Matheus Faustino reproduz “tática do insulto” como arma política usada pelo MBL
Natal, RN 16 de jun 2026

Matheus Faustino reproduz “tática do insulto” como arma política usada pelo MBL

26 de agosto de 2025
15min
Matheus Faustino reproduz “tática do insulto” como arma política usada pelo MBL
Foto: Reprodução TV Câmara

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Ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), grupo de extrema-direita criado no final de 2014, conhecido pelo uso da “tática do insulto” para constranger adversários políticos, o vereador Matheus Faustino (União Brasil) reproduz em seu mandato o “modus operandi” que deu projeção nacional a figuras como o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP), o ex-deputado estadual Arthur do Val (União Brasil-SP) e o vereador Fernando Holiday (PL-SP)

Faustino escolheu a vereadora Brisa Bracchi (PT) como “alvo do momento”. Famoso por constranger, intimidar e provocar opositores, ele acusou a petista de “quebra de decoro parlamentar” ao “permitir intimidação” contra o servidor que foi notificá-la, na última sexta-feira (22), sobre a abertura do processo de cassação do seu mandato na Câmara Municipal de Natal (CMN).

O pedido de cassação foi apresentado pelo próprio Matheus Faustino, na última terça-feira (19), alegando que a vereadora usou recursos públicos de emendas impositivas para financiar um evento com “finalidade político-partidária.”

O que Faustino chamou que “intimidação” contra o servidor da CMN, na verdade, foi um ato que movimentos sociais, coletivos de esquerda e parlamentares petistas organizaram em defesa do mandato de Brisa.

Em suas redes sociais, o vereador acusou os manifestantes de fazerem um “corredor polonês” para “constranger” o chefe da Procuradoria Legislativa.

As imagens da manifestação, divulgadas nas redes sociais da própria vereadora Brisa Bracchi, desmentem a versão de Matheus Faustino. Os registros não mostram, em nenhum momento, o servidor sendo hostilizado pelos manifestantes.

Durante o ato, os apoiadores da parlamentar entoaram palavras de ordem em defesa do mandato da petista, denunciaram a ofensiva conservadora e reafirmaram que o pedido de cassação é uma tentativa de calar a oposição ao prefeito Paulinho Freire (União Brasil).

Início no MBL

Faustino iniciou o seu ativismo político em 2022, quando passou a integrar o MBL, fundado pelo empresário Renan dos Santos, pelo deputado federal Kim Kataguri e pelo ex-deputado estadual Arthur do Val, que ficou famoso no YouTube pelo apelido de “Mamãe Falei”.

O grupo surgiu no esteio da operação “Lava Jato”, convocando protestos contra o PT e pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, passando a ter mais visibilidade a partir de 2015.

O MBL cresceu utilizando as redes sociais como principal ferramenta de mobilização para difundir seus ideais, que no início se resumiam à suposta “luta contra a corrupção”, a favor da Lava Jato e pela derrubada do PT.

Depois, o grupo incorporou ideias da chamada “agenda de costumes”, quando passou a travar uma batalha cultural contra pautas progressistas, como direitos humanos, igualdade de gênero e o combate à LGBTfobia.

A partir de então, adotaram o slogan “liberais na economia, mas conservadores nos costumes” como uma espécie de resumo dos seus ideais políticos.

Desde sua fundação, o grupo se notabilizou pelo discurso agressivo, pela postura intimidatória e pela abordagem provocativa contra políticos de esquerda como tática de constrangimento.

Nas manifestações contra Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016, eram comum ouvir ataques machistas de integrantes do MBL. A ex-presidente era chamada de “burra”, “vagabunda” e “prostituta”. Eles também usaram frases como “vai para o tanque” para dizer, nas entrelinhas, que o lugar dela não era na política.

Cassação de Arthur do Val

Em março de 2022, o movimento sofreu um abalo após o vazamento de áudios de Arthur do Val fazendo comentários sexistas sobre ucranianas, durante visita ao leste europeu, a pretexto de cobrir a guerra na Ucrânia.

Nos áudios a amigos, divulgados posteriormente pela imprensa, ele elogiava a beleza das refugiadas ucranianas e dizia que as mulheres de lá são “fáceis” por serem pobres.

“Assim que essa guerra passar, eu vou voltar pra cá. Detalhe: elas olham e são fáceis, porque elas são pobres. Aqui minha carta do Instagram, cheia de inscritos, funciona demais. Não peguei ninguém, a gente não tinha tempo, mas colei em dois grupos de minas e é inacreditável a facilidade”, disse o ex-deputado em um trecho do áudio enviado em um grupo privado no WhatsApp.

Em maio, após a repercussão do escândalo dos áudios, Arthur do Val foi cassado pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) por quebra de decoro parlamentar.

A cassação foi aprovada pelos 73 deputados que estavam presentes à votação. Depois de cassado, “Mamãe Falei” se tornou inelegível pelo período de oito anos. Ele, no entanto, mantém sua influência no MBL.

Faustino disse que “Mamãe Falei” era uma de suas “inspirações políticas”

Faustino disse que Arthur do Val, cassado por quebra de decoro parlamentar pela Alesp, é uma de suas “inspirações políticas”. Foto: Reprodução Redes Sociais

Em entrevista a uma rádio local após ser eleito vereador em 2024, Matheus Faustino cita Arthur do Val, ao lado de Kim Kataguiri, como uma de suas “inspirações políticas”.

Em fevereiro de 2024, antes de ser eleito vereador, Faustino viajou com Arthur do Val para a Ilha de Marajó após a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) disseminar uma fake news sobre uma suposta rede de exploração sexual de crianças que também envolveria tráfico de órgãos no arquipélago de 107 mil habitantes no Pará.

O Ministério Público Federal (MPF) está processando a senadora por fake news e pede uma indenização de R$ 5 milhões.

Faustino reproduz táticas do MBL

Em Natal, Faustino reproduz à risca a tática da “nova direita” que faz do insulto uma arma política, usada nacionalmente pelo MBL. Um dos principais alvos do então ativista, antes de se tornar vereador, foi a deputada federal Natália Bonavides (PT), candidata a prefeita em 2024.

No dia 19 de fevereiro do ano passado, Faustino tentou invadir um evento da pré-campanha de Natália na Cervejaria Resistência, no bairro de Ponta Negra, que contou com a presença do ex-deputado federal Marcelo Freixo (PT-RJ), atual presidente da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).

Faustino abordou Freixo na chegada ao evento perguntando sobre uma declaração do presidente Lula (PT) a respeito do genocídio de Israel contra os palestinos em Gaza.

A tentativa de “lacração”, como se diz nas redes sociais para designar a ação de alguém que quer apenas obter visibilidade com uma polêmica superficial, não surtiu efeito. Freixo ignorou Faustino, deixando-o falar sozinho do lado de fora do evento.

Na chegada de Natália Bonavides, Faustino tentou abordar a deputada com o mesmo objetivo, mas não conseguiu se aproximar dela. Em vídeo editado publicado em suas redes sociais, ele deu a entender que a parlamentar “fugiu” da pergunta dele.

Agressão a Gleisi Hoffmann

Gleisi Hoffmann acionou Polícia Federal para investigar agressão de Matheus Faustino no Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante. Foto: Reprodução

O episódio que lhe rendeu mais projeção aconteceu no dia 15 de março de 2024, quando ele se envolveu numa confusão com o deputado federal Fernando Mineiro (PT) no Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante.

O petista aguardava a chegada da ex-presidente Nacional do PT, Gleisi Hoffmann, atual ministra da Secretaria de Relações Institucionais, que vinha a Natal participar de um ato da pré-campanha de Natália.

Ao desembarcar no aeroporto, Gleisi foi abordada pelo ex-influenciador do MBL, acompanhado de outros integrantes do grupo, que registravam tudo com celulares para fazer os cortes que depois iriam para as redes sociais.

De acordo com o deputado federal Fernando Mineiro, eles constrangeram, gritaram e pressionaram Gleisi Hoffmann. Em determinado momento, Faustino aponta para a ministra dizendo que ela foi a “primeira senadora ré na Lava Jato”.

Gleisi, no entanto, foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2018. Ao ouvir a provocação do ex-influenciador do MBL, Gleisi o chama de “idiota”.

As imagens mostram que Faustino chega a encostar o celular no rosto de Gleisi. Diante da agressão, Mineiro deu um tapa no celular de uma das pessoas que acompanhava o então pré-candidato a vereador e filmava a abordagem dele contra a ex-presidente Nacional do PT.

Faustino publicou um corte editado da confusão nas redes sociais dizendo que havia sido “agredido” pelo petista. Mineiro afirmou que apenas reagiu para afastar os militantes do MBL devido aos “ataques misóginos” contra Gleisi, que acionou a Polícia Federal para investigar o caso.

A confusão ganhou repercussão nacional, ajudando o até então desconhecido Matheus Faustino a ganhar visibilidade e a ser eleito vereador com mais de 5 mil votos em 2024.

Saiba Mais: Influenciador do MBL em Natal é conhecido por provocações

Empossado, Faustino continua apostando na provocação contra adversários

Já na Câmara Municipal, Faustino manteve o estilo de “guerra constante” do MBL, com ataques rotineiros aos adversários de esquerda, a movimentos sociais e a servidores públicos.

Logo na segunda sessão ordinária do ano, realizada no dia 19 de fevereiro, ele colocou em prática a tática de provocar os opositores ao chamar a vereadora Brisa Bracchi pejorativamente de “franjinha”.

A provocação chamou a atenção até do líder da bancada governista na CMN, Aldo Clemente (PSDB), que lembrou a Matheus Faustino que vereadores que cometessem “excessos” estariam sujeito à Comissão de Ética.

Brisa interveio afirmando que, dentro do parlamento, fazia questão de ser chamada de “Vossa Excelência, Vereadora Brisa ou Vereadora”.

“É lamentável que as sessões da Câmara Municipal comecem com intervenções de baixo nível. A divergência de pensamento não pode se transformar em chacota ou em atitudes violentas. Não permitirei que a zombaria ou a provocação prevaleçam. Exijo respeito, porque foi o povo que me trouxe até aqui“, protestou, na ocasião, a parlamentar.

Saiba Mais: Vereador ligado ao MBL debocha de Brisa e leva invertida em Natal

Faustino intimidou manifestantes que protestavam contra homenagem a Bolsonaro

Faustino parte para cima de manifestantes que protestavam contra título de “Cidadão Natalense” para Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução

Em outro episódio ilustrativo do seu “modus operandi”, Matheus Faustino tentou intimidar manifestantes que ocupavam as galerias da CMN, no dia 9 de abril, em protesto contra a votação do título de “Cidadão Natalense” para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), proposto pelo vereador Eliabe Marques da Silva (PL).

O grupo protestou com cartazes, faixas e palavras de ordem contra a homenagem a Jair Bolsonaro, que é acusado de chefiar a organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado após as eleições de 2022, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Incomodado com o protesto, o vereador Eliabe Marques da Silva, propositor da homenagem, pediu que os manifestantes fossem retirados das galerias da CMN, alegando que seu colega Matheus Faustino havia sido “desacatado”.

Faustino alegou que havia sido agredido por uma das pessoas que participavam do protesto com um soco na barriga, mas um vídeo que circulou nas redes sociais mostrou, na verdade, o vereador indo para cima do manifestante.

“Você não vai intimidar assessor meu aqui não”, disse o vereador ao manifestante. Depois de discursar em plenário, ele se dirigiu às galerias, confrontou os manifestantes e, com o dedo em riste, tentou impedir a continuidade do protesto.

O sindicalista Marcone Olímpio relatou à reportagem da Agência Saiba Mais que o vereador “perdeu o controle” após ouvir sua alegada “independência” como parlamentar ser questionada.

“Ele discursou dizendo que era independente, não pertencia a nenhum grupo, nem da situação nem da oposição, mas recebeu R$ 30 mil em doação eleitoral da campanha do prefeito Paulinho Freire. Eu disse isso, um assessor dele ouviu e foi contar a ele, que saiu do plenário e veio para cima de mim com gosto de gás”, contou o manifestante.

Saiba Mais: Vereador ligado ao MBL tenta intimidar manifestantes na Câmara de Natal

Apesar de se dizer “independente”, Faustino recebeu R$ 30 mil em doação de Paulinho Freire

Divulga Cand mostra que Matheus Faustino recebeu mais de R$ 30 mil em doações de Paulinho Freire nas eleições de 2024. Foto: Reprodução

A revelação da doação de Paulinho Freire a Matheus Faustino foi feita pelo vereador Daniel Valença (PT), no dia 2 de abril, durante a reunião de instalação da “CEI das Invasões”, criada para o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).

Na reunião, Faustino se apresentou como “o único agente independente” porque, segundo ele, não faria parte da “bancada do governo”. Daniel Valença rebateu o parlamentar lembrando que ele recebeu “R$ 30 mil de Paulinho Freire” em doações eleitorais na campanha de 2024.

Faustino disse que os recursos haviam sido doados pelo União Brasil, mas os dados oficiais do “Divulga Cand” mostram que o dinheiro foi efetivamente doado pelo prefeito Paulinho Freire.

Saiba Mais: “Recebeu R$ 30 mil de Paulinho Freire”, diz Daniel Valença sobre vereador do MBL

Presidente do Cremern acusa Faustino de “cometer crime” e “adoecer” servidores das UPAs

“Esse sujeito está adoecendo as pessoas que trabalham nas unidades de saúde”, disse presidente do Cremern sobre Matheus Faustino. Fotos: Elpídio Júnior (1) e Francisco de Assis (2)

O vereador também foi acusado pelo presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern), Marcos Jácome, de “adoecer as pessoas” e “cometer um crime” ao supostamente fiscalizar o funcionamento das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Natal.

A declaração do presidente do Cremern se deu em uma audiência pública da Comissão de Saúde, Previdência e Assistência Social da Câmara Municipal, na segunda-feira (18), que debateu o regime de contratação dos médicos pela Prefeitura de Natal.

“Esse sujeito está adoecendo as pessoas que trabalham nas unidades de saúde. Ele não pode continuar fazendo isso. Ele está cometendo um crime, dizendo que está fazendo fiscalização. Em breve trarei para os senhores que estão aqui presentes o resultado de uma ação que está por vir. Ele não pode continuar fazendo isso. Não deve. Não é para o bem da saúde, não é para o bem da sociedade potiguar”, denunciou o presidente do Cremern.

Faustino, com o desdo em riste, initmida médico na UPA de Cidade da Esperança. Foto: Reprodução YouTube

No final de fevereiro, Faustino causou tumulto na UPA de Cidade da Esperança, na Zona Oeste de Natal. A pretexto de realizar uma “ação de fiscalização”, ele atrapalhou o funcionamento, constrangeu servidores e saiu se dizendo “ameaçado” por um médico que não autorizou que o parlamentar invadisse uma consulta e filmasse o atendimento.

Em seu canal no YouTube, o vereador publicou uma versão editada de pouco mais de 20 minutos de imagens da visita à UPA. Ele disse que, enquanto fiscalizava a Unidade de Pronto Atendimento, um médico tentou lhe “intimidar” para que ele parasse de gravar e “denunciar o descaso na saúde pública”.

O médico, identificado como Fábio Smith, afirmou que não gostou da abordagem do vereador, que entrou no consultório enquanto ele atendia a um paciente.

O profissional ponderou que o parlamentar tem o direito de fiscalizar, mas que ele foi “ofensivo” e “invasivo”. O vereador alegou que não expôs o paciente, mas o profissional alertou que a consulta tem a prerrogativa do sigilo e que nem ele nem o paciente autorizaram a filmagem.

Saiba Mais: Vereador ligado ao MBL bate-boca com médico em UPA de Cidade da Esperança

Em nova incursão empunhando um celular, acompanhado de seus assessores, para fiscalizar o trabalho na UPA do Planalto, na Zona Oeste de Natal, Faustino foi hostilizado pelas pessoas que aguardavam atendimento após tentar intimidar os profissionais de saúde.

Em vídeo que circulou nas redes sociais, é possível ouvir a população reagindo à intimidação do vereador aos profissionais de saúde mandando ele “procurar outra coisa para fazer”, além de ser chamado de “vereador de quinta categoria”.

Saiba Mais: Presidente do Cremern diz que Faustino “está adoecendo as pessoas”

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