Num belo sábado ensolarado, que minha filha e eu já havíamos marcado um programinha diferente juntas, depois de uma manhã tranquila, tomando sol na piscina do prédio e fazendo um almocinho caseiro delícia, mais que depressa devorado, seguimos para o tão esperado, programado, talvez até sonhado, mas com certeza previamente marcado: SPA dos pés.
Em que pese eu ser avessa a vaidades, um autocuidado volta e meia com essa minha parceira de vida é uma ótima desculpa pra um momento mãe e filha, com direito a relaxamento e reflexões diversas. Além do quê, eu queria me mimar um bocadinho, com meu décimo terceiro, né?
Mas o que deveria ser uma terapia, se transformou rapidamente em um programa de índio. E foi nesse momento que me lembrei porque sou avessa a vaidades: ela pode corromper almas e trazer à tona o pior das pessoas.
Pois foi mais ou menos isso que aconteceu no local onde marcamos o tal SPA, pertinho da minha casa, em Águas Claras, no DF. Estava tudo acertado pras 14h, e minha filha chegou uns 15 minutos antes, já sendo atendida prontamente. Mas eu inventei de ser pontual e cheguei às 14h, quando uma folgada senhora totalmente contaminada pela vaidade extrema e uma frescura do caralho ocupava a minha cadeira, mesmo não tendo sequer marcado, programado ou até sonhado com um SPA dos pés.
Entendam: no local existem acomodações reservadas ao tão sonhado SPA dos pés, e outras cadeiras simples para pedicure e manicure, já que se trata de uma esmalteria.
No entanto, esta figura típica de Águas Claras, que não pagou por um SPA dos pés, nutria em sua alma aquele ranço natural de quem paga 10 reais de cota nas confras de final de ano e exige camarão, sabe?
Assim que cheguei, a póbi da manicure que iria me atender tentou resolver a situação na maior diplomacia, mas sem sucesso, pois a queridona, sentada placidamente no meu lugar, bateu o pé, e me deu um pé na bunda.
“Ai, não consigo ficar em outro lugar, porque passo mal”, foi mais ou menos o que disse a criatura. E o momento mãe e filha nunca foi tão perfeito quanto quando eu e minha filha nos olhamos e decidimos: ok, eu não preciso disso, e desisto agora desse bendito SPA, porque o que era pra ser uma terapia, um relaxamento, não poderia ser transformado em caos por uma completa imbecil.
Assim, fiz o que eu realmente mais queria desde o início: gastei o valor do SPA dos pés em cervejas estupidamente geladas no bar mais próximo, enquanto esperava minha florzinha terminar o SPA dela.
No final das contas, cada uma teve seu SPA: ela, dos pés, e eu, do espírito.