Projeto na Vila de Ponta Negra protege infância de crianças vulneráveis
Natal, RN 27 de jun 2026

Projeto na Vila de Ponta Negra protege infância de crianças vulneráveis

8 de setembro de 2024
13min
Projeto na Vila de Ponta Negra protege infância de crianças vulneráveis

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Nem toda casa bem cuidada tem um jardim tão colorido como o da casa nº 295, numa rua da Vila de Ponta Negra. Uma sala de estudos entre plantas, um pátio colorido, banho de mangueira ao ar livre, cheirinho de comida no ar às 11h, tudo lembra aconchego, casa de mãe, casa de vó, pelo menos, para quem teve uma nessas ‘condições ideais’.

Toda essa descrição é real e não só nas lembranças, na Associação Amigos de Maria (Amar), uma Organização Não Governamental (Ong) sem fins lucrativos que recebe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Jardim com estufa para estudos I Foto: Mirella Lopes
Aluna estudando na estufa I Foto: Mirella Lopes

Ela não recebe todo mundo, só as crianças que mais precisam. Aqui a seleção é ao contrário, as que estão numa situação realmente difícil é que são atendidas”, conta Marise Duarte, que além de professora do Departamento de Direito da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN), é voluntária no projeto. Foi ela que, com mais algumas amigas, conseguiu colocar em dia toda a parte burocrática e formalizar o projeto.

Nesse espaço, as crianças e adolescentes recebem reforço escolar no contra turno da escola, os menores brincam acompanhados por uma monitora, os maiores fazem suas experiências na horta e, em breve, passarão a participar de uma oficina para reaproveitar a fibra do coco, que já é utilizada como adubo para cultivar mudas de plantas. Eles ganharam uma máquina para tornar o processo ainda mais rápido.

“O projeto é dividido em três partes: produção, coordenação e marketing. Goretti está na coordenação, Cauã, Vitória Jeniffer e Samuel são produção e eu, Viviane e Bárbara, estamos no marketing. Nós tiramos fotos, postamos e procuramos saber mais sobre aquela planta”, explica Júlia Heloísa, uma das alunas mais antigas e desenvoltas do projeto. Júlia conhece tudo e todos na casa, ele está com 15 anos hoje, mas chegou ao projeto quando tinha apenas 4 anos de idade.

Todas as orientações são repassadas aos jovens por meio de videoconferência por Fernanda, uma voluntária que já esteve por aqui, mas hoje em dia mora no Canadá.

Jovens fazem mudas utilizando a fibra do coco como adubo I Foto: Mirella Lopes
Aluno mostra uso da fibra do coco como adubo I Foto: Mirella Lopes

As mudas ainda não são produzidas em grande escala, mas a meta é que a instituição sobreviva da sua própria produção e dependa menos das doações. Eles também organizam um bazar periodicamente. As crianças e adolescentes ainda têm aula de música, artesanato, roupa lavada, comida feita e recebem o afeto que, muitas vezes, falta em casa.

A estufa, além de servir como sala de estudo, também é o espaço onde são realizadas reuniões. Ela foi construída graças à doação de uma pessoa do Rio de Janeiro que conheceu o projeto e até hoje envia ajuda. Quase tudo na casa, aliás, funciona assim, na base da doação e do voluntariado. A Associação já funcionou num espaço bem menor, com apenas 20 crianças, há cerca de nove anos. O grupo ganhou o aluguel da casa onde está hoje e atende cerca de 70 crianças durante a manhã e tarde.

Autonomia na infância

Na Educação Infantil, na sexta (6), foi dia de pintar a bandeira para o Sete de Setembro. Eles já estudaram sobre os dinossauros e encerraram o tema com uma visita ao Museu Câmara Cascudo, onde há fósseis pré-históricos. Nas próximas aulas, o tema será os planetas do nosso Sistema Solar.

Alessandra e Francelis (da esquerda para a direita) desenvolvem pedagogia semelhante a de uma escola em Portugal I Foto: Mirella Lopes
Depois dos dinossauros, próximo tema será os planetas do Sistema Solar I Foto: Mirella Lopes

Eles têm autonomia para escolher o tema e como vão estudar. Nós vamos introduzindo a Base Nacional Curricular dentro daquele tema. Eles sugerem filmes, brincadeiras e vamos introduzindo o que querem dentro da didática. Temos uma inspiração na Escola da Ponte, que fica em Portugal. Gorethe já tinha essa didática dos maiores ensinarem aos menores, eu estava fazendo pedagogia e ouvi falar da escola, que tinha essa didática. As crianças são totalmente autônomas e tinha muito a ver com o que fazíamos aqui. Está dando certo, eles gostam muito”, conta Alessandra, professora.

“É comum que eles venham para cá quando não têm aula na escola”, acrescenta.

Espaço para aula do Ensino Infantil I Foto: Mirella Lopes
Plano mais imediato é cobrir a quadra I Foto: Mirella Lopes
Espaço de sala de aula I Foto: Mirella Lopes
Espaço da biblioteca I Foto: Mirella Lopes

No artesanato, foi dia de aprender a faze pulseiras trançadas com miçangas.

Eu estou aprendendo com eles porque antes eu fazia coisas bem caseiras, como avental, jogo americano. Eu era dona de casa, fui professora, casei, tive três filhos… fui indo até que cheguei naquela casinha do início do projeto. Ensino um pouco de tudo que sei para eles. A vida é uma eterna escola”, explica Maria Elisabeth Longo, voluntária.

Elisabeth Longo, voluntária

O começo…

A responsável por tudo isso é Maria Goretti Valentim. Ela fundou a Associação de uma forma despretensiosa, numa casinha com duas salas, uma cozinha e um pequeno corredor.

A gente só abria no sábado, depois começou: ‘vamos fazer isso na segunda!’ Daí as coisas foram acontecendo, foram se costurando“, lembra Goretti.

Foi um dos voluntários que manteve o salário de uma professora durante um ano inteiro no início da Associação. A Amar tem voluntários em diferentes partes do mundo e cada um ajuda com seu conhecimento nas respectivas áreas. Aliás, uma das voluntárias, que hoje está na Suíça, conseguiu muitos pontos na seleção por causa, justamente, do trabalho voluntário que realizava.

Eles elogiaram muito. Hoje as empresas buscam muito isso né“, comenta Goretti, que não sabe dizer quanto gasta para manter a casa porque cada pessoa contribui com uma coisa diferente. A casa é alugada pela maçonaria, as frutas e verduras são doadas por um comerciante da Ceasa, a energia tem desconto pelo Vale Luz com a reciclagem de lixo.

Eu digo que estou fora do mundo real porque são donativos. Muitas vezes pergunto para uma pessoa ‘trouxe a notinha?’ e respondem ‘Goretti, caridade não se fala preço’, mas eu sei que tem um custo no bolso de alguém. Temos um grupo que, quando falta uma proteína, peço a eles. Esse não é um trabalho do tipo empresa, onde você se dedica para ganhar dinheiro e mexer com banco“, conta Maria Goretti.

Na Associação as crianças têm quatro refeições por dia e ainda é distribuída comida para pessoas em situação de rua da Vila de Ponta Negra.

Há três anos contei R$ 10 por refeição e deu R$ 240 por dia. Isso também alcança os irmãos da rua [que é como elas chamam as pessoas que vivem em situação de rua]. Eles pegam as refeições pelo portão todos os dias. É café da manhã, almoço e janta, cerca de 25 refeições. Recebemos uma doação muito grande de leite do Armazém da Caridade. Eles vieram aqui trazidos pelos irmãos da rua e viram que também atendíamos essas pessoas“, conta Goretti, que também organizou doação de roupas pelo bazar.

Peças doadas para o bazar I Foto: Mirella Lopes
O cozinheiro que começou como voluntário I Foto: Mirella Lopes
Mesa pronta para a próxima refeição I Foto: Mirella Lopes

Sem casa, mas com ajuda…

Por causa da boa relação com a população em situação de rua, um deles certo dia chegou n Associação com uma vã cheia de estrangeiros que queriam conhecer o projeto, o que resultou em mais mãos amigas.

Foi quando Marcos [nome fictício], que vive na rua, chegou com Thor [nome fictício]. Essa história é muito engraçada, é um estrangeiro da Noruega e em véspera de Páscoa eles têm o costume de sair para ofertar algo para pessoas em vulnerabilidade. Ele já está há 21 anos em Natal. Ele chegou com esse morador de rua que contou que o norueguês tinha ido com os amigos entregar cestas básicas no beco do fumo, mas ele [o morador de rua] não deixou porque sabia que os colegas iam vender para trocar por drogas. Ele disse que entendeu que trazendo para cá, se transformaria em almoço e janta para aquelas pessoas”, revelou.

Uma semana depois os gringos voltaram querendo ajudar o projeto. Foram eles que financiaram a primeira reforma do espaço onde a Amar está hoje, que antes era só um lugar abandonado.

Com a Associação estruturada e legalmente formalizada, a próxima meta mais imediata parece até simples: cobrir a quadra, que hoje está exposta ao sol. Para isso, foi organizado um Concerto Musical no próximo dia 15, a partir das 17h, na sede da instituição. Mas, até o final do ano, o sonho é transformar a Amar numa escola para também receber estudantes que estão no Ensino Médio.

A meta não tem fim, porque o saber não termina. Enquanto estivermos nesse plano, não tem idade, não tem tempo. Que cada um deles cresça internamente! E não importa se vai ser um pedreiro, uma cuidadora de criança… mas que eles se empoderem de si, enquanto seres humanos, como pessoas de bem e trabalho, e possam trazer isso para o meio que eles vivem, como multiplicadores“, planeja Goretti entre lágrimas.

Goretti (à esquerda) ao lado de Marise Duarte e Júlia, braço direito da Associação I Foto: Mirella Lopes
A Amar, depois de reformada I Foto: Mirella Lopes

Como você deve ter notado, as crianças não foram fotografadas, nem entrevistadas para essa matéria. É que elas realmente vivem em situação de vulnerabilidade e qualquer exposição poderia colocá-las em algum tipo de risco, por causa de seus pais e mães.

Para participar da Associação, seja como voluntário ou doações, os integrantes pedem que, antes, você visite o local e conheça o projeto. Ao fazer isso, é só conversar com a coordenação para ver a melhor forma de ajudar. A Associação Amigos de Maria (Amar) fica na rua da Campina, nº 295, na Vila de Ponta Negra. A casa é bem fácil de ser encontrada. Sejam todos muito bem vindos!

Para mais informações, acesse as redes sociais da Amar, CLIQUE AQUI!

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.