UFRN discute memória e justiça nos 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog
O Departamento de Comunicação Social da UFRN promoverá no dia 28 de outubro (quarta-feira), no auditório I do Labcom, às 19h, a mesa redonda intitulada “Jornalismo e memória: 50 anos de luta por justiça para Vladimir Herzog”. Com a realização da mesa, o Departamento de Comunicação da UFRN e seus grupos de pesquisa se associam à série de eventos promovidos no Brasil para assinalar os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido em 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo.
Está confirmada a participação do engenheiro Ivo Herzog, filho de Vladimir e Clarice Herzog. Ele é um dos fundadores do Instituto Vladimir Herzog, entidade sem fins lucrativos que tem como missão a defesa dos valores democráticos, dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Ivo participará de sessão por videoconferência.
Também participam a professora Maria da Conceição Fraga, autora do livro “60 anos da ditadura civil-militar no Rio Grande do Norte”; a jornalista Isadora Morena, articuladora regional da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores; e o jornalista Pedro Otávio Dias, que será o mediador.
A mesa faz parte da ação de extensão “Fascismo Nunca Mais”, uma iniciativa do Departamento de Comunicação Social da UFRN, por meio dos grupos de pesquisa Descom (Insurgências Decoloniais, Comunicação, Artes e Humanidades); Pragma (Pragmática da Comunicação e da Mídia); Comídia (Comunicação, Cultura e Mídia) e OBTEP (Observatório de Tendências em Publicidade).
O projeto reúne uma série de eventos que visam debater as múltiplas manifestações sócio-históricas do fenômeno do fascismo. A iniciativa foi pensada no contexto do atual cenário fragilizado do jornalismo potiguar e das constantes ameaças à liberdade de imprensa no Brasil.
Em maio deste ano foi realizada uma audiência pública na Assembleia Legislativa do para debater uma série de demissões de jornalistas, ocorridas em veículos de mídia do Estado. Meses depois, em agosto, o professor Adriano Gomes, do Departamento de Comunicação da UFRN, foi vítima de agressões verbais e ameaças após criticar o fascismo em discurso na colação de grau dos cursos do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).
Inscrições
A atividade é aberta a estudantes de graduação e pós-graduação, e ao público externo. As inscrições podem ser feitas pelo Sigaa, na área pública do sistema: Extensão – Eventos – “Fascismo Nunca Mais” (nome do evento).
De acordo com uma das organizadoras da mesa, a professora Socorro Veloso, a iniciativa é essencial para os debates sobre memória, verdade e justiça e para a defesa da democracia. “Lembrar das circunstâncias da morte de Herzog e da luta de sua família por justiça é um modo de refletirmos sobre o tempo presente e os desafios que se impõem à prática do jornalismo no Brasil, que segue ameaçada pelas forças do fascismo”, afirmou.
O legado de Herzog
Vladimir Herzog foi jornalista, professor e cineasta. Ele nasceu em 27 de junho de 1937, em Osijek, na antiga Iugoslávia – atualmente Croácia. Ainda criança, emigrou com a família para a capital paulista, onde se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Em 1959, começou sua carreira como repórter do jornal O Estado de S. Paulo, e passou por diversos veículos de imprensa, como a rádio BBC de Londres e a TV Cultura. Ele se especializou em jornalismo cultural, em especial na crítica de cinema, participando também de produções cinematográficas. Na década de 70, se tornou professor de jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da USP.
Vlado, como era mais conhecido, começou a ser investigado pelos militares sob suspeita de envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia 24 de outubro de 1975, foi chamado para prestar esclarecimentos na sede do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). O jornalista informou que estaria disponível na manhã do dia seguinte para o interrogatório e compareceu espontaneamente.
No local, ele foi interrogado, torturado e assassinado, mas o Serviço Nacional de Informações informou que a causa da morte teria sido suicídio. O crime causou grande repercussão. Em um evento ecumênico celebrado no sétimo dia da morte do jornalista, mais de 8 mil pessoas compareceram à Catedral da Sé, em São Paulo, num dos primeiros grandes atos contra a ditadura militar.
No ano seguinte, em 1976, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo enviou à Justiça Militar o manifesto “Em nome da verdade”, denunciando a falta de esclarecimentos em relação às circunstâncias da morte de Vlado. Em 1978, a Justiça brasileira condenou a União pela prisão ilegal, tortura e assassinato do comunicador.
Já no período de redemocratização, em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente que Vlado foi assassinado. No entanto, a causa da morte na certidão de óbito só seria retificada em 2013. No início deste mês o documento recebeu outra retificação, mais precisa. Também neste ano, em junho, o Estado brasileiro pediu desculpas pela morte de Vladimir Herzog e fez um acordo para indenização à família do jornalista.