Casa da Ribeira: 24 anos de cultura independente em Natal
Natal, RN 6 de jun 2026

Casa da Ribeira: 24 anos de cultura independente em Natal

30 de julho de 2025
6min
Casa da Ribeira: 24 anos de cultura independente em Natal

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Próximo da margem do Rio Potengi, em uma das esquinas da memória da cidade de Natal, um antigo casarão de 1911 segue resistindo. De hospedaria para marinheiros à oficina naval, padaria e armazém de construção civil, o edifício número 52 da Rua Frei Miguelinho já foi muitas coisas. Mas foi em 2001 que ele ganhou uma nova identidade: Casa da Ribeira, um dos mais importantes espaços culturais da Grande Natal

Idealizada pelo Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare, a Casa nasceu do desejo de jovens artistas de ter um espaço próprio para ensaiar e apresentar seus espetáculos, num tempo em que os teatros da capital potiguar careciam de pautas disponíveis. “A ideia surge em 1998, diante da urgência de criar um lugar de autonomia para a arte. A ocupação do casarão foi um gesto de ousadia”, lembra Alessandra Augusta, representante legal da Casa.

De lá para cá, são 24 anos de ocupação artística e política de um território marcado pela precarização e esquecimento. Hoje, a Casa da Ribeira é mais que uma sala de espetáculos, é um organismo vivo, voltado à educação pela arte, formação de público, democratização cultural e equidade racial e de gênero.

O desafio de restaurar e manter um sonho coletivo

Entre 1999 e 2001, o casarão passou por um cuidadoso processo de restauração viabilizado por meio das Leis de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet e Lei Câmara Cascudo). A captação de recursos envolveu negociações com empresas privadas, como Cosern, Petrobras, Telemar e Armazém Pará. “Foram dois anos batendo na porta de patrocinadores. Um trabalho de formiguinha”, conta Alessandra.

Desde então, a manutenção da Casa segue sendo um desafio. Sem apoio fixo de patrocinadores ou verba pública contínua, o espaço sobrevive da elaboração de projetos (80% da renda) e da locação de pautas (20%). “Acreditamos que a gestão independente facilita o acesso e a educação através da arte. Mas a ausência de políticas públicas estruturantes ainda é um entrave.”

Um farol na Ribeira

Estar localizado no bairro da Ribeira é parte fundamental da identidade do espaço. “O simbolismo de ocupar um território historicamente marginalizado é imenso. Aqui, resistimos não apenas com arte, mas com a defesa do direito à cidade”, afirma Alessandra.

Essa resistência tem sido posta à prova. Nos últimos anos, a Casa sofreu com a violência urbana: entre setembro de 2024 e janeiro de 2025, o espaço foi alvo de quatro furtos, com prejuízos significativos. Ainda assim, continua de pé. “A insegurança não nos cala. Seguimos com indignação, mas com determinação.”

Casa + Negra Diversidade

Para o quadriênio 2024-2028, a Casa da Ribeira lançou o programa Casa + Negra Diversidade, priorizando projetos voltados para pessoas negras, LGBTQIAPN+ e oriundas das periferias. Essa política atravessa toda a programação, desde os cursos gratuitos da Escola de Criação até a seleção de espetáculos por meio de editais.

“É uma prática afirmativa e decolonial. Acreditamos na arte como ferramenta de equidade e transformação”, reforça Alessandra. A iniciativa também assegura 50% das vagas em cursos e ações para grupos sub-representados.

Escola de Criação: espaço-tempo para imaginar outros futuros

A Escola de Criação, consolidada em 2023, é hoje um dos pilares da Casa. Em dois anos, a iniciativa ofertou seis cursos gratuitos com artistas como Clotilde Tavares, Henrique Fontes, Ana Cláudia Viana e Di Gatti. Foram 150 vagas preenchidas, 162 horas de formação e um livro publicado: Escola de Criação – primeiras dramaturgias, com sete textos autorais de educandos(as/es).

A proposta da Escola vai além da técnica. “Apostamos nas subjetividades como potência. Queremos empolgar, despertar ética e coletividade. A criação é o nosso meio de formação crítica e emancipatória”, explica Alessandra.

Formação, circulação e memória

Ao longo de sua história, a Casa desenvolveu uma série de projetos de formação e difusão artística. Iniciativas como Ruas da Memória, ArteAção, Cena Jovem, Educativo Independente, o Festival FICA e o já citado Cena Aberta impactaram centenas de jovens da rede pública, muitos dos quais seguiram carreira nas artes.

Só o Cena Aberta já abriu 29 editais de ocupação, promovendo a circulação de artistas locais, regionais e nacionais. Os critérios de seleção priorizam a qualidade artística e o alinhamento com os princípios da Casa: inclusão, diversidade e valorização das artes contemporâneas. “Nossa curadoria é atenta. Não admitimos conteúdos que reproduzam racismo, lgbtfobia ou capacitismo.”

Mais de 2.810 espetáculos já passaram pela Casa da Ribeira. São mais de 540 mil espectadores alcançados ao longo de mais de duas décadas. Mas o maior impacto talvez não esteja nos números, e sim nas vidas transformadas pela presença da arte.

Pesquisas com o público, retorno de ex-alunos, alcance nas redes e a relação direta com comunidades de periferia são as formas como a equipe da Casa monitora esse impacto. “Nosso público majoritário tem entre 25 e 45 anos, e muitos são pessoas que nunca haviam frequentado um teatro antes.”

A Casa já viveu momentos difíceis. Em 2004, chegou a fechar as portas por meses. “Foi um dos momentos mais duros. Mas conseguimos reabrir com o apoio de parceiros que acreditaram no nosso projeto”, relembra Alessandra. Em 2025, a realidade é semelhante: os desafios financeiros continuam, assim como a determinação.t

“A Casa contribuiu, sim, para descentralizar o acesso à cultura. Mas Natal ainda carece de mais espaços abertos à sociedade civil”, avalia. Para o futuro, os gestores esperam ampliar a Escola de Criação e buscar reconhecimento junto ao MEC, além de continuar ocupando a Ribeira com arte e memória.

Contra o apagamento

A Casa da Ribeira não apenas ocupa um espaço físico, mas também simbólico. Ao manter viva a história de um prédio centenário em um bairro estigmatizado, o espaço atua contra o apagamento histórico e cultural. “Nosso trabalho é preservar, mas também criar. É fazer memória viva, crítica, presente.

Para quem deseja seguir por esse caminho, Alessandra deixa o recado: “É preciso pensar em gestão, articulação com patrocinadores, inscrição em editais e leis de incentivo. E sobretudo: acreditar. Porque manter um espaço cultural é um ato de fé, resistência e amor pela arte.”

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