Paulinho Freire mantém silêncio após uma semana de crise na Saúde de Natal
Natal, RN 22 de jun 2026

Paulinho Freire mantém silêncio após uma semana de crise na Saúde de Natal

8 de setembro de 2025
7min
Paulinho Freire mantém silêncio após uma semana de crise na Saúde de Natal
Fotos: Reprodução Redes Sociais / Marco Polo/Prefeitura do Natal

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A crise na saúde pública da capital chegou ao sétimo dia sem que o prefeito de Natal, Paulinho Freire (União Brasil), se pronuncie sobre o colapso que atinge Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), hospitais e maternidades municipais. Ao se omitir agora, ele repete o silêncio adotado em outras situações críticas, como quando a cidade sofria com alagamentos em diversos bairros. Em vez de visitar os locais atingidos pelas chuvas, o gestor foi visto à época na festa de aniversário do cantor Luiz Carlos, vocalista do grupo Raça Negra, em um bar na zona sul de São Paulo.

O silêncio do prefeito é seguido pelos integrantes da bancada governista na Câmara Municipal de Natal (CMN). A Comissão de Saúde, formada pelos vereadores Camila Araújo (União Brasil), Luciano Nascimento (PSD), Cleiton da Policlínica (PSD), Herbert Sena (PV), João Batista Torres (DC), Cláudio Custódio (PP) e Robson Carvalho (União Brasil), não se manifestou sobre a situação.

Enquanto o prefeito se mantém calado, a população sofre as consequências de uma disputa judicial entre a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e a Cooperativa Médica do Rio Grande do Norte (Coopmed-RN) envolvendo a prestação de serviço nas UBSs e nas UPAs de Natal.

O problema se agravou na última segunda-feira (1º), quando duas novas empresas, Justiz e Proseg, assumiram os serviços médicos das UBSs e UPAs de Natal, depois de vencerem o editar de contratação emergencial, com dispensa de licitação, feito pela SMS. Antes, o atendimento era prestado pela Coopmed.

O contrato anual passou de R$ 144 milhões para R$ 208 milhões, mas o repasse aos médicos caiu de R$ 1.600 para R$ 1.200 por plantão, inviabilizando a formação completa das escalas. Desde então, pacientes enfrentam filas, atrasos e até ausência total de atendimento.

A Coopmed contestou a contratação e obteve decisão da 6ª Vara da Fazenda Pública de Natal determinando que a SMS republicasse o edital, com reabertura de prazo para novas propostas.

A Prefeitura de Natal, no entanto, entrou com um recurso junto ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), que foi deferido parcialmente pelo desembargador Glauber Rêgo.

O desembargador manteve o processo da contratação, mas afastou a cláusula que exigia que as empresas apresentassem registro junto ao Conselho Regional de Administração do RN (CRA-RN).

Em outro capítulo dessa disputa judicial em torno dos contratos emergenciais da saúde, o juiz convocado Luiz Alberto Dantas Filho, relator do processo na Primeira Câmara Cível do TJRN, determinou novamente a suspensão da Dispensa de Licitação nº 003/2025.

A SMS retirou a exigência do registro no Conselho Regional de Administração, mas, em vez de republicar o edital para que outras empresas pudessem participar do processo, como determinava a decisão judicial, publicou apenas um “aviso de rerratificação”, sem dar novo prazo para outras propostas.

O juiz levou em conta a existência de “um ambiente de profunda litigiosidade” em torno da dispensa eletrônica e a necessidade de proteger o erário público, tendo em vista o alto valor envolvido – cerca de R$ 208 milhões.

Na semana passada, o juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública de Natal, Francisco Seráphico da Nóbrega Coutinho, mandou intimar a SMS para cumprir a determinação judicial anterior que mandava republicar o edital e reabrir o prazo para as empresas interessadas em prestar serviços nas UBSs e nas UPAs de Natal.

A intimação tem como objetivo dar “ciência e cumprimento” à decisão que “determinou a suspensão da execução dos contratos nº 005/2025 e n° 006/2025, oriundos do procedimento de Dispensa Eletrônica nº SMS 003/2025, até que seja comprovado nos autos o efetivo cumprimento das determinações judiciais quanto à republicação do edital com reabertura de prazo para participação de terceiros interessados”.

A decisão também recomendava que a SMS “se abstenha de dar início à prestação de serviços” referente aos contratos com a Justiz e a Prosseg. As empresas, no entanto, assumiram os atendimentos no último dia 1º.

Consequências na rede de saúde

O efeito prático foi imediato: hospitais e maternidades passaram a conviver com falta de médicos e denúncias de improvisos arriscados. O “Diário do RN” relatou três mortes no Hospital dos Pescadores em apenas dois dias, em meio à falta de profissionais.

O “Agora RN” denunciou plantões quase ininterruptos, ausência de obstetras e até o uso de um residente de urologia em cesariana na Maternidade Leide Morais.

A crise se expandiu para instituições parceiras. A Liga Contra o Câncer suspendeu as cirurgias eletivas a partir desta segunda-feira (8), após já ter interrompido atendimentos ambulatoriais na semana passada.

No Hospital Infantil Varela Santiago, as cirurgias pediátricas continuam suspensas, com mais de 70 procedimentos cancelados desde o início da crise.

Enquanto isso, o secretário municipal de Saúde, Geraldo Pinho, anunciou mudanças nas direções dos hospitais, maternidades, UPAs e do Samu, em uma tentativa de dar resposta à crise, mas sem enfrentar o problema central: os contratos emergenciais contestados judicialmente.

O Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed) acionou o Conselho Regional de Medicina (Cremern), pedindo fiscalização urgente na rede municipal.

OSS e recuo da Prefeitura de Natal

A Prefeitura de Natal, paralelamente à crise no atendimento, planejava entregar a gestão das quatro UPAs de Natal a Organizações Sociais de Saúde (OSS) a partir de 15 de setembro.

A iniciativa, no entanto, foi suspensa após parecer do Ministério Público de Contas (MPC), que apontou riscos e inconsistências no processo.

Com isso, a crise se agrava em duas frentes: de um lado, a precarização do atendimento com contratos emergenciais; de outro, a incerteza sobre o futuro modelo de gestão das UPAs.

Privatização mostra sua face”, diz dirigente do Sindsaúde

Para o diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Rio Grande do Norte (Sindsaúde-RN), Henrique Eduardo Pereira, a crise atual na rede municipal de saúde é reflexo direto do processo de privatização iniciado pela Prefeitura de Natal com a contratação emergencial das empresas Justiz e Proseg.

De acordo com ele, os médicos se recusaram a aceitar as condições de trabalho impostas. Além disso, um protocolo de redução de custos com exames e medicamentos estaria limitando a integralidade do atendimento, princípio que assegura desde a prevenção até a reabilitação dos pacientes.

Henrique denuncia ainda que pacientes internados no setor verde das UPAs – com possibilidade de evolução para casos mais graves – teriam recebido alta sem avaliação prévia, apenas para transmitir a impressão de que não havia sobrecarga no serviço. “Muitos estavam em uso de antibióticos que não poderiam ser interrompidos”, afirma.

Outro ponto crítico, segundo o sindicalista, é que as triagens não estariam encaminhando pacientes de classificação azul e verde, que passam a ser direcionados para as UBS, unidades sem estrutura suficiente para absorver a demanda.

Ele também aponta queda acentuada na oferta de medicamentos e exames, o que, na prática, explicaria a “economia” alardeada pela gestão municipal: “sem diagnóstico e tratamento, os gastos diminuem, mas a população perde acesso ao atendimento integral”.

Henrique ainda ironiza o fato de, “de forma milagrosa”, terem desaparecido os registros de surtos psicóticos que frequentemente chegavam às UPAs antes da terceirização: “certamente há uma melhoria de custos para a prefeitura, mas nunca para a população”.

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