A vesga e a lésbica
Natal, RN 28 de jun 2026

A vesga e a lésbica

28 de junho de 2026
3min
A vesga e a lésbica
Foto: arquivo pessoal

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Lá vinha a moça, um tanto tímida, com seus 30 e poucos anos, uma beleza incomum, um passo atrás do outro, olhos fixos à frente, passando pelo meio de uns oito adolescentes entregues ao ócio debaixo do bloco, em Brasília. Os olhos, como eu disse, permaneciam presos a um ponto adiante e revelavam um evidente grau de estrabismo. Eu devia ter uns 12 ou 13 anos naquela época e ainda procurava o significado das palavras.

A mulher passou prendendo a respiração, meio constrangida diante do súbito silêncio da molecada. Quando já estava a uma boa distância, quase a perder de vista, fiz o comentário, quase um sussurro, que deixou meus amigos atônitos e sem chão:

– Vocês viram? Essa mulher é lésbica.

Os olhos se voltaram para mim arregalados. Como assim? Nossa vizinha ? Como você sabe? Você viu alguma coisa? Onde ela mora? Que história é essa !?  

Para cada cabeça e mente poluída pelas descobertas sexuais da adolescência, um canavial de dúvidas e um balaio de curiosidades. Instalou-se ali, por alguns minutos, um tribunal rodrigueano. Eu, moleque candango, mascote da turma, filho de pais funcionários públicos, fui por alguns minutos o próprio menino que enxergava a vida pelo buraco a fechadura.

O garoto que via – e vivia – a vida como ela é. Um autêntico personagem de Álbum de Família, uma das peças censuras de Nelson Rodrigues: o filho que aparentemente viva numa família margarina feliz, mas nas entocas estava imerso em relações incestuosas e ideias meticulosamente pervertidas.

Naquele instante, admito, não entendi o alvoroço da turma.

“Vocês não perceberam? Está na cara”, devolvi, entre o blasé e a inocência, uma única resposta para o interrogatório.  

Meus amigos se entreolharam meio que tentando entender a maior revelação de que se tinha notícia no Plano Piloto desde a chegada de Juscelino. Estávamos na primeira metade dos anos 1990, ainda armazenávamos nossa memória em disquetes, e a vida era tudo aquilo que passava, para lá e para cá, debaixo dos blocos armados de concreto e seus pilotis coloridos.

Não lembro quem foi o mais incisivo – se o Batata, o Marquinho ou Ganso -, aquele que me arrancou a confissão pública, no fundo buscando os mínimos detalhes:

“Como você sabe que a mulher é lésbica?”

Com a minha resposta, instaurou-se o universo em desencanto:

– Gente, vocês não viram a cara dela, os olhos trocados?

“O quê ? Que a mulher é vesga !?”

– Sim. Então… lésbica, né ? Não é a mesma coisa?

O tempo parou por dois segundos e, se lembro bem, até seo Dedé, o zelador que ouvia conversa limpando o chão do bloco, rachou o bico.

A rua é a gramática da vida.

Pior que esse dia só quando desci com o terceiro olho estampado na testa.

Mas essa é história para outro dia.  

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