Há 28 anos, PT disputava Prefeitura de Natal em eleição que redefiniu o cenário político do RN
Natal, RN 17 de jun 2026

Há 28 anos, PT disputava Prefeitura de Natal em eleição que redefiniu o cenário político do RN

26 de outubro de 2024
12min
Há 28 anos, PT disputava Prefeitura de Natal em eleição que redefiniu o cenário político do RN

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A deputada federal Natália Bonavides (PT) – candidata que disputa o 2º turno em Natal em 2024 – tinha apenas oito anos de idade quando seu partido, o PT, pela única vez, disputou um 2º turno na capital potiguar. O ano era 1996 e o hoje deputado federal Paulinho Freire (UB) – adversário de Natália na eleição municipal – conseguia, aos 32 anos, sua primeira eleição à Câmara de Vereadores, concorrendo pelo PSDB, um dos muitos partidos pelos quais passou. Em eleições anteriores ficara na suplência, chegando a assumir.

Os dois favoritos ao pleito – como sempre – eram os candidatos apoiados pelas duas principais oligarquias potiguares: o ex-deputado federal João Faustino (PSDB) – da Unidade Popular – esteado pela família Alves (PMDB) em uma aliança que tinha ainda o PPB (atual PP) e que apresentava como vice o então vereador Hermano Morais (PSDB); e a ex-prefeita Wilma de Faria (PSB) – da Frente Democrática pela Vontade do Povo – aliada ao senador José Agripino Maia (PFL), que indicara o vice, o então vereador Marcilio Carrilho (PFL), em uma composição que unia as duas bandas herdeiras do dinartismo – alusão ao ex-governador e ex-senador Dinarte Mariz, morto em 1984 e principal nome da Arena no RN, partido que sustentava eleitoralmente a ditadura militar.

A Frente Popular de Natal, composta por PT, PCdoB e PPS (atual Cidadania), apresentou o nome da deputada estadual Fátima Bezerra (PT), tendo como vice o sindicalista George Câmara (PCdoB), numa repactuação das forças de esquerda, depois de um litigio de quatro anos – quando, nas eleições de 1992, o PT saiu sozinho na capital, e nas de 1994, teve como aliado apenas o PSTU, partido então recém-nascido de sua costela.

Em ambas as ocasiões, as demais forças de esquerda apoiaram respectivamente a candidatura vitoriosa de Aldo Tinoco (PSB), com a benção da então prefeita Wilma de Faria – que tentava se distanciar das oligarquias – e a própria Guerreira, como Wilma (PSB) era conhecida, que, disputando a eleição para o governo do estado, ficara em último lugar, resultado que a fez repensar seu caminhar e retornar a seu ninho político.

A repactuação da esquerda promovida pela Frente Popular de Natal (PT/PCdoB/PPS) não contou com as presenças do PV e do PCB, que permaneceram no barco wilmista, que contava ainda com o PSB, PTB (atual PRD) e o PFL (atual União Brasil). O PSB – partido em que a Guerreira era neófita, mas já comandava – não era mais visto, no RN, como uma força de esquerda, apesar de ainda possuir alguns quadros históricos – em uma época em que as fronteiras ideológicas eram menos fluídas.

Além de Fatima Bezerra (PT), Wilma de Faria (PSB) e João Faustino (PSDB), concorriam ainda à prefeitura em 1996, Leonardo Arruda (PDT), Geraldo Forte (PRP) e Dário Barbosa (PSTU), na primeira eleição em que o PSTU não se aliara ao PT, pondo este no campo ideológico inimigo: “contra burguês, vote 16”, já dizia o slogan da sigla trotskista numa reedição do “Contra Burguês, vote no 3”, usado pelo PT, em 1982. Ainda não era permitida a reeleição e o prefeito Aldo Tinoco (agora no PSDB), pouco influenciava no pleito, tamanho era o desgaste de sua gestão.

Com uma estrutura de campanha abaixo da linha de condições de competitividade, a candidatura do PT tinha pretensões modestas, segundo o jornalista Leilton Lima, da então recém-nascida L4 Comunicação, que pilotava o marketing petista: “O objetivo era superar o resultado de 1992, quando o então deputado Junior Souto (PT) não atingiu 7%”, lembra Lima que, em 1996, contava 29 anos de idade.

Só tem ela!

Fátima jantava com alguns assessores em um restaurante de Ponta Negra, após uma atividade política, quando um dos comensais perguntou ao garçom se ele votaria na candidata petista. “Só tem ela!’’, respondeu. Um dos presentes na boia, Leilton Lima logo recordou das aulas de Comunicação Publicitária ministradas pelo jornalista Cassiano Arruda Câmara no curso de Comunicação Social da UFRN.

Câmara costumava relatar a seus alunos, como case de sucesso, de que modo surgira o lema da candidatura vencedora ao governo do estado nas eleições de 1965: Em uma atividade política do então senador Monsenhor Walfredo Gurgel (PSD), um popular gritou: “É o Padre, é o Padre, é o Padre!’’, sendo este o mote que embalou a campanha do religioso à chefia do executivo potiguar, derrotando o poderoso ex-governador e senador Dinarte Mariz (UDN) por uma diferença de 10 pontos percentuais.

Não foi fácil porém, emplacar o ‘‘Só tem ela!”, como slogan de Fátima, conta Leilton: ‘‘Muitos dirigentes do partido o achavam despolitizado, mas acabei os convencendo”. A intuição do marqueteiro petista era que, a exemplo do caso do padre, a frase dita pelo popular traduzia o sentimento de grande parte da população. ‘‘Só tem ela!” virou também o nome da única câmera da equipe que produzia os programas de TV. Ou seja, não se podia gravar mais de uma imagem ao mesmo tempo e nem de mais de um ângulo. A atividade acabou introduzindo Lima na carreira de diretor de programas de TV.

Em busca de um sorriso, de um jingle e de Alegria, Alegria

Criado o slogan, era necessário mostrar a Fátima que só os mais próximos conheciam: uma pessoa “de boa” e que amava muito Natal, mesmo sendo paraibana. A candidata, entretanto, não ajudava. “Quando ligava a câmera ela ficava sisuda e não olhava para a filmadora. Mas demos sorte porque em uma gravação na praia, passou uma criança do lado e ela riu para o menino. Tínhamos um sorriso para mostrar”, rememora Leilton.

Encomendado ao músico Antônio Ronaldo, “o primeiro jingle de Fátima veio com a beleza e o refinamento de uma canção de Chico Buarque”, recorda Lima. “Ronaldo, ficou lindo. Mas eu quero algo no estilo Sullivan & Massadas’’, ponderou o marqueteiro, se referindo à dupla de ritmakers criadora dos sucessos mais populares do Brasil nas décadas de 80 e 90.

Ali mesmo, na hora, Leilton Lima, também poeta, rabiscou uns versos e entregou a Antônio Ronaldo, que os musicou, fazendo algumas adaptações. Cantada por Cida Lobo nos comícios e por vários artistas potiguares em um clipe oficial, ainda no rastro de “We Are The World” – canção interpretada em 1985 por músicos dos EUA para combater a fome na África – a peça foi o empurrão que faltava na leveza necessária à imagem da candidata: “O Sol nasce em Natal, clareando o litoral …”. O verbo ‘viralizar” ainda não constava nos dicionários, para definir o que aconteceu em seguida.

A cereja do bolo, porém, na popularização da campanha, foi o quadro no programa eleitoral de Fátima em que os atores Beto Vieira e João Pinheiro davam vida aos personagens cômicos Xexeo e Pedro Malazarte, respectivamente. Os diálogos entre os dois abordava problemas da cidade que precisavam ser resolvidos. ‘’É por isso, Pedro Malazarte, é por isso que eu já estou amolando meu dedo’’, dizia Xexeo, passando o indicador no braço em movimento de vai e vem. ‘‘Pra que, Xexeo?’’, perguntava Malazarte. “Pra votar no 13”, respondia Xexeo, numa alusão à novidade daquele pleito, a urna eletrônica – ainda restrita às cidades em que a lei previa possibilidade de 2º turno. Os artistas integravam o “Alegria, Alegria”, companhia teatral de rua fundada em 1982 e já bem conhecida nas ruas da capital potiguar.

De pedra à vidraça

Nos debates na TV, Fátima passou a ser alvo, especialmente de João Faustino, que via seu nome cair nas pesquisas, enquanto o da petista subia. Dezenas de comitês foram improvisados nas residências de militantes, que vendiam material de campanha para arrecadar fundos.

As administrações do PT também eram recorrentes na campanha. O partido já governava grandes cidades do país e vinha colhendo certo reconhecimento internacional, por meio de prêmios conquistados em diversas áreas, como, por exemplo, no combate à mortalidade infantil.

Na capa da edição de três de outubro da Tribuna do Norte – dia da eleição, uma quinta-feira – o então jornal dos Alves anunciava Faustino no 2º turno. O Diário de Natal cravou Fátima. Apuradas as urnas, eis o resultado, em votos válidos: 1ª Wilma (PSB), 36%; 2ª Fátima (PT), 29%; 3º João Faustino (PSDB), 25,5%; 4º Geraldo Forte, 5%; 5º Leonardo Arruda (PDT), 4%; e 6º Dário Barbosa (PSTU), 0,5%. As capas dos dois periódicos estampariam um outdoor do DN, para propagar a credibilidade do matutino dos Diários Associados.

A Frente Popular de Natal ainda triplicou sua representação na Câmara de Vereadores, reelegendo Fernando Mineiro (PT) e elegendo Olegário Passos (PT) e Juliano Siqueira (PCdoB).

2º Turno

Com Wilma (PSB) e Fátima (PT) no 2º turno, Leonardo Arruda (PDT) e Dário Barbosa (PSTU) declararam apoio à petista. O ex-candidato do PSTU, em raia própria, fazendo campanha, apartado do PT: “Fátima sem burguês” era o lema do partido no returno.

Já Geraldo Forte (PRP), candidato outsider e franco atirador que surpreendeu a todos, ficando em 4º lugar – à frente do então deputado estadual Leonardo Arruda (PDT) – declarou voto em Wilma, revoltando o seu vice, Genyldo Benedito (PRP), já que o partido decidira pela neutralidade, segundo Genyldo. Jovem estudante de Ciências Sociais da UFRN, Geraldo Forte – por causa de sua posição no 2º turno – passou maus-bocados no ônibus circular da Universidade, sendo vaiado sempre que entrava no veículo.

Foi criada uma coordenação deliberativa de campanha com membros dos partidos da Frente Popular de Natal, para o 2º turno. Antes, a campanha era tocada basicamente pela assessoria de Fátima e, quando foi ganhando força, pelos partidos e suas militâncias, porém mantendo-se o processo decisório nas mãos da equipe da candidata. No novo cenário, Leilton Lima perdera muito da autonomia que possuía.

Convencida por membros da produtora de TV, conta Leilton, a Coordenação de Campanha resolveu “descansar” a imagem da candidata, após o sucesso no 1º turno. Ou seja, Fátima foi tirada de circulação. “Até eu fiquei com dificuldade de acessá-la. Não havia sentido naquilo, até porque havíamos ficado em 2º lugar no 1º turno. Nós é que precisávamos crescer”, pontua Lima. Enquanto Fátima descansava, a campanha de Vilma arregaçava as mangas e batia na petista, sem dó. A sexualidade da deputada ganhou as ruas, na boca dos wilmistas, gerando o momento-baixaria da eleição.

Mas o que determinou a derrota de Fátima – há quase um consenso sobre isso no PT – foi a imaturidade do partido em lidar com novas situações em que não estava acostumado no RN, como, por exemplo, negociar apoios no 2º turno. Diferente de hoje, o partido era criterioso em suas alianças, mantendo-as no campo da centro-esquerda – prática que se manteve até 2002, quando foi feita uma aliança nacional com o PL, partido que hoje abriga o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A estratégia do rigor nas alianças alavancou a sigla eleitoralmente, especialmente em pleitos municipais, visto que a população a via como diferente, que defendia a ética na política, em meio ao cenário de corrupção da recente era Collor. Tal postura, porém, não era confundida com alianças administrativas e com apoios em segundos turnos. Mas, no RN, na prática, o foi. “Havia um receio de negociar com o establishment”, lembra Leilton. Reza a lenda que o ex-ministro Aluízio Alves (PMDB) telefonou para a sede do partido, quando alguns dirigentes discutiam sobre a campanha. Além de nenhum querer atender, quem o fez, tremeu ao telefone.

Para Leilton Lima, além da imaturidade, havia também certa inexperiência com aquelas novas situações. Ele lembra de uma dificuldade enorme para a assessoria jurídica de Fátima conseguir direitos de resposta ou para impedir que Wilma obtivesse, por exemplo. Um caso bastante simbólico, foi quando um garoto apareceu no programa eleitoral de Wilma agradecendo a ex-prefeita por ela tê-la lhe tirado de uma situação de miséria.

A madrinha do menino, porém, procurou a campanha da petista para informar que se tratava de uma mentira. “De posse da informação, optamos por não produzir conteúdo, mas fazer um release para o DN. O Diário publicou uma matéria a respeito e apenas a repercutimos. Mesmo assim, pasmem, Wilma ganhou um direito de resposta”, relembra Lima, dizendo ainda que a chapa adversária sumiu com o menino: “ninguém o viu mais durante a campanha”, diz.

Apurados os votos, Wilma (PSB) foi eleita prefeita com 51,5% dos votos válidos. Fátima (PT) recebeu 48,5%. O 2º turno ocorreu em 15 de novembro, uma sexta-feira. “As pesquisas apontavam placares bem mais elásticos”, recorda Lima, para em seguida concluir: “foi uma eleição que nos trouxe muitas lições”.

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