Grande Natal: protesto após morte trágica de ciclista cobra ciclovias e segurança
Natal, RN 27 de jun 2026

Grande Natal: protesto após morte trágica de ciclista cobra ciclovias e segurança

10 de outubro de 2024
1min
Grande Natal: protesto após morte trágica de ciclista cobra ciclovias e segurança

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Na última segunda-feira (7) um trabalhador da construção civil, de 56 anos, foi atropelado e morto enquanto retornava do trabalho, na BR-101 Norte, região da Grande Natal. O ciclista, que se deslocava entre o município de Extremoz e a Zona Norte da capital potiguar, foi atingido por uma caminhonete, um ônibus e um caminhão em um trecho mal iluminado. Segundo informações da Polícia Civil, o condutor da caminhonete fugiu sem prestar socorro, enquanto os motoristas do ônibus e do caminhão ficaram no local e prestaram esclarecimentos à Polícia Rodoviária Federal, sendo liberados em seguida.

Este episódio trágico motivou um protesto organizado por diversos grupos de cicloativistas na quarta (9), em forma de uma “Ghost Bike”, uma bicicleta pintada de branco instalada no local do acidente como símbolo de luto e protesto.

A falta de infraestrutura cicloviária e políticas de mobilidade ativa têm sido apontadas como fatores críticos para a ocorrência de acidentes fatais envolvendo ciclistas.

Foto: Danúbio Gomes

O protesto reuniu organizações e militantes que buscam chamar a atenção das autoridades para a urgente necessidade de investimentos em infraestrutura adequada para ciclistas.

Entre os presentes, estava Agatha Knox Figueira, arquiteta, urbanista e pesquisadora em ciclomobilidade, sendo doutoranda em estudos urbanos e regionais na UFRN com o mesmo tema.

Ela ressaltou a principal reivindicação dos manifestantes: “A principal demanda é a construção de ciclovias exclusivas, que devem ser bem projetadas e instaladas em vias de alto risco. Somente com estruturas separadas do tráfego de veículos automotivos será possível reduzir o número de colisões, que em sua maioria resultam em ferimentos graves ou mortes.”

Figueira ainda acrescentou que o número de colisões envolvendo ciclistas em Natal tem se mantido constante nos últimos anos, com maior incidência em vias sem qualquer cicloestrutura, como as Avenidas Dr. João Medeiros Filho e Capitão Mor Gouveia.

Segundo ela, “as obras de infraestrutura seguem sendo concentradas nas regiões de maior renda, enquanto as áreas de maior risco, onde moram trabalhadores que utilizam a bicicleta como principal meio de transporte, continuam desassistidas.”

Danúbio Gomes, integrante do Ciclo Comitê Popular RN, ciclista há mais de 40 anos e militante do ciclo-ativismo há cerca de seis, também participou do protesto e criticou a falta de atenção do poder público para as demandas dos ciclistas.

Ele opinou que a estrutura urbana é prioritariamente voltada para o uso de automóveis, negligenciando outros modais, como a bicicleta. “A segurança do ciclista nas cidades, especialmente nas grandes metrópoles, é um problema muito sério. Toda a estrutura viária é feita para os carros, muitas vezes em alta velocidade, deixando ciclistas e pedestres em uma situação de extrema vulnerabilidade.”

Gomes enfatizou que o número de acidentes fatais envolvendo ciclistas tem crescido tanto em Natal quanto em outras cidades brasileiras, e que iniciativas como a instalação de “ghost bikes” têm como objetivo conscientizar a sociedade sobre a gravidade desses incidentes e a urgência de medidas para proteger quem utiliza a bicicleta como meio de transporte.

Além da implementação de ciclovias em vias de maior risco, Agatha Figueira defendeu outras ações imediatas por parte da prefeitura, como a melhoria de calçadas e travessias e a promoção da educação no trânsito.

Para ela, essas medidas são essenciais para reduzir a vulnerabilidade dos ciclistas e pedestres. “Estamos nos organizando para realizar a quarta edição do ‘Perfil do Ciclista’ em Natal, pesquisa internacional que busca entender as demandas desse grupo e fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas. É preciso tirar os ciclistas da invisibilidade em que são colocados pelo poder público.”

A ação de instalação da “ghost bike” também foi mencionada por Danúbio Gomes como uma forma de memorializar as vítimas de acidentes de trânsito, em sua maioria trabalhadores que utilizam a bicicleta como principal meio de locomoção.

“A bicicleta pintada de branco permanece no local do acidente como um símbolo, lembrando a todos que ali houve uma morte. É um alerta para a sociedade e para os gestores públicos de que vidas estão sendo perdidas nas ruas, e algo precisa ser feito com urgência.”

Confira abaixo a entrevista da Saiba Mais com a arquiteta e urbanista Ágatha Knox Figueira e o ciclista Danúbio Gomes, que participaram do protesto e compartilham suas impressões sobre ciclomobilidade e segurança no trânsito.

Saiba Mais: A quantidade de acidentes envolvendo ciclistas tem aumentado na cidade?

Agatha Knox Figueira: Primeiramente, é importante observar que o termo “acidente” é rejeitado pelo movimento cicloativista, pois sugere uma inevitabilidade, isentando as partes de responsabilidade. O termo correto seria “colisão”. Em relação aos números, entre 2016 e 2020, houve uma estabilidade, mas as vias de maior risco continuam sem infraestrutura adequada. Obras são feitas em áreas de alta renda, enquanto regiões de maior risco, onde vivem os trabalhadores que mais utilizam bicicletas, permanecem sem qualquer proteção.

Saiba Mais: O que o poder público pode fazer imediatamente para garantir mais segurança para quem pedala?

Agatha Knox Figueira: Além da construção de ciclovias em vias de maior risco, é urgente promover a educação no trânsito e melhorar as calçadas e travessias. Ciclovias exclusivas são a solução mais eficaz para proteger os ciclistas, mas é necessário também pensar nos pedestres, já que todos se tornam pedestres em algum momento do trajeto.

Saiba Mais: Há projetos em andamento que visam melhorar a segurança dos ciclistas?

Danúbio Gomes: Existem vários processos abertos por movimentos cicloativistas junto ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), à prefeitura e a outras secretarias. Estamos constantemente pressionando por projetos reais que considerem os dados sobre acidentes envolvendo ciclistas e priorizem a segurança de quem utiliza a bicicleta como transporte diário.

O protesto realizado em Natal não é apenas uma demonstração de luto, mas também um grito por políticas públicas que garantam mais segurança no trânsito, sobretudo para os trabalhadores que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Os manifestantes clamam por ações concretas das autoridades, que precisam reconhecer e enfrentar o problema crescente de mortes de ciclistas nas ruas da cidade.

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