Projeto mapeia comunidades tradicionais de matriz africana e ameríndia no RN
Há territórios que existem muito antes de aparecerem em documentos, mapas ou estatísticas oficiais. São espaços marcados pela ancestralidade, pela fé, pela resistência e pela construção coletiva de saberes que atravessam gerações. No Rio Grande do Norte, muitos desses lugares seguem pouco conhecidos pelo poder público, apesar de sua relevância histórica e cultural. É nesse contexto que surge o projeto Mapa do Axé Potiguar – Cartografia dos Terreiros e Comunidades Tradicionais do Rio Grande do Norte.
A iniciativa tem como objetivo identificar, registrar e dar visibilidade aos povos de terreiro e às comunidades tradicionais de matrizes africanas e ameríndias espalhadas por todas as regiões do estado. Mais do que localizar esses espaços geograficamente, a pesquisa busca compreender suas histórias, suas linhagens religiosas, os vínculos construídos com as comunidades do entorno e os desafios enfrentados diariamente por seus integrantes.
Entre os aspectos analisados estão questões relacionadas à segurança alimentar, regularização fundiária, acesso a políticas sociais e os impactos do racismo religioso, realidade ainda presente na vida de muitos praticantes das religiões de matriz africana.
O projeto será oficialmente lançado no dia 27 de junho de 2026, durante a realização do III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiro do Rio Grande do Norte, no Complexo Cultural da Zona Norte, no campus da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Natal.
Apesar da contribuição histórica para a preservação da cultura popular, da memória coletiva e da diversidade religiosa brasileira, as comunidades tradicionais de matriz africana ainda enfrentam dificuldades para serem reconhecidas pelos instrumentos oficiais de planejamento e pelas políticas públicas.
A ausência de informações sistematizadas sobre esses territórios acaba contribuindo para a exclusão institucional e dificulta a garantia de direitos. Por isso, o levantamento pretende reunir dados que permitam compreender melhor a realidade dessas comunidades e subsidiar ações governamentais voltadas às suas necessidades.
“Mapear é reconhecer. É afirmar que esses territórios existem, resistem e produzem vida. Quando uma comunidade aparece nos dados, ela passa a existir também para o Estado. E quando ela existe para o Estado, torna-se possível reivindicar políticas públicas, investimentos e proteção de direitos”, destaca a coordenação do projeto.
Diferentemente dos modelos tradicionais de mapeamento, centrados apenas em aspectos técnicos e geográficos, a proposta do Mapa do Axé Potiguar adota a cartografia social como metodologia principal. Nesse formato, são os próprios moradores, lideranças religiosas, sacerdotes, sacerdotisas e frequentadores dos terreiros que participam da construção das informações.
A proposta entende o território para além de sua dimensão física. Cada espaço é reconhecido como um lugar de memória, espiritualidade, pertencimento e produção cultural. Dessa forma, as comunidades deixam de ser apenas pontos em um mapa para se tornarem protagonistas da narrativa sobre sua própria existência.
Além de gerar informações mais próximas da realidade, a metodologia fortalece processos de organização comunitária e valoriza as formas tradicionais de transmissão de conhecimento.
O trabalho reúne uma ampla rede formada por mais de 70 colaboradores, entre pesquisadores, estudantes, agentes territoriais, lideranças religiosas e representantes de movimentos sociais distribuídos por diferentes regiões do Rio Grande do Norte.
A coordenação está sob responsabilidade da Assessoria de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ASERER) do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), com financiamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
A iniciativa também conta com a parceria da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), da Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do Rio Grande do Norte (Funcern) e do Grupo de Articulação das Matrizes Africanas e Ameríndias do RN (GAMA/RN).
A presença do IFRN em diversas regiões do estado e a atuação dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABIs) contribuem para ampliar o alcance do projeto, aproximando a produção acadêmica das vivências das comunidades tradicionais.
Os dados coletados serão organizados em uma plataforma digital que servirá como instrumento permanente de consulta e acompanhamento das comunidades mapeadas. A expectativa é que o material contribua não apenas para a formulação de políticas públicas, mas também para ações de educação antirracista, valorização da diversidade cultural e preservação do patrimônio imaterial potiguar.
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