Por Rômulo Sckaff*
O Brasil é o país da conciliação, uma terra onde grandes mudanças nascem de acordos, sem sangue nas calçadas.
É mentira, uma bela fábula, mas é falsa. O Brasil não sofre de amnésia coletiva; ele opera uma engrenagem sistemática de apagamento.
Ao longo dos séculos, sempre que o povo pobre, negro, indígena e periférico ousou tomar as rédeas do próprio destino, a resposta do Estado é o massacre físico e o silenciamento histórico.
Episódios como a Cabanagem no Pará, Quebra Kilos no RN,, a Revolta da Chibata, no Rio, e a Guerra de Canudos, na Bahia, são tratados pela historiografia tradicional como explosões isoladas de fanatismo ou vandalismo.
Mas foram experiências profundas de organização popular que o poder dominante sufocou com violência brutal, seguida por uma meticulosa rasura na memória nacional.
Essa violência pedagógica cumpre uma função política clara: domesticar o futuro através do controle do passado.
Para legitimar a desigualdade, a elite brasileira sempre teve uma necessidade crônica de inventar os seus próprios mitos e heroísmos de gesso. Transforma-se a abolição da escravidão em um “presente” benevolente da monarquia, esvaziando décadas de insurgência quilombola.
Escolhem-se heróis que defendiam os interesses dos proprietários de terras, enquanto líderes populares são empurrados para a marginalidade da história.
Disputar essa narrativa não é apego ao passado; é uma urgência do presente.
Ao convencer a maioria de que ela sempre foi pacífica e dependente da boa vontade dos de cima, a engrenagem do apagamento tenta minar a capacidade de indignação de hoje.
Lembrar da repressão é expor as raízes da violência institucional que ainda corta as periferias.
Mas, acima de tudo, lembrar da insurgência é mostrar que nenhum direito foi doado, todos foram arrancados.
O Brasil oficial pode tentar apagar, mas a história real permanece viva na resistência daqueles que se recusam a silenciar.
*Rômulo Sckaff é historiador, cineasta e autor de:
A Pátria dos Silêncios Proibidos
Histórias que o Brasil tentou apagar
O Brasil não esquece, o Brasil apaga!