Pesquisa da UFRN usa IA para detectar distúrbios mentais antes dos sintomas
A consulta começa de maneira simples: são apresentadas três figuras positivas e solicitado ao paciente que ele crie uma história a partir das imagens mostradas. É essa narrativa que será investigada pelos pesquisadores através de ferramentas computacionais. Sua análise permitirá identificar padrões e poderá indicar, antecipadamente, o possível surgimento de doenças como depressão, ansiedade ou psicose.
“Dois anos e meio antes de alguma desordem aparecer, os pacientes já falavam com maior conteúdo negativo e menos conectados. Para essas pessoas, parece levar para esse contexto de negatividade e para um discurso mais determinista e menos aleatório. Quanto mais determinista, mais severos os sintomas de irritabilidade e isolamento social”, esclarece a neurocientista e psiquiatra, Natália Mota, líder da pesquisa e egressa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Com o uso de inteligência artificial para analisar as formas de expressão, as pesquisadoras acompanharam 4.501 pessoas de 18 a 35 anos em São Paulo. As falas foram gravadas, transcritas e analisadas com algoritmos que criaram uma espécie de “mapa” da narrativa.
“É um rastreio para ver aspectos da comunicação. Essa população analisada não tinha diagnóstico, não estava buscando atendimento clínico. O estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla do professor Alexandre Loth, da Usp, que cobriu diferentes áreas da cidade de maneira equilibrada. As pessoas que expressavam algum sinal de risco eram convidadas a permanecer no estudo”, revela Natália Mota, que desenvolveu parte das ferramentas durante o mestrado, doutorado e pós-doc na UFRN.
“Estudamos aspectos dessa narrativa com ferramentas computacionais. Cada palavra é uma unidade e a sequência é dada por setas que, quando se repetem, fecham ciclos e assim analisamos aspectos de complexidade da narrativa, comparamos com o dicionário padrão e observamos o teor emocional, positivo ou negativo”, acrescenta.

O interesse dos pesquisadores é identificar a forma como essas narrativas são estruturadas. A pesquisa revelou que as pessoas que não desenvolveram nenhum transtorno ao longo do tempo foram, justamente, aquelas que contaram uma história mais diversificada e com mais conexões entre palavras diferentes.
Agora, o protocolo de rastreio faz parte da startup Mobile Brain, fundada há dois anos por Natália Mota, que é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Esses aspectos da complexidade da narrativa é algo que vai se desenvolvendo de acordo com a escolaridade. Não queríamos algo que tivesse caráter patológico, é como a curva do pediatra, que verifica peso e altura, se está crescendo e ganhando peso de acordo com a idade. Conseguimos fazer esse mesmo raciocínio com a startup. Elaboramos uma curva normativa em relação à escolaridade, assim temos como acompanhar se a criança está desenvolvendo a comunicação de acordo com escolaridade, detectamos indícios se a criança está se desenvolvendo de acordo com a idade, conseguimos prever se ela terá boa performance de leitura, os marcadores da oralidade”, detalha Mota.
Durante a análise são observados tanto a expressão emocional, quanto a complexidade da narrativa. Por enquanto, a Mobile Brain está em uma fase piloto, mas a expectativa é que o protocolo possa ser usado em escolas e unidades de saúde.
“Digamos que um gestor tem poucos recursos e precisa ser eficiente. Um dado é levantar como estudantes estão se comunicando. Conseguimos dados agrupados de turmas, áreas e escolas, por exemplo, para saber se a complexidade da narrativa está abaixo do esperado. Equipes escolares conseguem ver quais turmas precisam de mais apoio e planejar ações preventivas nesses ambientes, para utilizar atividades lúdicas, rodas de conversa, educação física, enfim, atividades que ajudem a extravasar e cuidar da saúde de maneira preventiva”, esclarece a pesquisadora.
Na próxima semana o protocolo desenvolvido será apresentado na Bett Brasil, uma das maiores feiras de tecnologia para a educação, que será realizada em São Paulo.
“Imaginamos que o maior impacto será no setor público. Hoje já identificamos sinais de sofrimento em adolescentes, até 2010 era 10%, mas esse valor triplicou globalmente. Isso tem adiantado picos de sintomas que antes apareciam por volta dos 24 anos e hoje surgem em torno dos 15 anos, já com desordens mentais. Temos uma população muito jovem passando por situações desafiadoras. Globalmente, os pesquisadores defendem que, assim como na Covid-19, não podemos pensar que a solução é distribuir tratamento para todo mundo. A ideia é prevenção e promoção à saúde mental, atuar nesses fatores sociais, como o ambiente escolar, que pode ser adoecedor ou promotor de saúde mental, o lugar onde esse jovem encontra acolhimento e pertencimento a essa comunidade, pincipalmente, para população mais vulnerável. Por isso, precisamos ver quais ferramentas de políticas públicas dispomos para isso”, analisa Natália Mota.