RN transforma luta dos terreiros em política de Estado
Natal, RN 28 de jun 2026

RN transforma luta dos terreiros em política de Estado

28 de junho de 2026
4min
RN transforma luta dos terreiros em política de Estado

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“A bênção, meu Pai. A bênção, minha mãe.” Antes de falar sobre leis, políticas públicas ou direitos, Iya Mawo Beatriz de Oxumarê pediu licença aos mais velhos. A saudação, repetida diante de um auditório lotado no Complexo Cultural da UERN, na Zona Norte de Natal, é a força do respeito e sintetizou o espírito do III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiros do Rio Grande do Norte: uma conquista construída pela ancestralidade e projetada pelas novas gerações.

Foi nesse cenário que a governadora Fátima Bezerra sancionou, neste sábado (27), a lei que institui a Política Estadual de Combate à Intolerância Religiosa. De autoria da deputada estadual Isolda Dantas, a legislação cria diretrizes para enfrentar a discriminação motivada por crenças religiosas, promover ações educativas, capacitar profissionais da educação e da segurança pública e fortalecer a garantia constitucional da liberdade de culto.

Mas, para quem acompanha há décadas a violência sofrida pelas comunidades de terreiro, a assinatura da lei representa mais do que um novo instrumento jurídico. É o reconhecimento de uma luta coletiva.

Nós jovens não somos apenas aqueles que darão continuidade a essa caminhada. Nós já fazemos parte dela“, afirmou Beatriz de Oxumarê, representante da Rede de Juventude de Povos Tradicionais de Terreiro (REJOMATE-RN). Em sua fala, ela ressaltou que a preservação dos saberes depende do diálogo entre gerações e defendeu a participação da juventude na construção das políticas públicas.

A continuidade só é possível quando a memória dos nossos mais velhos encontra o compromisso de nós que somos mais jovens.

Ao longo do encontro, a dimensão política da mobilização também foi destacada pela ialaxé Flaviana de Oxum, coordenadora do Grupo de Articulação das Matrizes Africanas (GAMA-RN), uma das entidades responsáveis pela organização do fórum.

A gente enfrenta muita violência juntos. E é juntos mesmo que a gente vai diluir tudo isso”, afirmou, recorrendo ao simbolismo da água como elemento de cura e renovação.

Ao definir o encontro, Flaviana fez questão de romper qualquer tentativa de separar espiritualidade e participação política.

“Esse é um evento religioso? É também. Mas é um evento político. É um evento político que a gente lutou muito para estar aqui.

A lei sancionada estabelece uma política permanente de combate à intolerância religiosa no Rio Grande do Norte. Entre as medidas previstas estão campanhas educativas, incentivo à produção de pesquisas, ações de conscientização, enfrentamento da discriminação em escolas, locais de trabalho e instituições públicas, além da formação de profissionais para acolher e atuar em casos de violência motivada por preconceito religioso.

Autora da proposta, a deputada estadual Isolda Dantas destacou que a existência da política pública parte do reconhecimento de um problema histórico.

Ter uma política de combate à intolerância religiosa é o reconhecimento de que essa intolerância existe e que precisa ser combatida. Essa é a grande razão. Então isso vai acontecer com visibilidade, com mapeamento e com fortalecimento.

Durante a cerimônia, Fátima Bezerra afirmou que a nova legislação responde a uma realidade ainda marcada por ataques a terreiros, discriminação contra praticantes de religiões de matriz africana e violações da liberdade religiosa.

“Isso tem nome. Isso é intolerância religiosa. Isso é também racismo religioso. E combater a intolerância e o racismo religioso é defender a Constituição, os direitos humanos e a democracia”, declarou.

Foto: Sandro Menezes

A governadora também ressaltou que a iniciativa é resultado da mobilização dos próprios povos tradicionais.

Nenhuma lei nasce apenas dentro de um gabinete. As leis mais importantes nascem da luta do povo.”

Segundo ela, a política estadual deverá ser regulamentada e implementada pelo governo para que seus dispositivos saiam do papel.

Além da sanção da lei, o III Fórum Estadual lançou o Museu Virtual das Comunidades de Terreiro e o Mapa do Axé Potiguar, iniciativas voltadas ao registro da memória, dos territórios e dos saberes das comunidades tradicionais.

No encerramento, a mensagem que ficou foi a mesma anunciada logo no início da manhã, quando Beatriz pediu bênção aos mais velhos antes de tomar a palavra. A nova lei representa um avanço institucional importante, mas, para as comunidades de terreiro, ela é sobretudo mais um passo de uma caminhada iniciada muito antes da chegada do Estado — e que seguirá sendo conduzida pela memória, pela ancestralidade e pela organização coletiva.

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