O jardineiro abre seu jardim ao público
Natal, RN 19 de jun 2024

O jardineiro abre seu jardim ao público

22 de maio de 2024
9min
O jardineiro abre seu jardim ao público
Foto: Divulgação

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Iniciei a escritura de um texto apreciativo do espetáculo realizado no auditório da Escola de Música da UFRN, na noite do dia 17 de maio, traçando um painel retrospectivo do que foi a mobilização de Sandro Azevedo para gravar um EP chamado “O Jardim Secreto de Stéphan Dehmia”, mas abandonei-o, porque quase tudo que é relativo a esse trabalho, no que concerne às informações técnicas e até mesmo a explicação para o título, um tanto metafórico, foi exaustivamente divulgado nas redes sociais, Instagram, Facebook e demais meios. Pensei que se enveredasse pelo viés de uma narrativa retrospectiva, centrada no processo, estaria malhando em ferro frio. De certo modo acompanhei relativamente de perto a sua construção e o leitor pode acessar pelas plataformas citadas acima praticamente todos os dados registrados, relacionados a feitura do EP.

Minha intenção, portanto, nesse escrito, tem mais a ver com a sensação de alegria e gozo com a qual saí do auditório da Escola de Música da UFRN, naquela noite mágica. Decidi, assim, escrever minhas impressões sobre o espetáculo de lançamento do EP, composto de cinco canções inéditas e disponível em todos as plataformas digitais de música na Internet. Corro o risco de fazer um texto de caráter laudatório, posto que sou amigo de Sandro desde 1985, quando morávamos na Residência 2 da UFRN e militávamos no Movimento Estudantil. Temos fortes afinidades musicais e intelectuais, além estarmos vivenciando outra experiência musical no Grupo Netinho de Adelaide & os Inimigos do 8/1. Porém, não me incomodo se parecer que estou dourando a pílula em relação ao que vi naquela noite como culminância de uma intensa mobilização de músicos, produtores, amigos, políticos, e todas as pessoas que direta ou indiretamente, contribuíram para o evento que considero inédito, ousado e encantador.

Sandro tem uma propensão a modéstia e, mesmo já tendo experiências com o palco, considera-se um neófito em termos de assumir o comando solo do proscênio, cantando músicas autorais e algumas versões de outros artistas já consagrados. Isso, segundo ele próprio, porque todas as experiências anteriores, foram coletivas, o que é compreensível. Ele fez parte de dois grupos vocais bem conhecidos em Natal: o Madrigal e o Acorde, que até bem pouco ainda estava em atividade. Tal modéstia ou mesmo apreensão a essa nova experiência revelou-se infundada, dada sua performance segura e tranquila desde o início do espetáculo, como se já tivesse uma profunda e duradoura intimidade com o palco atuando como protagonista solo.

Professor do Centro de Educação da UFRN, irrequieto, dotado de uma energia para o trabalho que impressiona, vinculado à arte desde menino em Caicó, não sossega ou pelo menos não sossegou até realizar o maravilhoso espetáculo encenado na noite do dia 17 de maio. E, tenho certeza, não sossegará, justamente porque conseguiu emplacar o que eu considero um espetáculo poético-musical inovador, com requintes de superprodução que precisa e deve ser apresentado muito mais vezes em outros palcos e em outras cidades. Atentem que inovar em termos artísticos em Natal, custa muito, não apenas em termos financeiros, mas também porque, aqui quem ousa, infelizmente, estará sempre sob a mira desconfiada do “mainstream” local.  

Sigo, pois, sem nenhum receio de estar sendo exagerado afirmando que Sandro Azevedo protagonizou uma experiência que está para muito além de um show de música nos moldes do que estamos acostumados a ver, como resultado do trabalho dos artistas da paróquia. É por isso que prefiro qualificá-lo como “espetáculo” e não apenas como um show musical. Explico porque: há, perceptivelmente, um conceito que permeia toda a estrutura do espetáculo, que já se pronuncia, de cara, na abertura, pensada criativamente como um recital poético encenado por cinco mulheres artistas, destacando-se as vozes surpreendentes e arrebatadoras de duas maravilhosas sopranos, Daliana Cavalcanti, interpretando Primavera, de Oriano de Almeida e Ariadne Mendes, cantando Veleiros, de Villa Lobos. Além delas, Amélia Freire, Carla Alves e Jéssica de Pádua recitam poemas de Marize Castro, Iracema Macedo e Josimey Costa e trechos de outras canções musicadas por Sandro.

Esse preâmbulo já prenuncia o que veríamos e ouviríamos adiante. Depois de encerrada a intervenção das artistas, o artista assume o palco e inicia sua performance cantando, à capela, uma canção chamada Benvindagem, composição sua em parceria com o poeta João Andrade, a quem declara um sentimento de gratidão, por ter tido a sorte de encontrá-lo. Aliás a parceria com Andrade reaparece na 14ª canção do set list, de nome Going to Caicó, uma balada que no EP conta com a participação de Júlio Lima interpretando o cigano Andrade João.

 Levaria muitas linhas esmiuçar cada detalhe desse evento singular, mas não é possível falar de tudo, justo pelo seu caráter complexo, porém, e felizmente, nada hermético, uma virtude que o grupo consegue emplacar por duas estratégias comunicacionais:  de um lado, pela clareza conceitual que, além das ótimas canções – autorais ou versões - é ilustrada por excelentes textos relacionados com a temática central, a experiência do personagem heterônimo de Sandro, lidos/recitados de maneira articulada pelo próprio, e cuidadosamente bem situados no conjunto geral dos elementos que compõem o roteiro do espetáculo. Além disso a comunicação estabelecida com a plateia pelo artista de forma elegante, natural, simpática e qualificada, revela-se um sutil convite para um encontro poético diletante, embora político, sem, no entanto, ser panfletário; por outro lado, a opção  pela arquitetura de um composto harmônico entre os elementos sonoros e cênicos: música,  letras, arranjos, desempenho vocal impecável, uma conexão ágil e discreta com e entre os músicos, o tranquilo domínio do espaço cênico, sem afetação nos movimentos nem tropeços ou indecisões, o que indica que houve uma exaustiva jornada de ensaios; contribui também para a sustentação da dinâmica do enredo, a predominância do rock como ritmo condutor expressivo da sonoridade, o que permite um andamento instigante que não agasta a plateia,  ainda que outros ritmos mais suáveis sejam convocados, como a bossa nova Fantasia, e uma excelente, ousada e criativa versão da canção As Rosas não Falam de Cartola adaptada para um tango. Sandro inclui ainda a labiríntica canção de Lenine, Envergo mas não Quebro, um clássico da música local, a inquietante Dia Negro, de Babal Galvão, a canção , de Luiz Melodia, Perfume de Gardênia, de Rafael Hernandez Marin, adaptada para um blues e uma versão em português do próprio artista da singela e comovente Beautifoul Boy de John Lennon.

É impossível falar do espetáculo sem assinalar o cuidado com a produção musical, conduzida pelo paciente e minucioso cuidado do Baixista Zé Fontes, como também destacar a excelência da banda que o acompanhou, formada pelo mesmo Zé Fontes, o impagável Ricardo Baya com sua guitarra fuzilante, a sobriedade e elegância da bateria de Sílvio Franco(Silvinho), a precisão dos teclados de Humberto Luiz e, para completar, a participação de Gilberto Cabral e seu precioso trombone de vara, o grave e agradável som das cordas do contrabaixo de Airton Guimarães e a suavidade da flauta transversal de Jeneyre Pedro.

Para finalizar, é preciso dizer que tudo o que vimos e ouvimos naquela mágica noite de sexta-feira, resultou da determinação, do natural compromisso, esmero e com que Sandro trata todas as atividades em que se envolve. Quem o conhece sabe bem do que falo. Até um item que em geral é secundarizado pelos artistas da música local, foi objeto de preocupação do artista: o figurino. O que para a maioria é dispensável, fez uma diferença essencial na composição do arcabouço estético do espetáculo. A sacada de usar um macacão de jardineiro, de corte e caimento despojados, cor da terra, amarrou o conceito criado e nutrido durante meses de preparação para essa vivência pontual que se inicia na narrativa do jardineiro absortono cuidado das plantas, da terra, na busca para suportar o isolamento compulsório, no momento em que era impossível o encontro,  o abraço, o carinho, o afago, pela ameaça invisível de um agente cerceador da vida.  Assinado por Rousi-Flor-Caeté, que também milita na música e artes afins, a peça permitiu uma projeção luminosa e uma aproximação do artista com a plateia, além de criar uma atmosfera de harmonia subjetiva com tudo o que acontecia no recinto.

 Por tudo o que eu escrevi aqui acerca dessa maravilhosa experiência músico-poética e por muito mais coisas impossíveis de dissecar em poucas linhas, penso que é urgente a reflexão sobre aquilo que, na arte, envelhece em decorrência do hábito calejador do artista que o acomoda numa postura empedernida, travando o que potencialmente pode reacender,  tornar-se um acontecimento capaz instigar e perturbar, modificar conceitos, pessoas, espaços, regras, convenções. Deixo a indagação: o que pode vir a ser novo e diferente na construção do que aparentemente só se manifesta como velho e igual? Talvez um jardineiro tenha essa resposta.    

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