Há 91 anos, três operários colocavam no ar a primeira rádio de Natal
Natal, RN 18 de jun 2026

Há 91 anos, três operários colocavam no ar a primeira rádio de Natal

18 de junho de 2026
7min
Há 91 anos, três operários colocavam no ar a primeira rádio de Natal

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Quando a noite caiu sobre Natal em 18 de junho de 1935, a cidade ainda era pequena. Com pouco mais de 40 mil habitantes, ruas tranquilas e poucos aparelhos receptores espalhados pelas casas, a capital potiguar começava a ouvir uma novidade tecnológica que transformava a comunicação em várias partes do mundo. A partir de uma residência na Cidade Alta, três trabalhadores colocaram no ar uma transmissão radiofônica que, hoje se sabe, marcou o verdadeiro nascimento do rádio no Rio Grande do Norte.

A data, que completa 91 anos nesta quinta-feira (18), foi identificada por uma pesquisa dos professores e pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ciro Pedroza e Valquíria Kneipp. O estudo encontrou registros no jornal católico A Ordem que comprovam o funcionamento da Rádio Sociedade do Rio Grande do Norte, emissora que entrou no ar seis anos antes da criação da Rádio Educadora de Natal (REN), tradicionalmente apontada como pioneira da radiodifusão potiguar.

A descoberta ganha relevância não apenas por corrigir uma data histórica, mas por reposicionar personagens que ficaram à margem da narrativa oficial. Em vez de empresários, políticos ou instituições, os responsáveis pela primeira transmissão radiofônica registrada no estado foram trabalhadores ligados aos serviços públicos e às atividades portuárias da capital. O eletricista dos Correios e Telégrafos Durval Gomes Barbosa, o mecânico da Companhia de Melhoramentos do Porto Romão Lordão Lacerda e o guarda da Alfândega e seresteiro Pedro Machado reuniram conhecimentos técnicos, equipamentos e entusiasmo para criar uma emissora que funcionaria, ainda que brevemente, como a primeira experiência radiofônica potiguar.

Foto: ceida

O estúdio da Rádio Sociedade estava longe da estrutura que mais tarde caracterizaria as emissoras comerciais. Funcionava na casa de Pedro Machado, localizada na rua Presidente Passos, número 546, na Cidade Alta. Era ali que músicos e seresteiros da cidade se reuniam para cantar canções populares, executar serenatas e enviar cumprimentos aos ouvintes. Em uma época em que o rádio ainda despertava curiosidade e fascínio, a programação misturava música, mensagens e a simples celebração da possibilidade de falar para uma audiência invisível espalhada pelos diferentes bairros de Natal.

A pesquisa que levou à redescoberta dessa história teve origem em uma pista deixada décadas antes pelo pesquisador Gumercindo Saraiva. Em 1983, ele publicou um artigo na revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras contestando a versão consolidada de que a Rádio Educadora de Natal teria sido a primeira emissora do estado. Embora apontasse a existência de uma experiência anterior em 1935, o estudo não conseguia determinar exatamente quando as transmissões haviam começado. Foi somente com a análise sistemática dos exemplares do jornal A Ordem que os pesquisadores encontraram as referências necessárias para estabelecer a data precisa do início das operações da Rádio Sociedade.

Segundo Ciro Pedroza, a documentação encontrada permite revisar oficialmente o marco inicial da radiodifusão potiguar. "O que nós pretendemos é que a data de nascimento do rádio natalense seja atualizada, a exemplo do que vem acontecendo em vários lugares do país. Em vez de novembro de 1941, a nova certidão de nascimento do rádio potiguar deve ser conferida ao dia 18 de junho de 1935", afirma o pesquisador em entrevista à Agência Saiba Mais.

A trajetória da Rádio Sociedade, no entanto, foi curta. A emissora operou por apenas quatro meses. Sem conseguir obter autorização junto ao Ministério da Viação, órgão federal responsável pelas concessões radiofônicas na época, acabou encerrando suas atividades em setembro de 1935. O fechamento não impediu, porém, que a experiência deixasse marcas profundas. Muitos dos nomes que participariam da fundação da Rádio Educadora de Natal, criada em novembro de 1941, já haviam colaborado com a iniciativa pioneira, entre eles os comerciantes Carlos Farache e Carlos Lama. A própria REN pode ser vista, sob essa perspectiva, como uma continuação institucional de uma experiência iniciada anos antes por um grupo de entusiastas.

Para os pesquisadores, o reconhecimento da Rádio Sociedade também dialoga com um movimento mais amplo de revisão da história do rádio brasileiro. Nos últimos anos, diversos estudos têm questionado versões consagradas sobre o surgimento da radiodifusão no país. Um dos marcos desse processo ocorreu em 2019, durante o XII Encontro Nacional de História da Mídia, realizado em Natal. Na ocasião, pesquisadores reunidos no evento assinaram a chamada Carta de Natal, documento que reconheceu o dia 6 de abril de 1919 como a data inaugural da radiodifusão brasileira, atribuindo à então Rádio Club de Pernambuco as primeiras transmissões sonoras regulares do país. Entre os participantes da discussão estava o próprio Ciro Pedroza.

A revisão proposta para o caso potiguar segue a mesma lógica: buscar evidências documentais, confrontar narrativas consolidadas e ampliar o reconhecimento de personagens que ajudaram a construir a história da comunicação. Nesse sentido, a pesquisa desenvolvida por Ciro Pedroza e Valquíria Kneipp não reivindica apenas uma correção cronológica. Ela propõe uma mudança de perspectiva sobre quem foram os responsáveis por introduzir o rádio no estado.

Durante décadas, a memória da Rádio Sociedade permaneceu abafada pelo sucesso posterior da Rádio Educadora. A ausência de gravações, o curto período de funcionamento e a falta de reconhecimento oficial contribuíram para que sua história fosse gradualmente esquecida. Ainda assim, as marcas daquela experiência permaneceram registradas em jornais, documentos e referências dispersas que resistiram ao tempo.

Noventa e um anos depois, a redescoberta desses registros permite reconstruir uma cena quase apagada da memória urbana de Natal: uma casa na Cidade Alta transformada em estúdio improvisado, seresteiros reunidos diante de um microfone e três trabalhadores experimentando uma tecnologia que começava a mudar o mundo. Antes das grandes emissoras, dos auditórios lotados e dos programas que se tornariam parte da rotina dos potiguares, foi ali, entre fios, equipamentos improvisados e muita curiosidade, que o rádio natalense encontrou sua primeira frequência.

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