Tragédia do Baldo: motorista foragido vivia no MT com identidade falsa
Aluísio Farias Batista, de 69 anos, condenado a 21 anos de prisão pela “Tragédia do Baldo”, foi preso na sexta-feira (21) no estado de Mato Grosso após 42 anos do caso que deixou 19 pessoas mortas durante o carnaval de 1984 em Natal. Ele mantinha o emprego como motorista, fez identidade falsa e constituiu nova família em Cuiabá.
Natural de Riachuelo (RN), ele tinha 26 anos na época do acidente e conduzia um ônibus que resultou no atropelamento de foliões que participavam do tradicional bloco Puxa-Saco. Após o fato ganhar repercussão nacional, o condenado deixou o seu estado de origem e foi morar em Cuiabá, onde usava documento falso, em nome de uma pessoa já falecida.
A captura só foi possível após uma operação integrada entre as Polícias Civil do Rio Grande do Norte e do Mato Grosso. Aluísio chegou a ser preso na época do crime, mas ganhou liberdade dias após a tragédia e passou mais de quatro décadas foragido. Ele foi julgado à revelia em 2009 e condenado a 21 de anos de prisão por 19 homicídios. A pena só prescreveria em 2029.
De acordo com a Polícia Civil, as diligências para localização do condenado tiveram início a partir da única fotografia disponível dele, registrada no ano do crime. Foram semanas de levantamentos realizados pelo Núcleo de Inteligência, análises em sistema de reconhecimento facial e diligências realizadas pelo setor operacional da Gerência de Capturas da Polícia Civil de Mato Grosso, que localizou uma pessoa com características compatíveis com as do procurado.
No entanto, apenas a semelhança física não era suficiente, sendo necessário aprofundar as diligências. O Núcleo de Inteligência contou com o apoio de outros órgãos de segurança pública, entre eles a inteligência da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) e as diretorias de Habilitação e de Veículos do Detran-MT, que contribuíram para a confirmação da identidade do investigado.
Paralelamente, equipes realizaram diligências em campo para reunir imagens e outras informações que levassem ao paradeiro do condenado. Na sexta-feira (26), os policiais da Gerência Estadual de Polinter localizaram uma residência no bairro Jardim Presidente I, em Cuiabá, onde Aluísio vivia discretamente e já havia formado uma nova família.
Troca de identidade
Durante as investigações, os policiais identificaram que o pai do foragido havia falecido em Tangará da Serra (MT), em 2021, informação que contribuiu para o intercâmbio de dados entre as forças policiais dos dois estados.
Durante a investigação documental, foi constatado que, em 1995, o investigado chegou a emitir um documento de identidade utilizando seus dados verdadeiros e originais no estado de Mato Grosso. Posteriormente, em 1996, um homem morreu em Natal (RN), e o condenado passou a utilizar os dados dessa pessoa morta.
A Polícia ainda não precisou o momento exato em que ele começou a usar a identidade falsa, fato que ainda será investigado. No entanto, as investigações apontam que em 2021 ele utilizou o RG vinculado à pessoa falecida em 1996 para renovar sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e continuar exercendo atividades profissionais como motorista.
A verdadeira identidade foi confirmada por meio do cruzamento de informações cadastrais, análises documentais e procedimentos de comparação facial realizados pelas equipes de investigação.
Após a confirmação da identificação, a equipe de policiais foi inicialmente ao local de trabalho do condenado, mas ele não estava presente. Depois, os policiais se dirigiram à residência dele. No local, ele apresentou inicialmente o seu nome falso, mas, depois que a equipe demonstrou que já sabia a sua real identidade, o motorista confessou seu nome verdadeiro. O homem foi conduzido à Polícia e, posteriormente, encaminhado ao sistema prisional para o cumprimento da pena definitiva de 21 anos de reclusão, em regime fechado.
Motorista foi avisado de hora extra após cumprir expediente
A Tragédia do Baldo ocorreu em meio aos festejos carnavalescos de Natal. O caso foi relatado pelo jornalista Rafael Duarte, diretor executivo da Agência SAIBA MAIS, no livro “Bandagália, o reinado da irreverência”, lançado em 2023.
As vítimas participavam do bloco Puxa-Saco, animado pela banda da Polícia Militar. Pela programação, o bloco seguiria na direção da praia dos Artistas. O percurso incluiria a avenida Coronel Estevam, subiria a avenida Rio Branco, pegaria a Tavares de Lyra até o destino final, a praia.
Na mesma noite, o motorista que trabalhava para a empresa Guanabara conduzia o ônibus fretado pelo município para garantir o translado dos passistas da escola de samba Malandros do Samba, que fazia os últimos ajustes num ensaio organizado pela Prefeitura na avenida Presidente Bandeira. O desfile das escolas ocorreria dali a uma semana.
A publicação conta que Aluísio pegou a primeira leva de sambistas para levar para casa, no bairro das Rocas, e de lá retornaria para pegar os demais percussionistas que aguardavam a hora de ir embora.
O motorista já tinha cumprido seu expediente ao longo do dia e estava pronto para ir para casa, próximo das 23h, quando foi avisado do serviço extra.
“Bastante contrariado e cansado, subiu no ônibus e foi até o local onde os músicos da Malandros do Samba o aguardavam. A bagunça e a zoeira dos sambistas deixou o Aluizio ainda mais irritado”, conta o livro.
A raiva, segundo testemunhas da escola, foi descontada no acelerador, com o veículo em alta velocidade. Por volta de 0h30, já na madrugada de 25 de fevereiro, o ônibus da Guanabara conduzido por ele, placas AB 7527, bateu na lateral de um fusca na descida do viaduto do Baldo no mesmo instante em que o bloco Puxa-saco desfilava naquele trecho, já no início da subida da avenida Rio Branco.
“O público dançava na frente da banda e não havia nenhum segurança ou qualquer proteção para os músicos e os foliões. Após a primeira colisão, Aluízio perdeu o controle do ônibus, atingiu em cheio a orquestra e saiu arrastando os foliões mais próximos dos músicos. De acordo com alguns sobreviventes em depoimento à imprensa local, foi tudo tão rápido que os músicos não tiveram tempo de correr porque o ônibus surgiu atrás da banda e a pouca iluminação também dificultava a visão completa da avenida”, relata o livro.
O motorista largou o ônibus, fugiu pela janela após uma tentativa de apedrejamento e se apresentou três dias depois do acidente, mas foi solto em 3 de março por decisão da 1ª Vara Criminal de Natal, que negou o pedido de prisão preventiva contra o condutor do veículo.
Segundo o relato de Aluísio, havia intensa movimentação de Carnaval no bairro do Alecrim e diversos ônibus estavam à disposição dos foliões. Ele afirmou que já havia encerrado sua jornada de trabalho quando foi solicitado por um superior para substituir outro motorista que não poderia realizar uma viagem.
Ainda conforme sua versão, ao chegar à região do Baldo, enfrentou uma descida com pouca iluminação e conduzia um ônibus lotado de integrantes de outra escola de samba. Em determinado momento, precisou desviar do Fusca que estava à sua frente. Ao retornar para sua faixa de rolamento, encontrou outra escola de samba caminhando na via e, segundo ele, não houve tempo nem espaço para evitar o atropelamento.
Rafael Duarte afirma no livro “Bandagália” que, no dia seguinte, com a cobertura da imprensa trazendo os detalhes da tragédia, a Transportes Guanabara Ltda e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Rio Grande do Norte pagaram, cada uma, um anúncio na capa do O Poti. O jornal era o mais lido do Estado e, também por isso, tinha o espaço publicitário mais caro entre os veículos de mídia. Nos textos, não foram feitos questionamentos sobre a empresa. O alvo foi o motorista.
O episódio ganhou repercussão nacional. De acordo com Aluísio, após o caso ser exibido no programa Linha Direta, ele deixou o Rio Grande do Norte e passou a viver em Cuiabá, onde permaneceu por vários anos.
Tragédia matou foliões, PMs e neto de ex-governador
A Tragédia do Baldo vitimou 12 músicos e 7 foliões. Da orquestra, morreram os militares Acelusio Borges Gomes (2º sargento), Jose Luiz da Silva (2º sargento), Francisco Alves da Silva (3º sargento), Benedito Alves da Silva (3º sargento), Jeth Nunes Gomes (3º sargento), Jose Felix de Lima (2º sargento), Astor dos Santos Dantas (3º sargento), Rizomar Correia dos Santos (3º sargento), Jaeci Cabral de Oliveira (3º sargento), Luiz Inacio da Silva.
Já os civis que tiveram óbito confirmado são Murilo Alberto Viana da Silva (funcionário da Cosern, ex-integrante do The Jetsons), Dinarte Mariz de Medeiros Neto (estudante da UFRN e neto do ex-governador Dinarte Mariz), José dos Santos Xavier (funcionário da UFRN), Simone Teixeira ( estudante da UFRN), Abimael Florêncio Bernardes (estudante), Esdras Cesar da Silva (trombone), Milton Servita (ex-funcionário dos Correios), Dentel (bacharel em Direito), Walace Martins Gomes de Souza (estudante , tocava surdo) e Luiz Inacio Antônio.