“Coisa de Viado”: livro aborda dores, dilemas e vivências de um jovem gay
Natal, RN 16 de jun 2026

“Coisa de Viado”: livro aborda dores, dilemas e vivências de um jovem gay

1 de junho de 2025
10min
“Coisa de Viado”: livro aborda dores, dilemas e vivências de um jovem gay
Foto: Alisson Almeida

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“Coisa de Viado”, quase sempre, é uma voz acusatória que tem como objetivo classificar se seu comportamento, suas escolhas e todas as coisas que você gosta são ou não aceitáveis em uma sociedade heteronormativa. É, para usar uma linguagem psicanalítica, uma espécie de superego acessório que atua como um censor moral das suas experiências, preferências e vivências. “Tudo o que é menor é coisa de viado”, disse o professor, pesquisador e escritor Samuel de Carvalho Lima, ao refletir sobre o provocativo título do livro que lançou recentemente pela Editora Arpillera.

Nas sete crônicas que compõem o livro, narradas em primeira pessoa, o autor compartilha as angústias, as dores e os traumas que atravessaram a existência do narrador-personagem durante sua jornada escolar, compreendendo o período que vai da 5ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

Natutral de Fortaleza, Samuel, ainda criança, se mudou com sua família para o interior de São Paulo, em busca de “boas oportunidades”. Ele foi alfabetizado e cursou o Ensino Fundamental em uma escola pública de São José do Rio Preto, mas voltou para a capital cearense, no início da adolescência, onde fez o Ensino Médio, faculdade, mestrado e doutorado.

Em 2011, após passar em um concurso público para o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), mudou-se para as terras potiguares, atuando nos campi de Apodi, Macau e, atualmente, Mossoró.

O interesse em escrever o livro surgiu quase aleatoriamente, no ano passado, em meio às experiências compartilhadas com colegas do grupo nacional de profissionais que trabalham nas 41 instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.

“Nesta rede, nós temos o Fórum de Relações Internacionais. Nós temos um grupo que desperta muitas reflexões sobre o ser gay nessas interações, o ser gay ao ocupar um lugar de destaque, o ser gay nessas tensões. A gente também se diverte com isso, nessa relação com o difícil, o desafiador e o preconceito, se permitindo brincar sobre isso para como forma de não sofrer com os ataques”, detalhou.

Ao compartilhar essas vivências, surgiu, ainda em tom de brincadeira, a ideia de escrever sobre as histórias. Ele, então, decidiu levar a brincadeira a sério, escreveu as crônicas e concorreu ao edital lançado pela Editora Arpillera. Quando o livro saiu, os colegas do grupo ficaram surpresos.

“Ele escreveu mesmo?!”, reagiram os colegas, segundo Samuel, ainda incrédulos. “Inclusive, quando o livro foi lançado, os gays adultos ficam preocupados, mas eu disse: ‘calma, gente, vocês vão se surpreender’”.

O temor inicial dos colegas, segundo confidenciou o autor, era que o livro se baseasse nas histórias compartilhadas pelo grupo. As vivências narradas na obra, no entanto, não são sobre um homem gay na fase adulta, mas sim sobre um jovem gay dos 10 aos 16 anos de idade.

O “papel da memória” nas crônicas

Foto: Alisson Almeida

Em entrevista à Agência Saiba Mais, Samuel admite que o narrador-personagem, na verdade, é seu “alter ego”. Ele contou que, no início, teve receio de assumir isso, mas afirmou não ter como negar “o papel da memória” em sua narrativa.

“Não é um livro autobiográfico, até porque as outras pessoas também se reconhecem nas experiências do personagem, mas tem muito do autor na escrita. Então, sim, todas aquelas violências, em menor ou maior grau, foram ali reportadas”, diz, referindo-se ao fato de que as crônicas, apesar do estilo literário, traduzem suas experiências reais.

O incômodo causado pelo título do livro, segundo o autor, é intencional. Para ele, a expressão “se abre a muitas interpretações”, mas, na obra, ela é usada sobretudo como forma de denunciar esse discurso que, muitas vezes, “é dito nas sombras”.

“Esse discurso de que ‘isso é coisa de viado’, dito neste tom, por este sujeito que não é da comunidade, é para desqualificar, desmerecer, diminuir, reprimir, ofender e silenciar as pessoas LGBTQIAPN+”, afirma.

Samuel também acredita que o incômodo se dá porque muitas pessoas que, em determinado momento, ocuparam esse lugar de ser essa “voz acusatória”, se enxergam em alguma das sete crônicas – talvez em todas elas.

“Elas ficam com medo do que pode estar ali”, elabora, sugerindo que a narrativa poderia funcionar como um espelho que, além dos medos, sentimentos e silenciamentos vividos pelo autor-personagem, reflete também a natureza autoritária de quem aponta aquilo que considera como “coisa de viado”.

O livro, segundo o autor, também se propõe a fazer uma “reelaboração” desse discurso que tradicionalmente é usado como ofensa. Ao fazer isso, Samuel não nega a natureza agressiva da sentença, mas a subverte, usando-a para criticar a naturalização do preconceito, que muitas vezes é disfarçado de “brincadeira”.

Ao longo das crônicas, somos apresentados a um protagonista que, num primeiro momento, não compreende os próprios sentimentos, não sabe por que é submetido àquela violência diária e acredita que a única forma de evitar a dor é tornando-se invisível. No meio do caminho, ele é obrigado a encontrar uma força que desconhecia para não ser esmagado pelos seus agressores.

Do medo à coragem

Foto: Alisson Almeida

Do medo que vemos o autor explicitar em “Robocop Gay”, a crônica que abre o livro, quando seus agressores cantam, riem e debocham dele na escola, à coragem que transborda em “Luzes”, o texto que fecha a obra, quando ele se torna o capitão do time de vôlei, vemos a construção da transformação desse personagem se desenhando lentamente.

Um fato determinante para essa transformação é quando o personagem finalmente entende que gosta de “Coisa de Viado”, título da penúltima crônica do livro, ao se enxergar no advogado gay da série “Will and Grace”, transmitida de 1998 a 2006 pela rede norte-americana NBC, cujo enredo se baseia na relação entre o personagem Will Truman e a decoradora de interiores hétero Grace Adler.

“Eu tive acesso a uma série cômica chamada ‘Will and Grace’, que passava na tevê a cabo, em que um dos protagonistas era é um advogado gay bem-sucedido, divertido e que também enfrentava tensões. Lembro bem de um episódio que ele namora uma pessoa que ainda tá no armário, foi quando eu também comecei a ter acesso a essas expressões, a entender essa vivência e eu me percebi ali. Eu lembro de dizer: ‘Gente, se eu for gay, eu quero ser igual ao Will’”, contou o autor.

Na época, Samuel, atualmente com 39 anos de idade, tinha apenas 15, estava no segundo ano do ensino médio e, pela primeira vez, teve a consciência que era gay. Apesar disso, foi só ao ingressar na universidade, dois anos depois, que ele “saiu do armário para valer”.

Um “discurso ambulante”

Foto: Alisson Almeida

“Na escola, mesmo já sabendo ali, eu reprimia, ainda precisava disfarçar, o que era muito difícil, porque eu já não conseguia, já nem fazia mais sentido também querer fingir alguma coisa. Mas eu ainda não era um discurso ambulante, com essa identidade que tenho hoje, como um colega me disse recentemente”, relatou.

Samuel retoma o tema do incômodo ao avaliar que “quando você é um gay que reproduz alguns modelos, que é muito discreto e que não serve à comicidade, você é acolhido”, mas se você “é um discurso ambulante dessas causas, se posiciona muito seriamente sobre educação, sobre sociedade e sobre política, por exemplo, aí as pessoas se incomodam”.

“As pessoas começam a se preocupar, porque querem nos deixar militando só com as ‘coisas de viado’. Quando o gay ocupa um lugar de liderança, começa a incomodar demais. No meu caso, percebo as pessoas usando a minha posição, às vezes, para justamente tentar desqualificá-la”, comentou.

Estreante na carreira de escritor, Samuel é pesquisador na área de linguística, orientador de estudantes do ensino médio ao doutorado e professor de inglês há 13 anos no IFRN, onde atualmente exerce o cargo de diretor de Relações Internacionais.

Esse currículo, no entanto, não o blindou de reviver na fase adulta o preconceito enfrentado na juventude na escola onde estudou lá em Fortaleza. Ele revelou que, quando já era professor do IFRN, após uma reunião em que se posicionou sobre um determinado assunto, soube que um colega de trabalho de quem havia discordado se referiu à atitude dele como “coisa de viado”.

“É como eu digo, essas coisas não são ditas nos momentos de debate, é uma atitude covarde. Ele esperou eu estar fora da reunião para comentar com um grupo: ‘Olha, você viu o outro? Coisa de Viado’”, narrou.

Reações

O livro, como era de se esperar, despertou reações negativas vindas de setores mais conservadores, que pautaram suas críticas apenas pelo título, fazendo deduções moralistas sobre o conteúdo.

Samuel já imaginava que haveria ataques, disse estar “preparado para este começo”, mas admitiu que não sabe “até aonde a gente vai com isso”.

“Eu não sei qual seria a minha reação se houvesse alguma violência. O que eu sei é que hoje me sinto mais seguro, porque, desde 2019, nós temos a homofobia tipificada como crime. Isso precisa ser sempre ressaltado. Quem vier com violência, estará cometendo um crime de homofobia tipificado. Então, isso me dá segurança. Eu estou preparado para acessar os instrumentos que podem me defender”, disse.

Para Samuel, essas pessoas que se deixam levar pelo discurso de ódio, acreditando em informações falsas sobre uma inexistente “ideologia de gênero” que seria disseminada nas instituições de ensino, são vítimas das “estratégias de idiotização da sociedade” propagadas pela extrema-direita.

O objetivo desse discurso é interditar o debate sobre diversidade, cidadania e direitos humanos, espalhando o pânico moral para criar uma situação de barbárie.

“É a desinformação para poder incitar mais ódio, violência e idiotizar as pessoas, que realmente acreditam nisso, por não terem acesso ao conhecimento, porque nunca tiveram acesso à fonte do conhecimento, ao contexto em que ele foi produzido”, refletiu.

“Eu lamento muito porque a educação deveria ser esse instrumento de modificação disso, de mudança desse tipo de comportamento, mas existe um grupo que se recusa a aprender. Eles estão tão idiotizados que não conseguem sequer mais instrumentos para verificar as informações, que é o processo feito pela ciência”, completou.

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