Pessoa, lojas do centro da cidade perderam movimento para os shoppings nos últimos anos I Foto: Mirella Lopes

A arquitetura é um reflexo da sociedade e a população tem o direito de conhecer, usufruir e se identificar com o patrimônio, que é uma construção coletiva. Trazendo para a questão da requalificação dos nossos centros antigos, é muito importante termos o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para promoção de Habitação de Interesse Social nestes centros antigos, requalificando edificações compatíveis com este uso, por exemplo, já que são áreas da cidade já dotadas de uma excelente infraestrutura urbana. A vida cultural é outro importante direito do cidadão, perfeitamente compatível com muitas das ruas e edificações históricas, assim como pode-se pensar na movimentação da economia criativa nestes locais”, destaca a conselheira do CAU/RN.

Uma pesquisa do Google realizada em 2020 mostrou que dentre os 10 destinos que viajantes do mundo inteiro gostariam de visitar, São Paulo, no Brasil, apareceu em segundo lugar. A lista trazia Vietnã em primeiro lugar, seguido pelo Brasil, Coreia do Sul, Japão, Israel, França, Áustria, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Austrália.

Cruzamento da Rua João Pessoa com a Avenida Rio Branco, na Cidade Alta I Foto: Mirella Lopes
Cruzamento da Rua João Pessoa com a Avenida Rio Branco, na Cidade Alta I Foto: Mirella Lopes

Essa mesma pesquisa também mostrou que dentre viajantes brasileiros, Natal aparece em oitavo lugar na lista de preferências, atrás de alguns destinos conhecidos mundialmente, como Londres (Inglaterra), Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Florianópolis, Santos e Paris (França).

Se a capital potiguar parece tão interessante aos olhos de quem vem de fora, cabe a nós cuidar melhor dela. Um dos instrumentos para isso é o Plano Diretor da cidade, onde ficam estabelecidas as metas, delimitações e projeções de como a cidade deve crescer nos próximos anos. A votação mais recente do Plano, realizada em 2022, trouxe algumas alterações que podem acabar dificultando esse processo.

O plano diretor de Natal 2022 trouxe algumas preocupações relacionadas ao aumento do potencial construtivo e densidade populacional de algumas áreas da cidade em que a capacidade da infraestrutura é questionável, mas no campo do patrimônio cultural conseguimos avançar de maneira significativa estabelecendo a Área Especial de Preservação Cultural, bem como o Sistema de Proteção ao Patrimônio Cultural, ambos alinhados com as legislações do patrimônio, bem como as recomendações trazidas pelos documentos patrimoniais. Até o plano diretor de 2007 o patrimônio aparecia de maneira muito tímida; agora tem mais destaque e traz estratégias que contribuem para a efetiva preservação do Centro Histórico de Natal”, revela Cíntia Viegas, que também é professora do Departamento de Arquitetura da UFRN.

Cartão-postal “Cidade Moderna”, Jaeci Galvão, Natal, RN. O grande ponto, cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, final da década de 1940.
Cartão-postal “Cidade Moderna”, Jaeci Galvão, Natal, RN. O grande ponto, cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, final da década de 1940.
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