“As religiões neopentecostais nos oprimem porque somos o 2º maior mercado religioso do Brasil”, diz pesquisadora
Natal, RN 27 de mai 2024

“As religiões neopentecostais nos oprimem porque somos o 2º maior mercado religioso do Brasil”, diz pesquisadora

14 de junho de 2023
“As religiões neopentecostais nos oprimem porque somos o 2º maior mercado religioso do Brasil”, diz pesquisadora

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"As religiões neopentecostais não nos oprimem hoje porque somos descendentes de africanos e indígenas, mas porque somos o 2º maior mercado religioso do Brasil. Nos oprime hoje porque defendemos valores que contradiz todos os tabus estabelecidos pelas religiões cristãs. Uma religião na qual a mulher pode ser sacerdotisa independente da sua condição financeira, cor de pele, sexualidade, intelectualidade e qualquer outro item que a coloque em um determinado lugar é muito perigosa”, aponta Maria Rita, também chamada de Mãe Ritinha, sacerdotisa e especialista em cultura afro-ameríndia que foi entrevistada no Balbúrdia desta quarta (14).

A pesquisadora ainda aponta que as tradições dos povos originários respeitam a liberdade sexual e valorizam a partilha, contrariando princípios tradicionais como o de acúmulo de bens, exploração e opressão.

É uma religião em que a sexualidade é livre, porque o Orixá não é um deus fora de mim me julgando, castigando e oprimindo, ele está dentro de mim, faz parte da minha ancestralidade, da minha natureza, conhece todas as minhas questões e, também, qualidades”, destaca.

Outras características ressaltadas por Mãe Ritinha, é a liberdade das mulheres detêm poder econômico sobre suas casas, são donas de seu corpo e não precisam de aprovação externa para exerceu seu papel.

“Essa questão da intolerância religiosa é porque rompemos com comportamentos”, avalia Mãe Ritinha.

Numa época em que o acesso à educação e serviços de saúde era ainda mais restrito, foram as tradições dos povos originários, junto à cultura de outros tantos excluídos, que garantiram a segurança alimentar e saúde da população mais pobre do Brasil. É o que explica a sacerdotisa e especialista em cultura afro-ameríndia, Mãe Ritinha, entrevistada do Balbúrdia desta quarta (14).

A capitania do Rio Grande foi a última a ser ocupada, colonizada, o que permitiu a tradição dos povos indígenas fosse mantida no estado. A Jurema Sagrada é a primeira religião brasileira e originária. Ela está no Catimbó, na Pajelança, nos Encantados, nos povos tradicionais indígenas e nos demais povos da floresta”, explica Mãe Ritinha, que também é mestre em Ciências Sociais.

A pesquisadora, que é da comunidade tradicional do Lajedo de Soledade, que une as populações negra e indígena, revela que o tema ainda era pouco explorado pela universidade.

Não tinha a visão do que era o mundo acadêmico e digo que o que me salvou foram os movimentos sociais. Eu sou a 1ª pessoa a ter nível superior na minha família. Vim para Natal, fiz a seleção do mestrado e fiquei pela minha nota. Não havia um espaço de orientação... não tinha bolsa, fiz fazendo artesanato na praia. Não havia um debate amplo sobre as religiões tradicionais, a visão que a academia na época tinha, era a mesma do senso comum. Depois que conclui minha dissertação passei mais de um ano esperando que o professor marcasse a banca, porque ele achava que o tema não era importante. Que eu estava desperdiçando meu talento estudando populações negras e indígenas. E eu estou falando isso por que dediquei mais de 20 anos da minha vida para que as populações de matriz africana e indígena entedessem que tínhamos que ocupar esse espaço”, relata Mãe Ritinha.

Apesar das tentativas de apagamento cultural, essas tradições seguem vivas não apenas enquanto religião, mas nas práticas e costumes cotidianos que, muitas vezes, são renegados pelo preconceito.

No Rio Grande do Norte ela se manteve durante muito tempo, por mais de um século, como a única referência de tratamento de saúde, da questão da segurança alimentar e de diversos outros aspectos da vida das populações excluídas. A Jurema Sagrada cultua a nossa ancestralidade. No Rio Grande do Norte nós temos uma rede muito complexa de ritos em torno da Jurema Sagrada, que vai se manter como um dos elos de resistência dos demais povos excluídos, então, outros vão entrar nesse ritual indígena, como os povos ciganos, os mouros, as populações excluídas europeias”, acrescenta.

O RN não tem indígenas?

“O Rio Grande do Norte tem indígenas, sempre foi um estado de cablocos. Mas, o que acontece é que depois de 100 anos de extermínio as populações se reduziram, se acuaram, têm um sério problema de reconhecimento, ainda é muito fragilizada a política para os povos tradicionais aqui no RN e esses povos mantêm suas tradições. Aqui no RN a Jurema Sagrada é um ritual tipicamente do Sertão e que vem para as zonas urbanas. As pessoas podem se perguntar: mas o que é a Jurema Sagrada, eu conheço? Olha, todo mundo conhece os rezadores e rezadeiras, os curandeiros, os mangaieiros... tudo isso é Jurema Sagrada, nossas ervas, nossos chás, garrafadas, nossos ritos, a chegança, o pastoril, o zambê. Todas essas tradições vêm da Jurema Sagrada e de tosos esses outros povos que vão chegando, com as introduções dos africanos, mouros e outros mais”, defende a pesquisadora.

A culinária

Temos uma culinária riquíssima... é tão interessante a intolerância né, mas todo mundo todo mundo adora uma buchada, uma feijoada, o feijão farofado, a galinha caipira. Todos esses pratos vêm dos povos tradicionais e de suas formas de sobrevivência. A Jurema é uma filosofia sobre si e sobre o mundo. Você escolhe ser comunidade, ser aldeia, em contramão a uma sociedade do indivíduo e do capital. É a reconstrução da aldeia e todas as suas formas de vida, e sua relação com a natureza”, exalta Mãe Ritinha.

O 1º SUS brasileiro

“Os mecanismos de opressão do novo são muito sutis. Não há uma pessoa no mundo que não tenha tomado um chá num momento de necessidade. Essas ervas já eram utilizadas pelos povos indígenas. O laboratório dos povos tradicionais é a natureza, os experimentos das drogas hoje são de origem dos povos tradicionais, a coca, a maconha...todos esses elementos vieram de ervas utilizadas em rituais de cura dos povos tradicionais. As rezadeiras começaram a tratar, o primeiro SUS brasileiro é o terreiro, porque médico era somente para a Côrte e o terreiro é que tratava as populações mais pobres”, esclarece Mãe Rita.

Iemanjá

"Toda vez que a imagem de Iemanjá passa por uma agressão, todas nós mulheres de terreiros somos agredidas, somos violentadas porque Iemanjá é o sincretismo dos três povos. Iemanjá, inicialmente, era sincretizada com a cabocla Naína, Janaína. Nosso maior sincretismo não é com as tradições católicas é com os povos da floresta. Para cada rito do panteão indígena, há um rito no panteão africano. Iemanjá vai se sincretizar com Nossa Senhora da Conceição e abranger os católicos... esse ato de intolerância de pintar Iemanjá de preto, porque ela é uma deusa africana dos mares, para nós do Candomblé Orixá é energia. Em todas as pessoas, em todos os lugares, etnias, tem orixá e a maior generosidade do povo africano foi compreender isso. Todos nós viemos da África e, portanto, todos nós somos filhos de Orixá e a tonalidade é consequência da vivência da humanidade na Terra", conclui Maria Rita.

Veja a entrevista completa:

(77) Intolerância religiosa no RN: entrevista com Mãe Ritinha, mestra em Ciências Sociais - YouTube

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